Blog de Raimundo Narciso para reprodução por extenso de textos referidos nos seus outros blogs: Puxa Palavra, Memórias e A Grande Dissidência
2014-03-10
2013-12-10
Paulo Portas, Submarinos e 1 milhão de euros na conta do CDS no BES de Ricardo Salgado

O próprio caso Portucale, um outro inquérito em que é investigada a viabilização de um projecto turístico do Grupo Espírito Santo (GES) na herdade da Vargem Fresca, Benavente, começou com suspeitas de uma operação de branqueamento de dinheiro a partir de um depósito numa conta do CDS aberta numa agência do BES. O facto de a entidade beneficiária dos depósitos ser um partido político em que os seus responsáveis exerciam, à data dos factos, cargos políticos nos governos PSD/CDS, obrigou à abertura do inquérito.
Na prática, todo o caso Portucale nas suas diversas componentes – submarinos, projecto turístico de Benavente, alteração do PDM de Gaia para viabilizar construções em terrenos de sociedades do GES, Casino de Lisboa e Autodril/Grão-Pará – está relacionado com o financiamento do CDS e a sua relação com eventuais contrapartidas prestadas por membros dos governos PSD/CDS.
Os investigadores querem saber se o depósito de 1 060 250 (um milhão sessenta mil duzentos e cinquenta euros) nas contas do CDS em montantes que não ultrapassassem os 12 500, entre 27 e 30 de Dezembro de 2004, representou ou não uma vantagem para o partido pelo facto de Paulo Portas, líder do partido e ministro da Defesa à época dos factos, ter entregue o fornecimento dos submarinos ao consórcio alemão German Submarine Consorcio (GSC). As notícias publicadas sobre a compra dos submarinos e os indícios recolhidos durante a investigação do Portucale suscitam aos procuradores a necessidade de aprofundar o caso na medida em que “são aproximadas no tempo” aos depósitos em numerário na conta do CDS. Esta dúvida é documentada com duas escutas telefónicas feitas a Abel Pinheiro, empresário e responsável pelas finanças do CDS, e Paulo Portas. As duas conversas escutadas são apontadas pelo Ministério Público como indiciadoras da existência de acordos ou de ‘compromissos secretos’ quanto ao concurso dos submarinos.
O despacho dos procuradores Rosário Teixeira e Auristela Pereira, que separou o caso dos submarinos do inquérito sobre o projecto turístico Portucale, em Julho do ano passado, assinala outros factos, para lá das escutas. A intervenção da Escom, empresa do Grupo Espírito Santo, no processo de negociação e angariação de contrapartidas relacionadas com a aquisição dos submarinos, e os 30 milhões de euros que recebeu por tais serviços, são também factos sob investigação.
PARA QUEM FORAM OS 30 MILHÕES PAGOS POR ALEMÃES?
A intervenção da ESCOM na qualidade de parceira e de promotora da candidatura do consórcio alemão de submarinos junto do Estado português suscita dúvidas por parte dos investigadores, que procuram esclarecer se houve ou não lugar ao pagamento de comissões. Um dos pontos de partida para esta frente da investigação está no facto de os montantes pagos pelo consórcio alemão à ESCOM ter ultrapassado os 30 milhões de euros, um valor aparentemente desproporcionado face àquilo que o Ministério Público considera ser a real intervenção da empresa no negócio.
A investigação constata que a ESCOM é administrada por um dos arguidos no inquérito Portucale, Luís Horta e Costa, que é, para o Ministério Público, um dos principais suspeitos no que chama promoção ilícita de interesses do grupo GES, liderado por Ricardo Salgado. Os investigadores querem saber se há uma ligação entre os submarinos e os depósitos na conta do CDS, sublinhando que foi preterida a proposta francesa e que esta teria melhores condições. É neste pano de fundo que cabem as escutas a conversas de Abel Pinheiro com Portas, que foram reforçar as suspeitas da existência de acordos ou de ‘compromissos secretos’.
Essas suspeitas estavam já presentes nas buscas feitas à ESCOM e à Espírito Santo Ressources, onde foi recolhida documentação do contrato dos submarinos e das contrapartidas. Esta documentação, apurou o CM, apontará no sentido de ter havido uma imposição da presença da ESCOM como intermediária desejada pelos representantes do Estado português. A documentação permitiu ainda identificar a utilização da ESCOM, sobretudo a empresa-mãe com sede nas ilhas Virgem britânicas, e outras participadas no Reino Unido e Portugal, para a ocultação dos intervenientes e dos beneficiários finais de negócios e de circuitos financeiros, em particular quanto ao pagamento de comissões com permanência no tempo e sem aparente explicação na lógica da associação entre a GSC e a ESCOM.
MP DIZ QUE HÁ MUITO POR ESCLARECER
Na análise feita há um ano aos factos recolhidos durante a investigação do caso Portucale o Ministério Público considerou haver “muito por esclarecer” no processo de aquisição e contrapartidas dos submarinos para a Marinha. Em consequência decidiu abrir um processo autónomo em relação ao inquérito do Portucale e ordenar mais diligências. Os procuradores do Departamento Central de Investigação e Acção Penal (DCIAP) ordenaram à Polícia Judiciária que fosse analisada toda a documentação encontrada nas instalações da ESCOM e pedida ao Ministério da Defesa bem como que fosse solicitada a colaboração internacional a vários países com o objectivo de reconstituir o circuito financeiro das verbas recebidas pela ESCOM. O Ministério Público quer saber a natureza, valor e a quem foram feitos pagamentos a título de comissões e apreciar os trabalhos efectivamente desenvolvidos pela ESCOM na negociação de contrapartidas.
EMPRESAS ENVOLVIDAS
ESCOM
Esta empresa é a holding da família Espírito Santo para o sector não financeiro. Os seus circuitos financeiros e o dinheiro que recebeu são essenciais para a investigação dos submarinos.
ESPART
Esta é a empresa central do GES para o sector imobiliário e alguns dos seus administradores são arguidos no processo. Uma parte da intermediação dos interesses investigados tem a ver com negócios desta empresa no sector turístico.
E.S. RESSOURCES
As buscas feitas no âmbito do processo inicial que vieram a adquirir relevância para abrir o inquérito dos submarinos atingiram também a Espírito Santo Ressources, onde foi recolhida documentação relacionada com o contrato dos submarinos e respectivas contrapartidas.
PORMENORES
21 - Telefones e telemóveis estiveram sob escuta. Os visados foram sobretudo Abel Pinheiro e um dos funcionários do CDS bem como administradores de várias empresas do Grupo Espírito Santo.
14 - São os volumes do processo Portucale. Nos autos estão já milhares de documentos apreendidos, desde os recibos dos depósitos nas contas do PP ao contrato de aquisição dos submarinos.
166 - Apensos ao processo Portucale englobam todo o material da transcrição das escutas telefónicas, um elemento central e decisivo dos dois inquéritos. Uma parte transitou para os submarinos.
44 - São as testemunhas, incluindo os ex-ministros Morais Sarmento e Telmo Correia e Miguel Relvas. Os arguidos são 14 e alguns são suspeitos no caso dos submarinos, que ainda não tem arguidos.
PROTAGONISTAS DO INQUÉRITO
A investigação está centrada no CDS-PP e na liderança de Paulo Portas. Luís Nobre Guedes, Abel Pinheiro e Telmo Correia fazem parte do seu grupo mais restrito e pessoas de grande confiança política e pessoal.
PAULO PORTAS (Líder do CDS e ex-min. Defesa)
DECISÃO DE COMPRAR AOS ALEMÃES SOB ESCRUTÍNIO
Era ministro da Defesa e líder do partido à época dos factos. Nunca foi ouvido em nenhum dos processos - submarinos e Portucale - mas a sua decisão no primeiro caso está sob escrutínio do MP.
LUÍS NOBRE GUEDES (Ex-ministro do Ambiente)
DESPACHO CRITICA MAS ARQUIVA SUSPEITAS
Foi investigado no Portucale por corrupção e abuso de poder mas viu o caso ser arquivado. O MP critica a sua acção no despacho mas considera não haver relevância criminal nos factos apurados.
TELMO CORREIA (Ex-ministro do Turismo)
FIGURA CENTRAL NO CASO DO PROJECTO PORTUCALE
É uma das figuras centrais na viabilização do projecto Portucale mas sobre si não recai a proposta de constituição de arguido. O Ministério Público tem ainda de se pronunciar sobre se acusa ou não.
ABEL PINHEIRO (Responsável financeiro)
VISTO COMO INTERMEDIÁRIO DE INTERESSES
Principal figura desta investigação, e apontado como um intermediário de interesses entre o Grupo Espírito Santo e os ministros do CDS no Governo. Arguido no caso Portucale e suspeito nos submarinos.
OS HOMENS DO GES
No processo dos submarinos vão continuar a ser investigados os administradores José Manuel Sousa, Luís Horta e Costa e Carlos Calvário
OS CRIMES INVESTIGADOS
O Ministério Público quer saber se houve crimes de corrupção activa e passiva para acto ilícito, ainda sem ter suspeitos da eventual autoria desses crimes
INVESTIGAÇÃO COMPLEXA
A razão da separação dos dois processos está no carácter mais moroso e complexo que o Ministério Público atribui ao caso dos submarinos
2013-11-01
De quem são os Bancos Centrais?
Reproduzo aqui um post do economista e politólogo Duarte Nuno Pinto para a evitar que na eventualidade do encerramento daquele blog desapareça esta importante informação.
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"DE QUEM SÃO OS BANCOS CENTRAIS ?
Num recente debate televisivo a propósito da pretensão do PSD de privatizar a Caixa Geral de Depósitos (CGD), um dos defensores desta solução dizia que bastava um banco Público (do Estado), como era o Banco de Portugal, pelo que se podia perfeitamente vender a CGD.
Lamentavelmente, nenhum dos presentes no debate foi capaz de demonstrar que as funções de um Banco Central nada têm a ver com o restante sistema bancário, onde se insere a CGD.
Acresce que sobre a propriedade dos Bancos Centrais na maior parte dos países ocidentais, como é o caso do Banco d´Itália, Deutsche BundesbanK, Banque de França, Banco de Inglaterra, FED (Reserva Federal dos EUA) ou do próprio Banco Cental Europeu, existe uma grande mistificação sobre quem é o detentor do seu capital, tentando-se fazer passar a ideia de que são dos respectivos Estados ou da União Europeia no caso do BCE.
A realidade, que tem sido omitida deliberadamente, é a de que estes Bancos Centrais são o que se pode dizer “semi-privados”, pois os respectivos Estados têm uma percentagem muito reduzida do seu capital, desempenhando no entanto funções públicas de Regulador do sector financeiro e o Estado nomear o seu Governador, sendo os outros membros da Administração nomeados pelo conjunto dos accionistas privados.
O Banco de Portugal é uma das excepções a este panorama, o mesmo que era privado desde 1887, foi nacionalizado em 1974 com o 25 de Abril, mantendo somente a função de Regulador e emissor de moedas e notas, agora por indicação do BCE, cometendo a função de “criar dinheiro” aos bancos privados, onde no caso português se inclui a CGD.
A quem possa fazer confusão o papel que cabe aos bancos privados de “criar dinheiro” a partir de um pedido de empréstimo bancário, e aos Bancos Centrais a função de cunhar moeda e imprimir notas, aconselho a consulta dos seguintes ficheiros video.1, vídeo.2, video.3, video.4, video.5, que constituem a descrição mais clara e objectiva que já vi, da forma como o sistema Bancário Privado cria dinheiro, em seu exclusivo proveito.
Este tem sido um dos segredos mais bem guardados, ao não revelarem ao público a verdadeira origem do dinheiro, e desta forma assegurar o poder dos banqueiros no controlo da economia.
O papel dos Bancos privados nos Bancos Centrais começou a ser largamente divulgado na blogosfera após o banco d`Itália ter colocado na NET a lista das instituições financeiras que detêm as quotas de participação neste banco e quem tem direitos de voto, que pode consultar aqui.
Refira-se que do conjunto de participações, o Estado Italiano tem somente 17.000 quotas num total de 300.000 que constitui o capital do Banco, e 42 votos entre 539 ou seja, menos de 10%.
Com o Banco Central Europeu ocorre o mesmo pois este Banco não é da União Europeia, mas sim dos 17 Bancos Centrais da UE que na sua quase totalidade são semi-privados, mas que na base do Tratado de Lisboa em 2009 passou a constituir formalmente uma Instituição Europeia.
Se olharmos para as notas de euro ou do dólar, vemos que são emitidas pelo BCE e não pela UE e o dólar pelo FED e não pelo Tesouro dos EUA, mas cujo dinheiro gerado é apropriado pelos bancos privados dos respectivos países, como se demonstra nos vídeos atrás citados, que descrevem a forma técnica e administrativa que na modernidade fundamentam a emissão do dinheiro, ajudando a compreender o mundo nebuloso que tem levado toda a economia a uma grande dependência do sector financeiro.
Voltando à questão inicial, se o actual governo do PSD/CDS concretizar a venda da CGD, venderá o único Banco que é na sua totalidade do Estado e gerador de meios financeiros (dinheiro), que lhe permite apoiar estruturas económicas que se considerem estratégicas para o país mas não sejam geradoras de significativas mais valias financeiras.
A Itália decidiu reintroduzir uma taxa sobre operações financeira que tinha abolido em 2007, escandalosamente, e a Comissão Europeia acaba também de anunciar a intenção de taxar as operações financeiras para reforçar directamente o seu orçamento.
Perante a pressão da opinião pública, a Itália vai também aumentar para 35% o imposto sobre os Bancos
O nosso País para ultrapassar as dificuldades que tem deverá assumir posições deste tipo, e não vender activos no sector gerador de dinheiro ou seja, “cuidar da galinha e comer os ovos, em vez de vender a galinha”. "
2013-07-24
Três teses renascentistas para a esquerda
Francisco Louçã
Público
22 de Julho de 2013
Vinte dias de crise e não voltámos à estaca zero. Estamos pior, nas vésperas do segundo resgate. Mas iluminou-se o que era obscuro: o governo é uma dissimulação irrevogável, o Presidente é fraco, o PS tudo promete o que pouco compromete, a Europa fecha-se, o descalabro social rompe pelas estatísticas. Precisamos por isso de um abanão.As três teses que apresento de seguida são propostas para essa insurreição da razão.
Primeira tese: a finança-sombra subjuga a economia que subjuga a democracia.
Há dois meses, o valor do mercado de derivados não regulados ultrapassou um quadrilião de dólares. Duplicou desde o início da recessão e é mais de 16 vezes o PIB mundial. É capital fictício,evidentemente, mas é capital – ou seja, o seu valor é garantido por salários,pensões e impostos, através do controlo implacável da dívida pública. Esvaziado, o Estado deixa de repartir bens públicos porque é uma agência da finança.
Na Europa, a dívida é a máquina que permite simultaneamente perpetuar a renda financeira futura e impor o novo regime social, por via da “corrosão de carácter” a que se refere Sennett: a maior transformação social desde a passagem da economia agrária para a industrial, a precarização absoluta do trabalho qualificado.
A essa economia corresponde uma política-sombra que reduz os súbditos, tirando-lhes tudo e não devolvendo nada.Assim, sem espaço para o centro, os regimes desfazem-se cruelmente. Primeira conclusão: sem vencer a finança-sombra, sobrará uma democracia cerimonial para gerir o empobrecimento radical.
Segunda tese: Na Europa, é preciso o primeiro governo de esquerda que comece a romper o círculo vicioso da subjugação à finança.
Se as chefias da UE e do BCE são instrumentos desta finança-sombra e se não desistimos da Europa, só temos um instrumento realista para começar a viragem: seja na Grécia seja em Portugal,conseguir o primeiro governo de esquerda que enfrente a pressão financeira. Uma nova aliança europeia tem de começar por um governo que esteja disposto a dirigir essa ruptura. O seu ponto fulcral é a tirania da dívida.
Para isso, é preciso constituir uma maioria com um forte campo popular contra a finança-sombra, que reestruture a dívida e devolva os salários e pensões. Depressa, porque a destruição social em curso é irreversível: reconstituir o SNS ou a Segurança Social é trabalho imenso.
Essa vitória é possível. Sem o vórtice do centro, a esquerda fica a única representante das políticas sociais que são a condição da democracia. Segunda conclusão: a esquerda é a única voz da democracia contra o confisco fiscal e para controlar a banca para usar os recursos necessários à criação de emprego.
Terceira tese: o governo de esquerda não se fará com os comprometidos da troika e exige um novo mapa político.
Da forma que se conhece, Seguro tornou claro esta semana que só trata com a direita e que, se não fosse o tumulto no seu partido, aceitaria adiar eleições a troco de alguma coisa. Mas a rebelião,chefiada por Mário Soares, também prova a sensibilidade de tanta gente do PS contra a austeridade.
A novidade decisiva, no entanto, foi a iniciativa do Bloco, que muitos esperavam, provando vontade para o governo de esquerda. Sem condições e com uma agenda clara: a reestruturação da dívida e o Estado Social. A partir de agora, não há mais nenhum obstáculo na esquerda para um entendimento de maioria, a não ser a devoção da direção do PS ao ritual dos acordos com a troika.
Chegamos por isso ao momento da verdade.Seguro ficou a saber que o que não assinou agora fica assinado depois: com a troika, prosseguirá sempre a austeridade castigadora que garante a renda financeira. Corrompido pelo hábito dos interesses, cheio de balofa “pose de Estado”, este centro já não faz política: faz-se de morto, à espera que a austeridade alivie como a trovoada que passou. Engana-se. Terceira conclusão: a austeridade será a nossa vida se desistirmos da vida.
O Renascimento da esquerda depende da força que quer esta viragem. Diziam os antigos que há um tempo da coruja e um tempo da águia, tempo de pensar e de fazer: agora é tempo da esquerda socialista, empenhada num governo que liberte Portugal das garras da finança-sombra.
2013-06-27
2013-06-18
Renegociar já, mas não como os credores querem
Artigo de José Castro Caldas, no Público de 17 Junho 2013
"Com as intervenções da troika, uma parte importante da dívida grega e
portuguesa passou de mãos dos credores privados, internos e externos, para a de
credores oficiais - o FMI, o BCE e os fundos da União Europeia. Para isso
serviram os resgates: para transferir dívida pública tóxica do sector privado
para o sector público."

"Compreende-se assim que, "à partida", os banqueiros não quisessem
nada com a reestruturação da dívida. "Temos de evitar a reestruturação
da dívida o mais possível porque se fizermos perder dinheiro àqueles que nos
emprestaram dinheiro, esses não vão voltar a emprestar outra vez",
disse José Maria Ricciardi [um dos donos do BES],
segundo o jornal Sol, no dia 27 de Dezembro de 2011.
E compreende-se também que a opinião agora comece a mudar. "Se até
2014 a economia não crescer, vai ser necessário reestruturar a dívida",
disse o mesmo Ricciardi em entrevista ao Jornal de Negócios na semana
passada.
Não era difícil perceber o que devia ser feito em 2010 na Grécia e em 2011
em Portugal - Grécia e Portugal deviam ter desencadeado uma renegociação da
dívida tendente à sua reestruturação. Mas a reestruturação atempada da dívida teria feito
"perder dinheiro àqueles que nos emprestaram dinheiro" e
isso era inaceitável para quem condicionava e acabou por determinar as decisões
políticas do momento - os bancos e os fundos de investimento.
A situação agora é outra. Agora, perante os resultados da austeridade,
interessa aos banqueiros garantir a cobrança de alguma coisa antes que as
vítimas da austeridade se tornem incapazes de pagar o que quer que seja. Por
isso falam de reestruturação da dívida.
Será que isso significa que a renegociação da dívida e a sua reestruturação
já não interessa aos povos da Grécia e de Portugal? É claro que interessa. Só a
renegociação, acompanhada de uma moratória, e a reestruturação, com anulação de
uma parte do valor da dívida, redução das taxas de juro e alongamento das
maturidades, pode reduzir o peso dos juros na despesa pública, evitar o colapso
da provisão pública de bens e serviços e libertar recursos para o investimento
e a criação de emprego.
Mas a reestruturação de que Portugal e a Grécia precisam não é a dos
credores. Aos credores interessa aliviar o fardo para que o "animal"
continue a ser capaz de puxar a carroça. Aos povos grego e português interessa
alijar a carga para caminhar em frente, sem condições impostas pelos credores.
A renegociação tendente à reestruturação da dívida de que precisamos tem de
ser conduzida em nome do interesse nacional, contra o interesse dos grandes
credores e salvaguardando os pequenos aforradores. O Estado português tem de
tomar a iniciativa e conduzir todo o processo.
Mas o Governo português, o Presidente da República e a maioria dos deputados
da Assembleia da República fingem não perceber. Estão sentados à espera que os
credores mandem. Em contrapartida, cresce na sociedade a compreensão da
necessidade de agir.
A Iniciativa para uma Auditoria Cidadã à Dívida (IAC), que desde a sua
fundação em Dezembro de 2011 tem vindo a conhecer e dar a conhecer a dívida
pública (ver o relatório "Conhecer a dívida para sair da armadilha"),
lançou, em conjunto com outras organizações, a campanha Pobreza não paga a
dívida: renegociação já!
Responde esta campanha à necessidade sentida pela IAC de complementar o
trabalho de estudo e análise da dívida pública, que prosseguirá, com mais
debate público sobre as causas e as consequências da dívida e mobilização pela
sua renegociação com a participação dos cidadãos.
A campanha envolve uma petição dirigida à Assembleia da República,
instando-a a pronunciar-se pela abertura urgente de um processo de renegociação
da dívida pública, pela criação de uma entidade para acompanhar a auditoria à
dívida pública e o seu processo de renegociação e pela garantia de que nestes
processos existe isenção de procedimentos, rigor e competência técnicas,
participação cidadã qualificada e condições de exercício do direito à
informação de todos os cidadãos e cidadãs.
"Trata-se de fazer ouvir em S. Bento uma opinião e uma vontade que
acreditamos ser maioritária na sociedade portuguesa.
"É certo que quando tudo está a arder uma petição parece pouco. No entanto,
com um número pouco usual de assinaturas, a petição terá força. Confrontando os
membros da Assembleia da República com as suas responsabilidades, poderá
acordá-los para a necessidade de não fazer o que os credores querem."
A petição pode ser subscrita online aqui: «Pobreza não paga a Dívida: Renegociação já!»
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2013-06-17
José Mujica
Sim é o presidente do Uruguai. Ex-guerrilheiro "tupamaro". Quem o vê não dá nada por ele. Mas escutando-o... perceberá então que se trata de um político de natureza diferente dos que por estas bandas pontificam, de conversa engravatada.
É um homem culto e guia-se por valores. Estranho, não é ?
AUDICIÓN en m24
“Cuando un hombre aumenta sus conocimiento no necesariamente aumenta sus valores”, expresó el mandatario.
vie jun 14 2013 12:46
El presidente José Mujica dedicó su audición radial a reflexionar sobre el rol de la educación en la sociedad.
El mandatario comenzó criticando “la superficialidad de las ideas que se manejan para nuestro país no hacen cometer simplistas. Que después nos deja desarmados a las complejidades de la propia realidad”.
Luego el mandatario comenzó a hablar sobre la corriente del iluminismo, “una corriente de ideas que construyó una filosofía política en la que todos los males de la sociedad era consecuencia de la ignorancia y la masificación de la enseñanza nos iban a colocar una sociedad en donde las mayoría de los problemas iban a estar solucionados”.
En ese sentido Mujica reflexionó sobre “la obra de gran importancia” que fue la masificación de la escuela pública en Uruguay, apoyada en el iluminismo. “Fue un esfuerzo de carácter formidable. Se superan algunos problemas y del mano de la educación aparecieron otros (...) Y sobre todo cuando vive en una civilización en el que hace la tuya, y el mercado, y el mercado y el comprar y el comprar y el consumir, y el consumir, se transforman en los valores centrales, no nos deja espacio para disfrutar de la vida", aseguró.
“La ingenuidad del iluminismo está compensada por lo mucho que aportó, pero no podía prever que cuando el hombre multiplica sus conocimiento no necesariamente multiplica sus valores”, afirmó el mandatario.
“Caer en una dependencia material consumista nos impone una vorágine de trabajo que consume nuestra energía, y no nos queda absolutamente nada para las cosas de la felicidad. Yo creo que es demasiado superficialidad el enfoque que veo por aquí y por allá, para explicar el acontecer en la grades urbes y no escapa nuestra sociedad", opinó.
Y concluyó: "Quiero ponerme en guardia a las soluciones que aparecen como fáciles pero no tiene nada de fáciles”.
2013-05-12
Como evitar o corte nas pensões
Eis um muito oportuno artigo do Professor
Valadares Tavares, publicado no Público de 2013-05-12, que oferece ao governo
uma alternativa aos cortes nas pensões e revela, de caminho, a sua
profunda ignorância e impreparação para governar. Mas não se
trata só de ignorância e impreparação. O 1ºM, o MF e outro pessoal da sua entourage são uns
crentes nos dogmas neoliberais, gente muito centrada nos seus
interesses e que nutre um colossal desprezo pelos seus concidadãos que
vivem do seu trabalho.
É urgente demitir o Governo e se o PR
persistir no seu suporte para lá de toda a razoabilidade e decência então há
que pressionar Cavaco a ir de B para B. É simples, é mudar-se de B para B. De
Belém para Boliqueime.
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O Orçamento do Estado
é, em qualquer Estado moderno, o seu principal instrumento de governação, pelo que
deve ser preparado, verificado, negociado e aprovado antes do início do ano
para que possa estruturar as políticas e actuações governativas, inspirar
confiança nos mercados e nos agentes económicos, ajudando estes a planear os
seus Í investimentos e a programar as suas acções.
Portugal viveu nos
primeiros tempos de democracia dificuldades graves de aprovação orçamental,
vivendo-se no “regime dos duodécimos” com custos acrescidos para todos, mas nas
últimas décadas passou a dispor de orçamentos aprovados atempadamente, embora
não executados correctamente, pois em quase todos os exercícios foi necessário
aprovar rectificações orçamentais, a partir do 2.º semestre, e ainda não se
concluiu qualquer ano com saldo positivo! Infelizmente, no ano de
2013, Portugal regressa às dificuldades passadas, estando-se já em Maio sem
saber qual o orçamento que vigora em 2013, o que resulta, não de dificuldades de
aprovação na AR, mas sim da dificuldade de construção pelo Governo de propostas
orçamentais que respeitem a Constituição.
Com efeito, as
recentes declarações governamentais sobre eventuais propostas de alterações
orçamentais, frisando-se que “está tudo em cima da mesa”, parecem indiciar um
clima de brain storm, talvez útil numa
fase muito preliminar de preparação do orçamento - a qual deveria ter ocorrido
no Verão passado, mas certamente nunca em Maio do próprio ano. Este
experimentalismo orçamental, ainda por cima, novamente, baseado em opções com
elevada probabilidade de virem a ser consideradas inconstitucionais por quem
tem competência para tal juízo - o Tribunal Constitucional -, lança o país em
acrescida incerteza, aumentando a sensação de insegurança em todos os agentes
económicos, especialmente consumidores e, por consequência, também nos
investidores já que estes planeian os seus desenvolvimentos em função da
procura.
Como exemplo,
cenarizar novos cortes nas pensões, neste caso do sistema público, e com
efeitos retroactivos (!), agudiza o pânico em centenas de milhares de
consumidores que dispendem a quase totalidade do seu baixo rendimento
disponível médio e gera imediata retracção no seu consumo. Ou seja, é a melhor
forma que o Governo podia encontrar para acelerar a espiral recessiva, aumentar
o crescimento do desemprego e retrair possíveis investimentos futuros.
Importa agora
compreender que a aflição orçamental que vem sendo vivida pelo Governo e pelo
país se relaciona, principalmente, com a necessidade real de reduzir a despesa
pública, o que exige, como é evidente, que os decisores conheçam muito bem
a complexa máquina geradora de despesa mas, infelizmente, as evidências
indiciam o oposto, pois, se assim não fosse, como compreender a convicção,
rapidamente malograda, de que seria pela fusão de algumas entidades que se
faria a reforma do Estado (20l1e 2012)?
Ora todas as análises
comparativas feitas mostram que o nosso sistema público é dos mais complexos,
pois inclui cinco administrações públicas com histórias, lógicas e quadros
legais e regulamentares bem distintos, a Administração Directa (direcões- gerais),
desenhada pela Reforma de 1935, as Administrações Regionais e Autárquicas,
surgidas nos anos 1970, a dos Institutos Públicos (serviços e fundos autónomos),
muito expandida nos anos 1980, a das Empresas Públicas (década de 1990) e a das
parcerias público-privadas, já deste século.
Eis por que quem
nunca viveu a experiência de administração pública ou não a estudou tende a
formar perceções erradas e a não conseguir controlar a própria despesa tal como
os factos evidenciam. Talvez o melhor
exemplo deste desconhecimento seja pensar que o principal problema da despesa
pública seja o montante pago em salários e em pensões quando aqueles já estão
aquém da média europeia e abaixo dos 10%. Pelo contrário,
toda a soma das despesas contratualizadas com outras entidades (investimentos,
bens, serviços e consumos intermédios) totaliza cerca de 17% do PIB, pelo que
gerar aí uma poupança de 10% significa poupar quase 2% do PIB.
Infelizmente, esta
componente da despesa pública não tem vindo a ser analisada ou controlada pois,
senão, como compreender que a despesa com aquisições de bens e serviços dos
institutos públicos tivesse aumentado mais
de 10% em 2012,
no ano de todos os cortes em salários e pensões, segundo os próprios dados do
Ministério das Finanças? Ou compreender o
aumento de mais de 50% desta rubrica na Administração Regional
da Madeira? Quais os
esclarecimentos do Governo sobre este descontrole?
Na verdade, urge não
só rever toda a fundamentação desta vasta gama de despesas como também aumentar
a sua transparência e eficiência. Para tal, uma das medidas mais evidentes
consistirá em substituir a esmagadora maioria actual de ajustes directos,
opacos, e evitando a competitividade e transparência, por procedimentos
electrónicos, abertos a todos os potenciais fornecedores, o que, segundo dados
recentes, permitirá reduzir a sua despesa em mais de 10%,
Atendendo a que o
primeiro- ministro convidou à apresentação de propostas alternativas ao corte
das pensões, aqui fica a primeira sugestão:
reduzir a despesa nas aquisições de bens e serviços dos institutos públicos,
das regiões, das empresas públicas em 10%, o que irá gerar uma poupança
superior à necessária, potenciando a contratação electrónicas compensando os aumentos inacreditáveis que ocorreram em 2011
e.2012.
___________________
Professor catedrátioo
emérito do IST, ex-presidente do INA e presidente da APMEP.
2013-05-01
Cavaco ele mesmo
Baptista Bastos mostra-nos Cavaco. Cavaco por dentro. Cavaco cavaco. Baptista Bastos é um artista da palavra e alia às suas qualidades literárias de grande jornalista e escritor uma larga cultura e uma madura experiência política. Por isso ele lê a alma deste homem que não merecíamos ter por presidente com a mesma facilidade com que eu leio os seus cintilantes artigos.
Para que fique à mão de uma indispensável referência sem as contingências da presença efémera no site do DN aqui o guardo:
___________

Um alarido inusitado, por injustificável, envolveu o discurso do dr. Cavaco
nas cerimónias oficiais do 25 de Abril. No Parlamento a coisa foi pífia, nas ruas
a festa assumiu o carácter do protesto
contra o que estamos a viver. Ouvi e li
o que disse o dr. Cavaco e não fiquei nem surpreendido nem chocado. É a
criatura que há, o Presidente que se arranja, irremissível e sombrio. Medíocre,
ressentido, mau-carácter, incapaz de compreender a natureza e a magnitude
histórica da revolução. E sempre agiu e se comportou consoante a estreita
concepção de mundo com que foi educado. A defesa da direita mais estratificada
está-lhe no sangue e na alma, além de manter, redondo e inamovível, um verdete
avassalador pela cultura. O possidonismo da sua estrutura comportamental pode
ser aferido naquela cena irremediável, em que, de mão dada com a família, sobe
a rampa que conduz ao Pátio dos Bichos, no Palácio de Belém, quando venceu as
presidenciais.

O discurso que tem suscitado tanta brotoeja é o seu normal. Tão mal escrito
quanto os outros; desprovido de conteúdo racional, emocional e ético; e um
atropelo às mais elementares normas de sensatez e equilíbrio exigíveis a quem
desempenha aquelas nobres funções. Espanto e indignação porquê e para quê?, se
ele não tem emenda nem berço que o recomende.
Mas as coisas, ultimamente, têm atingido proporções inquietantes. A ida a
Belém do primeiro-ministro e do ministro das Finanças perturbou o senhor.
Parece julgar-se a rainha de Inglaterra, considerando o papel superior a que a
si mesmo se atribui. A soberba dele sobe de tom, admitindo alguns de nós e
muitos de entre eles que pode haver indícios de oligofrenia, doença incurável.
"Eu bem avisei! Eu bem avisei!", costuma agora dizer, como uma
tenebrosa ameaça. No núcleo estrutural deste homem emerge a complexidade
indecisa de uma alma juvenil irresolvida - e, por isso mesmo, extremamente
perigosa.
2013-02-20
2013-02-05
2013-02-01
Do Rato e dos homens

Não fossem os portugueses ainda com emprego ficar mesmerizados com os recibos
do ordenado de janeiro, o PS encenou, esta terça-feira, um grandioso espetáculo
no Rato. Coisa shakespeariana: um rei fraco rodeado de lugares-tenentes aos
gritos de deslealdade e conspiração ante o anúncio de uma pretensão ao trono,
uma reunião à porta fechada e um final em que o monarca, depois de chamar e
deixar chamar tudo a quem possa pô-lo em causa, abraça o concorrente que não
chega a sê-lo e assume o compromisso de com ele trabalhar em prol da união do
reino.
Em Shakespeare, como em geral, o pano nunca cai depois de uma cena destas. É
só o princípio da intriga e de sangrentas congeminações que inevitavelmente nos
revelam a natureza das personagens e da sua relação com o poder. E que sabemos
nós das personagens? Comecemos pelo rei. Há um ano e meio no trono, não só tarda
em mostrar o seu projeto e valor no campo de batalha como se rodeia de uma corte
apagada e sem chama que, na noite de terça, mostrou também (com raras exceções,
como a de Zorrinho) ser vil. É um monarca que não hesita em recorrer ao insulto,
à ameaça e a insinuações de conspiração - chama desleais aos que com ele não
concordam e que o consideram inadequado, fala ou deixa que por ele falem de
"limpar o partido e o grupo parlamentar" (atribuído pela SIC, na noite de terça,
à direção socialista), acusa quem o defronta de "querer regressar ao passado",
dando alento aos boatos que dizem ser o rei anterior a comandar, do exílio, a
sublevação. Para, numa entrevista na noite seguinte, fazer de magnânimo e
amnésico, cumulando de elogios o adversário da noite transata.
Quanto a este, alcaide valoroso e respeitado, com legítimas aspirações ao
trono, renunciou a bater-se por ele quando ficou livre. Desde a coroação, porém,
não perde uma ocasião de demonstrar o seu desagrado e até desprezo pelo ora rei.
Era, pois, previsível que aglutinasse a esperança dos que consideram estar o
reino mal dirigido e veem nele a esperança da vitória contra o inimigo e a
salvação do povo. Como explicar, pois, que na famosa noite, quando todos
esperavam que se perfilasse como candidato ao trono - o que só pode decorrer do
facto de o ter confirmado aos próximos - se tenha ficado? Faltou-lhe a coragem,
as ganas? Percebeu que não estava garantida a vitória e só quer arriscar não
arriscando? Habituou-se ao conforto de criticar, na sua cátedra da SIC, sem
correr o risco de provar que sabe e quer fazer melhor? Sentiu-se traído, na hora
H, por aqueles de quem esperava apoio? Ou, como alguns aventam, recuou para
tomar balanço, fazendo do recuo (o acordo da união) repto? Seja qual for a
resposta certa (senão todas), sabemos, como sabem os protagonistas, isto: que na
noite de terça algo se partiu no PS, e não há pantomina de união que o disfarce.
O trono pode ter sido segurado, mas o reino está longe de seguro.
2013-01-17
Ricardo Salgado esqueceu-se de declarar 8,5 milhões de euros ao fisco
Artigo no jornal "I"
Por Carlos Diogo Santos e Luís Rosa, publicado em 17 Jan 2013
Antes de ser ouvido na Operação Monte Branco, o presidente-executivo do BES fez três rectificações à sua declaração original de IRS de 2011
Na declaração inicial o presidente do BES referia ter ganho cerca de 1,1 milhões de euros
filipe casaca
O presidente-executivo do Banco Espírito Santo (BES) deslocou-se ao Departamento Central de Investigação e Acção Penal (DCIAP) no passado dia 18 de Dezembro para prestar depoimento na investigação em que estão sob escrutínio os crimes de fraude fiscal qualificada e branqueamento de capitais.
Onze dias antes, Ricardo Salgado liquidou a última de três rectificações de IRS realizadas fora de prazo, num total de 4,3 milhões de euros de IRS pagos a mais face à colecta inicial de Maio.
A primeira declaração entregue foi em Maio, altura em que o presidente do BES liquidou apenas 182 765 euros, o correspondente ao IRS pago sobre um total de cerca de 1,1 milhões de euros de rendimentos seus e da sua mulher, Maria João Bastos.
A primeira rectificação do banqueiro à declaração de IRS de 2011 deveu-se a 25 mil euros de rendimentos de capitais da mulher e a 655 mil euros de rendimentos de capitais no estrangeiro do próprio Salgado que não tinham sido declarados em Maio.
A segunda rectificação foi entregue a 30 de Agosto, tendo por base a declaração de um rendimento total de 8,5 milhões de euros de rendimentos de Ricardo Salgado obtidos em Angola. Este novo valor deu origem a uma liquidação de imposto de cerca de 3 milhões de euros.
Foi já em vésperas de se deslocar ao DCIAP que Ricardo Salgado terá feito a última rectificação, que levou a uma nova liquidação no seu IRS de 2011: 1,3 milhões de euros.
Assim, contas feitas, e ao invés do declarado inicialmente, a colecta correspondente aos seus rendimentos foi superior a 4,5 milhões, e não de 183 mil euros.
Esta situação é semelhante ao que o i tinha já noticiado em relação a Amílcar Morais Pires, administrador-executivo e chief financial officer (CFO) do BES, que também declarara inicialmente rendimentos inferiores aos que realmente auferiu neste ano, sendo obrigado a pagar mais 1,1 milhões de euros de IRS.
Ligação à Operação Monte Branco A ligação de altos quadros do BES à Operação Monte Branco terá surgido, segundo o i apurou junto de fontes judiciais, quando Rosário Teixeira, procurador do DCIAP, requereu autorização ao juiz Carlos Alexandre para realizar buscas à sede do BES Investimento, com o argumento de que existiam indícios da prática dos crimes de fraude fiscal qualificada, branqueamento de capitais, tráfico de influências, corrupção e abuso de informação privilegiada nos processos de privatização de 21,35% da EDP, concluído no último semestre de 2011, e de 40% da REN, adjudicada em Fevereiro de 2012.
Um dos motivos que podem ter estado na origem destas regularizações ao fisco por parte de Ricardo Salgado é a tentativa de precaver qualquer acusação pelos crimes de fraude fiscal e de branqueamento de capitais. Isto porque, desde a Operação Furacão, o DCIAP tem o entendimento (sufragado pelo Tribunal da Relação de Lisboa) de que o pagamento dos impostos em falta pode levar à suspensão do procedimento criminal.
Questionada pelo i, fonte oficial da Procuradoria-Geral da República garantiu, contudo, que até ao momento ainda nenhuma suspensão provisória do procedimento criminal foi conseguida no Processo Monte Branco, pelo que estas regularizações tributárias não serviram até agora de base a nenhuma decisão: “O processo não atingiu ainda a fase das decisões de suspensão provisória.”
Reacção do BES Contactada ontem cerca das 20h, fonte oficial do BES desmentiu a existência de qualquer fuga ao fisco por parte de Ricardo Salgado. “A informação enviada é falsa: o Dr. Ricardo Salgado não foi ao DCIAP explicar qualquer ‘fuga ao fisco’. Essa informação é caluniosa e enquadra-se numa saga de mentiras que o jornal i vem prosseguindo relativamente a quadros do grupo BES.”
________________________________A mais de 4,5 milhões de euros de IRS terá correspondido, feitas as contas aos valores acima referidos, uma receita de mais de 14 milhões de euros. Receita pessoal do Sr. Ricardo não do BES!
2012-12-16
Artur Baptista da Silva? Será mesmo esse o seu nome?

O insólito acabou por propiciar no meio da desgraça nacional umas boas gargalhadas neste fim de ano de 2012, ano em que o governo do país se revelou ser uma fraude, ser de facto um agente da banca nacional e internacional contra o seu próprio país.
O Sr., supostamente Artur Baptista da Silva, para dizer o que tinha para dizer teve necessidade de se adornar com todas aquelas lustrosas plumagens científicas e políticas. Foram as ideias que expôs muito aplaudidas mas a seguir totalmente desvalorizadas. Afinal parece que mais do que argumentos o que vale é o trajo do conferencista.
Da entrevista dada ao Expresso de 2012-12-15 por (supostamente!) Artur Baptista da Silva ficam aqui uns extratos
2012-11-06
João Ferreira do Amaral
Entrevista dada à TSF
Entrevista dada a DINHEIRO VIVO em 03/11/2012.
João Ferreira do Amaral garante que a refundação do Estado é um acelerador da recessão. "O modelo tem de ser outro", diz
03/11/2012 | 00:00 | Dinheiro Vivo
Entrevista dada a DINHEIRO VIVO em 03/11/2012.
João Ferreira do Amaral garante que a refundação do Estado é um acelerador da recessão. "O modelo tem de ser outro", diz
"Se agora cortamos 2 mil milhões, daqui a dois anos cortamos 6"

João Ferreira do Amaral
Diana Quintela
Diana Quintela
João Ferreira do Amaral conhece bem o FMI. Esteve nas primeiras negociações em 1977 e repetiu na crise de 1983, quando Portugal foi obrigado a desvalorizar o escudo. Hoje, não percebe os modelos do Fundo. Nem a insistência na austeridade, que levará o país - garante, em entrevista ao Dinheiro Vivo e à TSF - ainda mais fundo na recessão.
Foi relator do CES num parecer que foi muito crítico à política orçamental e à estratégia deste governo. Agora foi substituído por outro relator. Porquê? Porque foi demasiado crítico?Não, penso que não. Não sei. Não sou eu que me nomeio relator, mas penso que não. Teve que ver com a natural rotação. Já no ano passado também não fui relator do parecer sobre o orçamento para 2012. Tem havido uma rotação que acho muito bem, aliás.
Não acha que estar mais próximo do PS nesta altura, ou ser visto como mais próximo do PS, pode ter influenciado?Não, penso que não. Aliás, não sei se o grau de criticismo que vai aparecer no próximo parecer, que será aprovado brevemente, será inferior ao que constava no documento de estratégia orçamental. E convém dizer que o parecer não é do relator.
Portugal gasta anualmente cerca de oito mil milhões em juros. Se não os pagássemos o défice seria zero. É inevitável renegociarmos a nossa dívida?Dependerá muito do crescimento económico. A grande probabilidade é que, mais cedo ou mais tarde, vamos ter de renegociar prazos e juros, porque não vejo que o crescimento económico se possa acelerar muito rapidamente nos próximos anos - e basta que o crescimento seja zero ou um pouco negativo, como tem sido em termos nominais, isto já incluindo o aumento de preços, para a dívida ir ganhando peso mesmo que o défice seja muito pequeno. Portanto, como esta espiral a certa altura torna-se ingerível, a probabilidade é de que um dia vamos ter de renegociar prazos e juros da dívida.
Mas nunca um corte como foi feito na Grécia, um corte agressivo do montante total da dívida?Bom, isso dependerá da situação. Eu espero que não se chegue a essa situação, porque isso tem sempre consequências muito nefastas a prazo. Um corte, não um reescalonamento mas um corte em si próprio, tem tendência a perpetuar-se em termos de desconfiança durante muito tempo.
Tem defendido que Portugal deveria sair de uma forma organizada do euro. Mas ninguém, nem os partidos mais à esquerda, parece defender isso. Vamos mesmo acabar por sair de uma forma atabalhoada?Há uma grande probabilidade de isso acontecer porque, olhando friamente para as condições em que Portugal está, não vejo como possa sustentar--se dentro da zona euro. Isto muitas vezes não é apontado porque estamos muito focados em questões financeiras, mas as recessões financeiras não surgem por acaso, surgem porque temos um profundo desequilíbrio na estrutura produtiva, que se foi acumulando ao longo do tempo desde a altura em que começou o caminho para a moeda única, e ainda antes de a moeda única estar realizada. Gerámos, desde essa altura, um desequilíbrio muito grande na estrutura produtiva. Há vinte anos, quando começou o caminho para a moeda única, o nosso sector industrial pesava 24% do produto interno bruto (PIB). Hoje pesa 13 %, que é metade do que pesava em 1953, quando começou a haver contas nacionais. Nenhum país consegue prosperar e crescer assim, é impossível.
Não podemos ser um país de serviços?Não podemos ser porque, embora tenhamos vocação para o turismo e o turismo possa subir mais, nenhum país com uma dimensão como o nossa pode sobreviver só de serviços. Para reverter isso é preciso um choque competitivo, é preciso investir na indústria ou na agricultura. Como é que se diz isso aos empresários? Desvalorização da moeda. Se eu desvalorizar a moeda, torno automaticamente muito mais rentáveis este sectores.
De quanto dinheiro é que Portugal precisaria para essa saída organizada da zona euro?Precisaria de dinheiro e precisaria de alguns compromissos europeus, por isso é que tem de ser negociada e organizada. O que acho que vai ser necessário, em qualquer caso, é um empréstimo, para obter o financiamento externo enquanto a desvalorização cambial não der resultado. A desvalorização cambial não dá resultados no dia seguinte, demora um ano e meio e, portanto, é preciso esse empréstimo. Há um segundo aspeto importante: garantir que o Banco Central Europeu (BCE) continuasse a renovar a dívida dos bancos portugueses durante algum tempo. A forma equilibrada de sair seria nós passarmos a pertencer àquilo que se chama o mecanismo de taxas de câmbio dois, que regula as relações entre os países do euro e os países da União Europeia que não estão no euro, o que significa que a moeda teria de ter uma paridade definida em relação ao euro. E, depois, o BCE e o Banco de Portugal seriam responsáveis por manter a moeda no dia a dia dentro de parâmetros.
Os países fortes da zona euro pagavam para ver Portugal fora?Penso que sim. Vão ter de pagar à mesma para nos mantermos na zona euro, com uma vantagem, é que a saída da zona euro, a prazo não muito longo, era menos um problema que teriam. Porque, não tenhamos ilusões, não temos capacidade para estar na zona euro com a estrutura produtiva que temos.
Nesta altura eles já preferiam estar a pagar para sairmos do que estar pagar para continuarmos?Penso que nesta altura não. A zona euro está muito instável e não proponho a saída de Portugal nesta situação. Primeiro é necessário que a zona euro estabilize para depois podermos pensar numa situação sustentável a prazo - e na nossa saída da zona euro. Neste momento, nem por sombras, acho que isso poderia desencadear um processo muito complicado dentro da zona euro.
Grande parte dos economistas defende que a competitividade do país só pode aumentar através da redução do custo no trabalho. Nunca defendeu essa hipótese. O que lhe pergunto é se há outra forma de aumentar a competitividade?Hoje, o problema salarial não é importante do ponto de vista da competitividade. A nossa perda de competitividade teve que ver com o facto de investir em sectores protegidos da concorrência externa, ser mais rentável do que estar a investir em sectores que têm concorrência externa, os chamados bens transacionáveis. A nossa competitividade não tem que ver com salários, tem que ver com o facto de a nossa estrutura produtiva estar desequilibrada. Se eu descer os salários, desço para todos os sectores, não só para aqueles que é preciso de-senvolver. A questão salarial é um mito que não vai resolver em nada a questão da competitividade.
Na Grécia, continuamos a assistir a uma situação muito, muito complicada: o desemprego não para de subir, não há crescimento. Em Portugal também não. Estas previsões do governo são credíveis: 16,4% de desemprego em 2013?Não, não me parece. Já no ano passado, por esta altura, disse e escrevi que não acreditava nos objetivos para este ano - e de facto não se verificaram. O desemprego será bastante superior porque a recessão económica vai ser bastante mais funda do que 1%. Não é só uma questão de se eliminarem postos de trabalho, há também que ter em conta a emigração, portanto, a taxa de desemprego dependerá muito do fluxo de emigração. Mas não ficaria espantado se fosse, por exemplo, aos 18%. A queda do produto interno bruto dificilmente será inferior à deste ano.
Nunca teremos uma recessão inferior a 3% no próximo ano?Se o Orçamento for adiante como está, sim, acho que não teremos menos do que 3% de recessão. O consumo vai descer mais do que o governo prevê. A austeridade é mais funda para o ano que vem do que este ano e as famílias estão muito endividadas. Portanto, medidas de redução de rendimento em geral, quando as famílias estão muito endividadas, amplificam muito os efeitos. Se além disso houver já algum corte de despesas a nível social, as famílias têm mesmo de o fazer - e, portanto, se o Estado obriga a que isso seja financiado pelas famílias, elas deixarão de consumir mais noutros aspetos. O consumo vai descer bastante e isso provocará uma recessão maior e desemprego maior.
Vamos ter eleições mais cedo do que o que estamos à espera?Não sei. Acredito que há uma grande possibilidade de haver uma crise política, se se verificar que os objetivos orçamentais não estão a ser cumpridos. Se isso dá origem a eleições ou não, não tenho uma bola de cristal.
E seria quando?Diria que lá para abril. Ou seja, tendo os dados de janeiro a março, penso que já se vai poder formar uma ideia de como a economia está a evoluir e como é que as finanças públicas estão a evoluir.
Nem o IRS - que tem um aumento enorme até fevereiro - pode dar alguma margem de conforto ao governo? Mesmo com o desconforto das famílias?Poderá dar alguma margem, mas repare: as famílias começaram já a reagir, já com os anúncios - e ainda não entrou em funcionamento o Orçamento. Os indicadores apontam que as famílias começaram a reduzir o consumo. A recessão será muito profunda, o desemprego vai aumentar e, portanto, as despesas do Estado vão crescer; os subsídios de desemprego e as receitas da Segurança Social vão diminuir. Portanto, isto acontece mesmo que o IRS mantenha os níveis que o governo pensa - mas também vai reduzir, porque aqueles que estão empregados e deixam de estar pagarão menos IRS.
Vou citá-lo: "Acho Vítor Gaspar um ótimo economista mas não concordo com ele." O governo já falhou quase todas as previsões para 2012. Como é que um ótimo economista se engana tanto?É um ótimo economista porque tenta acertar, tenta usar os instrumentos que existem para acertar e conhece bem esses instrumentos, tem experiência na sua utilização. Eu não concordo com ele precisamente porque acho que esses instrumentos não dão resultado. Esses modelos, que são utilizados também nas organizações internacionais, nomeadamente pelo Fundo Monetário Internacional, não têm em conta a realidade portuguesa em vários domínios, não têm em conta o alto endividamento das famílias, não têm em conta o facto de o emprego estar muito ligado à procura interna e, portanto, quedas da procura interna fazem aumentar muito o desemprego. Por isso, não admira que o governo e o FMI e a troika em geral tenham ficado surpreendidos com o aumento do desemprego e com a profundidade da recessão.
Acha que o ministro das Finanças ainda está demasiado refém da experiência que teve no BCE e da visão académica que tem?Todos nós somos reféns da nossa experiência passada, e a certa altura é difícil mudar. Eu reconheço... Enfim, com a idade que ele já tem e com o seu percurso, não penso que de repente, um dia, se ilumine como São Paulo e ache que a forma de pensar a economia é outra. Mas a certa altura as pessoas têm tendência a sedimentar os seus conceitos e as mudanças não são muito drásticas.
Este tipo de política económica não acaba por estar também a matar o próprio mercado que se considera que pode salvar a economia?Sim, põe muito bem a questão. Estas medidas são muito drásticas. E a responsabilidade também é do Fundo Monetário Internacional, que neste programa e nos anteriores sempre achou que era assim que se resolvia o problema. A questão é que as medidas drásticas podem fazer disfunções nos mercados, podem dar origem a comportamentos de economia paralela por exemplo, a não cumprimento de regras mínimas de concorrência e por aí fora. E, portanto, não só acaba por ser mau em termos macroeconómicos como muitas vezes acaba por ser mau também em termos microeconómicos, porque faz uma disfunção completa em alguns os mercados. O caso mais evidente é a fuga e a evasão fiscal e a fraude fiscal; quando se tenta forçar as coisas, aumenta-se o incentivo para fugir.
Tem defendido que a diferença entre Portugal e os países do norte da Europa está sobretudo na eficácia da cobrança fiscal. Mas a maior parte das pessoas, sobretudo quem vive só do trabalho, já tem uma carga fiscal enorme em cima.Se aumentar a eficácia fiscal, tenho margem para diminuir os impostos daqueles que pagam , e esse é um dos aspetos mais importantes da justiça: equidade fiscal. Repare, nós temos uma economia paralela que é avaliada em cerca de 25% do PIB. Mas se for a países do Norte terei 10%, 12%. Isto quer dizer que há uma boa parte do PIB que não é sujeita a impostos. E se for à Grécia, então será uma coisa incomensurável. Portanto, se eu conseguir meter dentro da legalidade esses sectores, posso baixar a carga fiscal individual, e isso, do meu ponto de vista, é que é civilizado. Além disso, para além destes aspetos de mais equidade social, há também os aspetos da concorrência. Porque empresas que fogem ao fisco, ao IVA, estão a concorrer deslealmente, além de tudo mais, com as empresas que cumprem. Por isso, penso que esse é um aspeto fundamental. Independentemente das ações punitivas, digamos, que são importantes e fiscalizadoras, é também importante criar um enquadramento em que não seja possível ou útil fugir aos impostos.
Há aqui uma fatia da sociedade que devia ser mais taxada e que não o está a ser nesta altura?Isso é difícil de dizer porque fala-se muito de rendimentos que não são taxados, mas é preciso ver que algumas vezes esses rendimentos, se forem taxados, podem dar origem a comportamentos negativos do ponto de vista da economia, como fuga de capitais. Portanto, as coisas têm de ser feitas com algum cuidado. Eu penso que, com este aumento da carga fiscal, reduziu-se, e esse aspeto é verdadeiro, reduziu-se bastante, digamos, a disparidade entre rendimentos por origens. Agora o grande problema do IRS são os escalões tal como estão feitos, a meu ver estão desequilibrados. É uma carga excessiva para as pessoas que têm realmente rendimentos médios ou baixos.
Nesta semana, a maioria aprovou o Orçamento e o governo convidou o PS a participar de forma ativa naquilo a que chamou refundação do acordo com a troika. São quatro mil milhões de cortes permanentes na despesa a efetuar em 2013 e 2014. Há alguma coisa que o Estado possa deixar de fazer? Ou cortar?O Estado faz hoje, em Portugal, o mesmo, e às vezes até menos, do que faz a generalidade dos Estados na União Europeia. Os Estados da UE têm as funções de soberania, a segurança, a justiça, os negócios estrangeiros, etc. Depois têm as funções sociais, educação e saúde. Não gastamos mais, nem por sombras, do que se gasta por essa Europa fora. Pode-se, evidentemente, melhorar a eficiência e reduzir as despesas para obter o mesmo resultado, mas não creio que isso sejam quatro mil milhões de euros. Creio, sim, que isso é um absurdo e é preciso ver como é que surgem esses quatro mil milhões de euros. Penso que aí o Partido Socialista tem razão: isto resulta em grande parte da estratégia seguida de provocar uma grande recessão. É evidente que quando se provoca uma grande recessão, obviamente, depois as coisas não chegam - cobra-se menos impostos, o défice mantém-se, é preciso cortar mais despesa, depois ainda vai agravar mais a recessão, e por aí fora. Ouvi que já estariam três mil e quinhentos milhões de euros destinados a ser cortados nas funções sociais, mas não nos esqueçamos de que a Segurança Social estava equilibrada. Só se desequilibrou este ano devido justamente à recessão. Esta estratégia não tem futuro nenhum. Se estamos agora a cortar quatro mil milhões, daqui a dois anos estamos a cortar seis mil milhões. Isto vai ser uma bola de neve que nunca mais acabará. Não faz sentido.
O FMI está a ajudar o governo a cortar esses quatro mil milhões. O PS deve aceitar o convite do governo para discutir o Estado?Não sou sequer militante do PS, portanto, o PS fará o que quiser. Agora, se o PS disser que não aceita, dou-lhe 100% razão. Por dois motivos. Em primeiro lugar, porque não faz sentido; colaborar nisto seria dizer que concorda com a estratégia que foi seguida e, a meu ver, isso é errado. Em segundo, se as coisas já estão decididas, o que é que o PS vai lá fazer? O PS fará o que entender, mas percebe-se se disser que não. É um convite envenenado, como é evidente. E aceitar como bom que é preciso cortar quatro mil milhões de euros não é nada líquido. É resultado desta estratégia recessiva.
Esteve, quer com Mário Soares quer com Jorge Sampaio, na Presidência da República e foi assessor deles, aconselhou-os. Acha que nesta altura em que o Estado vai ser refundado a Presidência da República é mais permissiva face a essas duas presidências, face a essa refundação do Estado? Está mais alinhada com a necessidade de reduzir o Estado ou não?Não será, a meu ver, uma diferença muito substancial justamente por aquilo que eu digo, não é muito nítido ver onde é que o Estado pode reduzir as suas funções, porque mesmo dar em concessão não reduz a despesa. Pode é haver melhor prestação do serviço. Eu sou a favor até de concessões em alguns serviços, desde que devidamente estabelecidas. Reconheço que para o Presidente Cavaco Silva, tanto quanto percebo nas suas declarações, isto seja complicado. Se estão recordados, de há uns anos a esta parte, ainda nem era presidente nem candidato a Presidente da República, era adepto de um choque fiscal, um choque fiscal no sentido de uma redução grande de impostos, para impulsionar a economia, e o que está a suceder é justamente o inverso. Portanto, penso que do ponto de vista dele não deve ser fácil, enfim, lidar com esta situação. Também não estou a ver o professor Cavaco Silva, pelo discurso que tem tido, dizer: "Agora o Estado deixa de prestar serviços de saúde ou deixa de prestar serviços de educação", não estou a ver. É uma situação muito complicada mas previsível, quando se provoca uma recessão da profundidade que esta tem. Quando se continua no mesmo caminho, é evidente que as coisas não chegam, a Segurança Social começa a entrar em incumprimento ou a aproximar-se disso, pelo menos, começa a entrar em défice. Depois houve ainda aquelas habilidades deste e dos anteriores governos com os fundos de pensões, que também acabam sempre por se pagar mais tarde. As sociedades modernas não estão feitas para viver em recessão, estão feitas para haver crescimento económico. Eu não digo que possamos ter um crescimento muito grande, mas pelo menos estou plenamente convencido, e digo-o sinceramente: se a carga fiscal não fosse aumentada na proporção que vai ser, teríamos mais chances de cumprir o défice de 4,5% do PIB. Só que assim, porque a recessão provavelmente não existiria, ou seria muito suave, esta vai ser de tal maneira que não vai ser possível cumprir os 4,5% do PIB. A quem é que isto serve? Eu não entendo. É um mistério que não compreendo, que já se deu na Grécia e que está a suceder agora em Portugal.
Este FMI está preparado para desenhar programas de ajuste em países que não têm uma moeda própria?Há uma grande diferença em relação aos programas de 1967, 1968 , 1983 e 1984, que é justamente não termos moeda própria. E esta receita não funciona. Não funciona sem moeda própria. Porque há dois objetivos que só são compatíveis com moeda própria e a desvalorização cambial. O objetivo de redução de défice externo e o objetivo de redução de défice público. O défice externo na economia no seu conjunto, e défice do Estado. Quando não há moeda própria, para se reduzir o défice externo é preciso reduzir muito a procura interna para reduzir as importações e equilibrar a balança de pagamentos. Mas ao fazer-se isso está a pôr-se em causa o objetivo de redução do défice do Estado - porque recebe menos receitas e tem de aumentar as despesas, porque há mais desempregados. As duas coisas não jogam. O FMI sempre se preocupou mais com o défice externo, a Comissão Europeia sempre se preocupou mais com o défice público, que é o que vem nos tratados, e o resultado disto é que as duas coisas acabam por não jogar. Nós reduzimos muito o défice externo este ano - até praticamente o equilibrámos - à custa de uma grande redução da procura interna. Agora, tentar atingir as duas coisas não se vai conseguir. E penso que é isso que o Fundo Monetário Internacional não terá entendido: o problema da dimensão deveria ser compreendido.
Costuma falar com alguma regularidade com António José Seguro. O que é que ele lhe pede?No fundo, o que me pede - o que, aliás, outros secretários-gerais do PS também pediram -, uma opinião sobre a situação económica, e eu dou-lhe aquela que sei e que posso dar. Não sou militante, mas penso que é importante um secretário-geral de um partido ouvir pessoas, mesmo que não sejam militantes. Faço os possíveis para dar a minha visão e não há qualquer diferença entre o que eu digo em privado ou em público.
A atividade política - para ser mais direto, um cargo governativo - é uma atividade que não lhe interessa?Não, não me interessa definitivamente. Já fui convidado em tempos e recusei, não tenho vocação para isso e acho que uma atividade governativa é tão exigente de ponto de vista pessoal que ou se vai muito empenhadamente para lá ou então é um desastre. E eu não tenho esse empenho - e agora com a idade ainda menos teria do que há uns anos, portanto, isso está completamente afastado. É uma coisa que nem sequer me punha. Nem é uma questão de discordância ou concordância política, ponho-me, à partida, pessoalmente fora.
O que sugere a António José Seguro enquanto plano para os próximos dois anos?Aquilo que tenho defendido publicamente: a redução do défice do sector público, justamente pelo facto de que deve ser acompanhada de uma redução do défice externo. Os dois objetivos são importantes, mas, justamente porque são conflituantes na ausência de moeda própria, entram em conflito; deve fazer-se de forma muito gradual. O problema disto foi tentar-se reduzir zero o défice externo e ao mesmo tempo fazer uma grande redução no défice do sector público - as coisa não jogam. Se se fizer gradualmente, obtém-se melhores resultados sem provocar recessão e creio que os credores ficarão muito mais bem defendidos nos seus créditos do que criando o tal clima recessivo de uma tal ordem que depois põe em causa o próprio cumprimento. A minha sugestão é que estes ajustamentos se façam de forma gradual e até podemos ficar surpreendidos. Se calhar até podemos reduzir muito mais o défice público do que à partida queríamos.
Voltando ao início desta entrevista, e ao início também da sua história... Esteve em 1977 com o FMI, esteve em 1983 com o FMI, tem olhado de fora para o trabalho do Fundo. Este FMI é menos esclarecido? São tecnocratas de quinta ou sétima linha, como disse Fernando Ulrich?Não sei o que é a responsabilidade do governo ou do FMI na forma como o memorando foi delineado. Agora que estes programas não fazem sentido nenhum, não fazem. Para mim, pior ainda é a Comissão Europeia, que se tornou numa espécie de capataz da Alemanha em conflito com os países mais débeis, quando não era nada disso que a Comissão Europeia fazia no passado.
Foi relator do CES num parecer que foi muito crítico à política orçamental e à estratégia deste governo. Agora foi substituído por outro relator. Porquê? Porque foi demasiado crítico?Não, penso que não. Não sei. Não sou eu que me nomeio relator, mas penso que não. Teve que ver com a natural rotação. Já no ano passado também não fui relator do parecer sobre o orçamento para 2012. Tem havido uma rotação que acho muito bem, aliás.
Não acha que estar mais próximo do PS nesta altura, ou ser visto como mais próximo do PS, pode ter influenciado?Não, penso que não. Aliás, não sei se o grau de criticismo que vai aparecer no próximo parecer, que será aprovado brevemente, será inferior ao que constava no documento de estratégia orçamental. E convém dizer que o parecer não é do relator.
Portugal gasta anualmente cerca de oito mil milhões em juros. Se não os pagássemos o défice seria zero. É inevitável renegociarmos a nossa dívida?Dependerá muito do crescimento económico. A grande probabilidade é que, mais cedo ou mais tarde, vamos ter de renegociar prazos e juros, porque não vejo que o crescimento económico se possa acelerar muito rapidamente nos próximos anos - e basta que o crescimento seja zero ou um pouco negativo, como tem sido em termos nominais, isto já incluindo o aumento de preços, para a dívida ir ganhando peso mesmo que o défice seja muito pequeno. Portanto, como esta espiral a certa altura torna-se ingerível, a probabilidade é de que um dia vamos ter de renegociar prazos e juros da dívida.
Mas nunca um corte como foi feito na Grécia, um corte agressivo do montante total da dívida?Bom, isso dependerá da situação. Eu espero que não se chegue a essa situação, porque isso tem sempre consequências muito nefastas a prazo. Um corte, não um reescalonamento mas um corte em si próprio, tem tendência a perpetuar-se em termos de desconfiança durante muito tempo.
Tem defendido que Portugal deveria sair de uma forma organizada do euro. Mas ninguém, nem os partidos mais à esquerda, parece defender isso. Vamos mesmo acabar por sair de uma forma atabalhoada?Há uma grande probabilidade de isso acontecer porque, olhando friamente para as condições em que Portugal está, não vejo como possa sustentar--se dentro da zona euro. Isto muitas vezes não é apontado porque estamos muito focados em questões financeiras, mas as recessões financeiras não surgem por acaso, surgem porque temos um profundo desequilíbrio na estrutura produtiva, que se foi acumulando ao longo do tempo desde a altura em que começou o caminho para a moeda única, e ainda antes de a moeda única estar realizada. Gerámos, desde essa altura, um desequilíbrio muito grande na estrutura produtiva. Há vinte anos, quando começou o caminho para a moeda única, o nosso sector industrial pesava 24% do produto interno bruto (PIB). Hoje pesa 13 %, que é metade do que pesava em 1953, quando começou a haver contas nacionais. Nenhum país consegue prosperar e crescer assim, é impossível.
Não podemos ser um país de serviços?Não podemos ser porque, embora tenhamos vocação para o turismo e o turismo possa subir mais, nenhum país com uma dimensão como o nossa pode sobreviver só de serviços. Para reverter isso é preciso um choque competitivo, é preciso investir na indústria ou na agricultura. Como é que se diz isso aos empresários? Desvalorização da moeda. Se eu desvalorizar a moeda, torno automaticamente muito mais rentáveis este sectores.
De quanto dinheiro é que Portugal precisaria para essa saída organizada da zona euro?Precisaria de dinheiro e precisaria de alguns compromissos europeus, por isso é que tem de ser negociada e organizada. O que acho que vai ser necessário, em qualquer caso, é um empréstimo, para obter o financiamento externo enquanto a desvalorização cambial não der resultado. A desvalorização cambial não dá resultados no dia seguinte, demora um ano e meio e, portanto, é preciso esse empréstimo. Há um segundo aspeto importante: garantir que o Banco Central Europeu (BCE) continuasse a renovar a dívida dos bancos portugueses durante algum tempo. A forma equilibrada de sair seria nós passarmos a pertencer àquilo que se chama o mecanismo de taxas de câmbio dois, que regula as relações entre os países do euro e os países da União Europeia que não estão no euro, o que significa que a moeda teria de ter uma paridade definida em relação ao euro. E, depois, o BCE e o Banco de Portugal seriam responsáveis por manter a moeda no dia a dia dentro de parâmetros.
Os países fortes da zona euro pagavam para ver Portugal fora?Penso que sim. Vão ter de pagar à mesma para nos mantermos na zona euro, com uma vantagem, é que a saída da zona euro, a prazo não muito longo, era menos um problema que teriam. Porque, não tenhamos ilusões, não temos capacidade para estar na zona euro com a estrutura produtiva que temos.
Nesta altura eles já preferiam estar a pagar para sairmos do que estar pagar para continuarmos?Penso que nesta altura não. A zona euro está muito instável e não proponho a saída de Portugal nesta situação. Primeiro é necessário que a zona euro estabilize para depois podermos pensar numa situação sustentável a prazo - e na nossa saída da zona euro. Neste momento, nem por sombras, acho que isso poderia desencadear um processo muito complicado dentro da zona euro.
Grande parte dos economistas defende que a competitividade do país só pode aumentar através da redução do custo no trabalho. Nunca defendeu essa hipótese. O que lhe pergunto é se há outra forma de aumentar a competitividade?Hoje, o problema salarial não é importante do ponto de vista da competitividade. A nossa perda de competitividade teve que ver com o facto de investir em sectores protegidos da concorrência externa, ser mais rentável do que estar a investir em sectores que têm concorrência externa, os chamados bens transacionáveis. A nossa competitividade não tem que ver com salários, tem que ver com o facto de a nossa estrutura produtiva estar desequilibrada. Se eu descer os salários, desço para todos os sectores, não só para aqueles que é preciso de-senvolver. A questão salarial é um mito que não vai resolver em nada a questão da competitividade.
Na Grécia, continuamos a assistir a uma situação muito, muito complicada: o desemprego não para de subir, não há crescimento. Em Portugal também não. Estas previsões do governo são credíveis: 16,4% de desemprego em 2013?Não, não me parece. Já no ano passado, por esta altura, disse e escrevi que não acreditava nos objetivos para este ano - e de facto não se verificaram. O desemprego será bastante superior porque a recessão económica vai ser bastante mais funda do que 1%. Não é só uma questão de se eliminarem postos de trabalho, há também que ter em conta a emigração, portanto, a taxa de desemprego dependerá muito do fluxo de emigração. Mas não ficaria espantado se fosse, por exemplo, aos 18%. A queda do produto interno bruto dificilmente será inferior à deste ano.
Nunca teremos uma recessão inferior a 3% no próximo ano?Se o Orçamento for adiante como está, sim, acho que não teremos menos do que 3% de recessão. O consumo vai descer mais do que o governo prevê. A austeridade é mais funda para o ano que vem do que este ano e as famílias estão muito endividadas. Portanto, medidas de redução de rendimento em geral, quando as famílias estão muito endividadas, amplificam muito os efeitos. Se além disso houver já algum corte de despesas a nível social, as famílias têm mesmo de o fazer - e, portanto, se o Estado obriga a que isso seja financiado pelas famílias, elas deixarão de consumir mais noutros aspetos. O consumo vai descer bastante e isso provocará uma recessão maior e desemprego maior.
Vamos ter eleições mais cedo do que o que estamos à espera?Não sei. Acredito que há uma grande possibilidade de haver uma crise política, se se verificar que os objetivos orçamentais não estão a ser cumpridos. Se isso dá origem a eleições ou não, não tenho uma bola de cristal.
E seria quando?Diria que lá para abril. Ou seja, tendo os dados de janeiro a março, penso que já se vai poder formar uma ideia de como a economia está a evoluir e como é que as finanças públicas estão a evoluir.
Nem o IRS - que tem um aumento enorme até fevereiro - pode dar alguma margem de conforto ao governo? Mesmo com o desconforto das famílias?Poderá dar alguma margem, mas repare: as famílias começaram já a reagir, já com os anúncios - e ainda não entrou em funcionamento o Orçamento. Os indicadores apontam que as famílias começaram a reduzir o consumo. A recessão será muito profunda, o desemprego vai aumentar e, portanto, as despesas do Estado vão crescer; os subsídios de desemprego e as receitas da Segurança Social vão diminuir. Portanto, isto acontece mesmo que o IRS mantenha os níveis que o governo pensa - mas também vai reduzir, porque aqueles que estão empregados e deixam de estar pagarão menos IRS.
Vou citá-lo: "Acho Vítor Gaspar um ótimo economista mas não concordo com ele." O governo já falhou quase todas as previsões para 2012. Como é que um ótimo economista se engana tanto?É um ótimo economista porque tenta acertar, tenta usar os instrumentos que existem para acertar e conhece bem esses instrumentos, tem experiência na sua utilização. Eu não concordo com ele precisamente porque acho que esses instrumentos não dão resultado. Esses modelos, que são utilizados também nas organizações internacionais, nomeadamente pelo Fundo Monetário Internacional, não têm em conta a realidade portuguesa em vários domínios, não têm em conta o alto endividamento das famílias, não têm em conta o facto de o emprego estar muito ligado à procura interna e, portanto, quedas da procura interna fazem aumentar muito o desemprego. Por isso, não admira que o governo e o FMI e a troika em geral tenham ficado surpreendidos com o aumento do desemprego e com a profundidade da recessão.
Acha que o ministro das Finanças ainda está demasiado refém da experiência que teve no BCE e da visão académica que tem?Todos nós somos reféns da nossa experiência passada, e a certa altura é difícil mudar. Eu reconheço... Enfim, com a idade que ele já tem e com o seu percurso, não penso que de repente, um dia, se ilumine como São Paulo e ache que a forma de pensar a economia é outra. Mas a certa altura as pessoas têm tendência a sedimentar os seus conceitos e as mudanças não são muito drásticas.
Este tipo de política económica não acaba por estar também a matar o próprio mercado que se considera que pode salvar a economia?Sim, põe muito bem a questão. Estas medidas são muito drásticas. E a responsabilidade também é do Fundo Monetário Internacional, que neste programa e nos anteriores sempre achou que era assim que se resolvia o problema. A questão é que as medidas drásticas podem fazer disfunções nos mercados, podem dar origem a comportamentos de economia paralela por exemplo, a não cumprimento de regras mínimas de concorrência e por aí fora. E, portanto, não só acaba por ser mau em termos macroeconómicos como muitas vezes acaba por ser mau também em termos microeconómicos, porque faz uma disfunção completa em alguns os mercados. O caso mais evidente é a fuga e a evasão fiscal e a fraude fiscal; quando se tenta forçar as coisas, aumenta-se o incentivo para fugir.
Tem defendido que a diferença entre Portugal e os países do norte da Europa está sobretudo na eficácia da cobrança fiscal. Mas a maior parte das pessoas, sobretudo quem vive só do trabalho, já tem uma carga fiscal enorme em cima.Se aumentar a eficácia fiscal, tenho margem para diminuir os impostos daqueles que pagam , e esse é um dos aspetos mais importantes da justiça: equidade fiscal. Repare, nós temos uma economia paralela que é avaliada em cerca de 25% do PIB. Mas se for a países do Norte terei 10%, 12%. Isto quer dizer que há uma boa parte do PIB que não é sujeita a impostos. E se for à Grécia, então será uma coisa incomensurável. Portanto, se eu conseguir meter dentro da legalidade esses sectores, posso baixar a carga fiscal individual, e isso, do meu ponto de vista, é que é civilizado. Além disso, para além destes aspetos de mais equidade social, há também os aspetos da concorrência. Porque empresas que fogem ao fisco, ao IVA, estão a concorrer deslealmente, além de tudo mais, com as empresas que cumprem. Por isso, penso que esse é um aspeto fundamental. Independentemente das ações punitivas, digamos, que são importantes e fiscalizadoras, é também importante criar um enquadramento em que não seja possível ou útil fugir aos impostos.
Há aqui uma fatia da sociedade que devia ser mais taxada e que não o está a ser nesta altura?Isso é difícil de dizer porque fala-se muito de rendimentos que não são taxados, mas é preciso ver que algumas vezes esses rendimentos, se forem taxados, podem dar origem a comportamentos negativos do ponto de vista da economia, como fuga de capitais. Portanto, as coisas têm de ser feitas com algum cuidado. Eu penso que, com este aumento da carga fiscal, reduziu-se, e esse aspeto é verdadeiro, reduziu-se bastante, digamos, a disparidade entre rendimentos por origens. Agora o grande problema do IRS são os escalões tal como estão feitos, a meu ver estão desequilibrados. É uma carga excessiva para as pessoas que têm realmente rendimentos médios ou baixos.
Nesta semana, a maioria aprovou o Orçamento e o governo convidou o PS a participar de forma ativa naquilo a que chamou refundação do acordo com a troika. São quatro mil milhões de cortes permanentes na despesa a efetuar em 2013 e 2014. Há alguma coisa que o Estado possa deixar de fazer? Ou cortar?O Estado faz hoje, em Portugal, o mesmo, e às vezes até menos, do que faz a generalidade dos Estados na União Europeia. Os Estados da UE têm as funções de soberania, a segurança, a justiça, os negócios estrangeiros, etc. Depois têm as funções sociais, educação e saúde. Não gastamos mais, nem por sombras, do que se gasta por essa Europa fora. Pode-se, evidentemente, melhorar a eficiência e reduzir as despesas para obter o mesmo resultado, mas não creio que isso sejam quatro mil milhões de euros. Creio, sim, que isso é um absurdo e é preciso ver como é que surgem esses quatro mil milhões de euros. Penso que aí o Partido Socialista tem razão: isto resulta em grande parte da estratégia seguida de provocar uma grande recessão. É evidente que quando se provoca uma grande recessão, obviamente, depois as coisas não chegam - cobra-se menos impostos, o défice mantém-se, é preciso cortar mais despesa, depois ainda vai agravar mais a recessão, e por aí fora. Ouvi que já estariam três mil e quinhentos milhões de euros destinados a ser cortados nas funções sociais, mas não nos esqueçamos de que a Segurança Social estava equilibrada. Só se desequilibrou este ano devido justamente à recessão. Esta estratégia não tem futuro nenhum. Se estamos agora a cortar quatro mil milhões, daqui a dois anos estamos a cortar seis mil milhões. Isto vai ser uma bola de neve que nunca mais acabará. Não faz sentido.
O FMI está a ajudar o governo a cortar esses quatro mil milhões. O PS deve aceitar o convite do governo para discutir o Estado?Não sou sequer militante do PS, portanto, o PS fará o que quiser. Agora, se o PS disser que não aceita, dou-lhe 100% razão. Por dois motivos. Em primeiro lugar, porque não faz sentido; colaborar nisto seria dizer que concorda com a estratégia que foi seguida e, a meu ver, isso é errado. Em segundo, se as coisas já estão decididas, o que é que o PS vai lá fazer? O PS fará o que entender, mas percebe-se se disser que não. É um convite envenenado, como é evidente. E aceitar como bom que é preciso cortar quatro mil milhões de euros não é nada líquido. É resultado desta estratégia recessiva.
Esteve, quer com Mário Soares quer com Jorge Sampaio, na Presidência da República e foi assessor deles, aconselhou-os. Acha que nesta altura em que o Estado vai ser refundado a Presidência da República é mais permissiva face a essas duas presidências, face a essa refundação do Estado? Está mais alinhada com a necessidade de reduzir o Estado ou não?Não será, a meu ver, uma diferença muito substancial justamente por aquilo que eu digo, não é muito nítido ver onde é que o Estado pode reduzir as suas funções, porque mesmo dar em concessão não reduz a despesa. Pode é haver melhor prestação do serviço. Eu sou a favor até de concessões em alguns serviços, desde que devidamente estabelecidas. Reconheço que para o Presidente Cavaco Silva, tanto quanto percebo nas suas declarações, isto seja complicado. Se estão recordados, de há uns anos a esta parte, ainda nem era presidente nem candidato a Presidente da República, era adepto de um choque fiscal, um choque fiscal no sentido de uma redução grande de impostos, para impulsionar a economia, e o que está a suceder é justamente o inverso. Portanto, penso que do ponto de vista dele não deve ser fácil, enfim, lidar com esta situação. Também não estou a ver o professor Cavaco Silva, pelo discurso que tem tido, dizer: "Agora o Estado deixa de prestar serviços de saúde ou deixa de prestar serviços de educação", não estou a ver. É uma situação muito complicada mas previsível, quando se provoca uma recessão da profundidade que esta tem. Quando se continua no mesmo caminho, é evidente que as coisas não chegam, a Segurança Social começa a entrar em incumprimento ou a aproximar-se disso, pelo menos, começa a entrar em défice. Depois houve ainda aquelas habilidades deste e dos anteriores governos com os fundos de pensões, que também acabam sempre por se pagar mais tarde. As sociedades modernas não estão feitas para viver em recessão, estão feitas para haver crescimento económico. Eu não digo que possamos ter um crescimento muito grande, mas pelo menos estou plenamente convencido, e digo-o sinceramente: se a carga fiscal não fosse aumentada na proporção que vai ser, teríamos mais chances de cumprir o défice de 4,5% do PIB. Só que assim, porque a recessão provavelmente não existiria, ou seria muito suave, esta vai ser de tal maneira que não vai ser possível cumprir os 4,5% do PIB. A quem é que isto serve? Eu não entendo. É um mistério que não compreendo, que já se deu na Grécia e que está a suceder agora em Portugal.
Este FMI está preparado para desenhar programas de ajuste em países que não têm uma moeda própria?Há uma grande diferença em relação aos programas de 1967, 1968 , 1983 e 1984, que é justamente não termos moeda própria. E esta receita não funciona. Não funciona sem moeda própria. Porque há dois objetivos que só são compatíveis com moeda própria e a desvalorização cambial. O objetivo de redução de défice externo e o objetivo de redução de défice público. O défice externo na economia no seu conjunto, e défice do Estado. Quando não há moeda própria, para se reduzir o défice externo é preciso reduzir muito a procura interna para reduzir as importações e equilibrar a balança de pagamentos. Mas ao fazer-se isso está a pôr-se em causa o objetivo de redução do défice do Estado - porque recebe menos receitas e tem de aumentar as despesas, porque há mais desempregados. As duas coisas não jogam. O FMI sempre se preocupou mais com o défice externo, a Comissão Europeia sempre se preocupou mais com o défice público, que é o que vem nos tratados, e o resultado disto é que as duas coisas acabam por não jogar. Nós reduzimos muito o défice externo este ano - até praticamente o equilibrámos - à custa de uma grande redução da procura interna. Agora, tentar atingir as duas coisas não se vai conseguir. E penso que é isso que o Fundo Monetário Internacional não terá entendido: o problema da dimensão deveria ser compreendido.
Costuma falar com alguma regularidade com António José Seguro. O que é que ele lhe pede?No fundo, o que me pede - o que, aliás, outros secretários-gerais do PS também pediram -, uma opinião sobre a situação económica, e eu dou-lhe aquela que sei e que posso dar. Não sou militante, mas penso que é importante um secretário-geral de um partido ouvir pessoas, mesmo que não sejam militantes. Faço os possíveis para dar a minha visão e não há qualquer diferença entre o que eu digo em privado ou em público.
A atividade política - para ser mais direto, um cargo governativo - é uma atividade que não lhe interessa?Não, não me interessa definitivamente. Já fui convidado em tempos e recusei, não tenho vocação para isso e acho que uma atividade governativa é tão exigente de ponto de vista pessoal que ou se vai muito empenhadamente para lá ou então é um desastre. E eu não tenho esse empenho - e agora com a idade ainda menos teria do que há uns anos, portanto, isso está completamente afastado. É uma coisa que nem sequer me punha. Nem é uma questão de discordância ou concordância política, ponho-me, à partida, pessoalmente fora.
O que sugere a António José Seguro enquanto plano para os próximos dois anos?Aquilo que tenho defendido publicamente: a redução do défice do sector público, justamente pelo facto de que deve ser acompanhada de uma redução do défice externo. Os dois objetivos são importantes, mas, justamente porque são conflituantes na ausência de moeda própria, entram em conflito; deve fazer-se de forma muito gradual. O problema disto foi tentar-se reduzir zero o défice externo e ao mesmo tempo fazer uma grande redução no défice do sector público - as coisa não jogam. Se se fizer gradualmente, obtém-se melhores resultados sem provocar recessão e creio que os credores ficarão muito mais bem defendidos nos seus créditos do que criando o tal clima recessivo de uma tal ordem que depois põe em causa o próprio cumprimento. A minha sugestão é que estes ajustamentos se façam de forma gradual e até podemos ficar surpreendidos. Se calhar até podemos reduzir muito mais o défice público do que à partida queríamos.
Voltando ao início desta entrevista, e ao início também da sua história... Esteve em 1977 com o FMI, esteve em 1983 com o FMI, tem olhado de fora para o trabalho do Fundo. Este FMI é menos esclarecido? São tecnocratas de quinta ou sétima linha, como disse Fernando Ulrich?Não sei o que é a responsabilidade do governo ou do FMI na forma como o memorando foi delineado. Agora que estes programas não fazem sentido nenhum, não fazem. Para mim, pior ainda é a Comissão Europeia, que se tornou numa espécie de capataz da Alemanha em conflito com os países mais débeis, quando não era nada disso que a Comissão Europeia fazia no passado.
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