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Blog de Raimundo Narciso para reprodução por extenso de textos referidos nos seus outros blogs: Puxa Palavra, Memórias e A Grande Dissidência
2018-09-04
2018-08-01
NúCLEO MUSEOLÓGICO MERCADO DE ESCRAVOS - LAGOS
A parede lateral do NÚCLEO MUSEOLÓGICO MERCADO DE ESCRAVOS situado na praça do Infante, em Lagos, tem a seguinte inscrição ao longo de toda a parede

Chegaram
as caravelas a Lagos (…) e no outro dia Lançarote (…) disse ao infante (…) ser
bom que de manhã os mandeis tirar das caravelas e levar aquele campo que está
além da porta da vila (fazendo) deles cinco partes (…), e seja vossa mercê
chegardes aí e escolher uma das partes qual mais vos prouver. [Escrito completo na parede do Núcleo
Museológico Mercado dos escravos em Lagos].
***************
Autor: Jorge Fonseca
Lagos, no Algarve, foi o principal ponto de entrada de escravos
africanos em Portugal nas primeiras décadas do tráfico negreiro, a partir dos
anos 40 do século XV. Isso deveu-se ao facto de o infante D. Henrique, depois
da conquista de Ceuta, ter eleito a vila como sede dos seus empreendimentos
marítimos, ainda antes de a mesma lhe ter sido doada, em 1453. Dela saiu
Lançarote, almoxarife do rei, com seis caravelas, para a costa de Arguim, na
primavera de 1443 ou 1444, regressando no começo de agosto com o primeiro
grande carregamento de cativos negros chegados ao país, 235. Gomes Eanes de
Zurara (1410-1474) evocou magistralmente, na Crónica
da Guiné, o dramatismo do desembarque na praia de Lagos dessa carga humana,
na presença do infante, que poderia ter servido de modelo a muitas outras
descrições de acontecimentos semelhantes, ao longo de séculos, se tivessem
existido, o que não voltou a acontecer da parte de portugueses, dada a
banalização em que o tráfico caiu:
“… qual seria o coração, por duro que ser pudesse, que não
fosse pungido de piedoso sentimento, vendo-se assim aquela companha? Que uns
tinham as caras baixas e os rostros lavados com lágrimas, olhando uns contra os
outros; outros estavam gemendo mui dolorosamente, esguardando a altura dos céus
(…) bradando altamente, como se pedissem acorro ao Padre da natureza; outros
feriam seu rostro com suas palmas, lançando-se tendidos no meio do chão; outros
faziam suas lamentações em maneira de canto, segundo o costume de sua terra …”.
Os escravos trazidos tinham sido capturados em assaltos a
aldeias da costa africana, mas na década seguinte já era aos mercados locais
que os Portugueses, por decisão de D. Henrique, recorriam para obter cativos e
não já à guerra. Disso deu conta o veneziano Alvise Cá da Mosto, no relato das
suas viagens. O comércio passou a ser muito mais fácil e lucrativo que a
pilhagem, recebendo o infante, como antes, a quinta parte do respetivo
produto.
Em Lagos funcionou inicialmente a feitoria dos Tratos da
Guiné e a mão-de-obra cativa continuou a chegar ao seu porto até ao fim do
século e mesmo depois. Em 1490 e em 1490-96 o almoxarifado da vila recebeu 739
peças de escravos.
Mas na década de 80, com o aumento do afluxo e a necessidade
de controlo fiscal por parte da coroa, Lisboa passou a ter a prioridade neste
comércio. E um alvará de D. Manuel I, de 24 de outubro de 1512, veio a
canalizar obrigatoriamente para a cidade do Tejo a entrada de escravos no
reino, exceto por razões de força maior, como intempéries que impedissem os
navios de aportar à mesma.
As descargas faziam-se no cais da Ribeira, junto aos muros da
vila, recuperado em 2008 por uma campanha arqueológica, que o pôs a descoberto
depois de ter estado soterrado desde a década de 1940, devido à construção da
avenida marginal da cidade. Próximo dele fazia-se a venda dos cativos. Um
edifício seiscentista, a Vedoria do Exército, adquiriu na tradição local a
designação de Mercado de escravos, provavelmente por ser junto a
ele que, antes e mesmo depois da sua construção, se processava essa atividade.
Em 2010 foi instalado nesse edifício o Núcleo Museológico do Mercado de
Escravos, albergando uma exposição sobre o tráfico negreiro.
Outro testemunho do papel de Lagos como porto ligado ao
comércio escravista foi descoberto em 2009, numa zona recentemente urbanizada
da cidade e durante as obras de abertura de um silo para estacionamento de
automóveis: uma vala usada para enterramento de cadáveres, em que as deposições
mais antigas datam de meados do século XV, apogeu da entrada de escravos na
vila. Na centena e meia de esqueletos encontrados, muitos foram atribuídos a
africanos devido às suas caraterísticas antropomórficas e a objetos de fabrico
africano associados a alguns deles. Poderá tratar-se de cativos chegados já
mortos nos navios de tráfico, ainda não cristianizados, pelo facto de terem
sido lançados de forma caótica num depósito comum, ao contrário do que
sucederia àqueles que, já integrados e convertidos ao Cristianismo, iriam ser sepultados
nas igrejas e respetivos adros. Alguns desses vestígios foram expostos no
Núcleo Museológico acima referido.
Bibliografia: ALBUQUERQUE,
Luís de (1971) “Lançarote”, Dicionário de História de Portugal (Dir.
Joel Serrão), v. II, Lisboa: Iniciativas Editoriais, pp. 655-656; CADAMOSTO,
Luís de (1988) Viagens de Luís de Cadamosto e de Pero de Sintra,
Lisboa: Academia Portuguesa de História; COSTA, João Paulo Oliveira e
(2013), Henrique, o Infante, Lisboa, Esfera dos Livros; COSTA, João
Paulo Oliveira e (Coord.) (2014) História da expansão e do império
português, Lisboa: Esfera dos Livros; GODINHO, Vitorino Magalhães
(1983) Os descobrimentos e a economia mundial, v. IV, Lisboa:
Presença; ZURARA, Gomes Eanes de (1973) Crónica de Guiné, Porto, Civilização.
Documento da Internet:
http://museudigitalafroportugues.wordpress.com/sobre/reino-do-algarve/o-cemiterio-de-escravos-de-lagos/.
2018-05-08
O segredo dos escravos reprodutores - Expresso 2015-12-08
Reprodução de “Chafariz d’el Rey no séc. XVI” (pintura flamenga, 1570-80, de autor desconhecido, óleo sobre madeira, 93 x 163 cm, Coleção Berardo), onde são visíveis vários africanos a desempenhar diferentes tarefas. Na imagem mais pequena, reprodução da primeira página do documento que está na Biblioteca Nacional da Ajuda, cópia do século XVIII do original de Venturino, que relata o episódio dos escravos reprodutores de Vila Viçosa. Ao lado, imagem atual do espaço onde existiu a “ilha” no paço ducal da Casa de Bragança, então habitado por escravos. Ainda hoje os trabalhadores referem-se à zona pelo mesmo nome.
Desumanização. Documento pouco conhecido do século XVI relata criação de escravos, em Vila Viçosa, como se fossem cavalos para reprodução.
A passagem foi escrita em italiano, no século XVI, e é assim que surge no espólio da Biblioteca da Ajuda. Traduzida, revela um português estranho aos leitores contemporâneos e uma realidade difícil de acreditar. “Tem criação de escravos mouros, alguns dos quais reservados unicamente para fecundação de grande número de mulheres, como garanhões, tomando-se registo deles como das raças de cavalos em Itália. Deixam essas mulheres ser montadas por quem quiserem, pois a cria pertence sempre ao dono da escrava e diz-se que são bastantes as grávidas. Não é permitido ao mouro garanhão cobrir as grávidas, sob a pena de 50 açoites, apenas cobre as que o não estão, porque depois as respetivas crias são vendidas por 30 ou 40 escudos cada uma. Destes rebanhos de fêmeas há muitos em Portugal e nas Índias, somente para a venda de crias.”
O relato da existência de escravos reprodutores no Paço Ducal de Vila Viçosa, a mais importante casa nobre portuguesa, foi feito por João Baptista Venturino da Fabriano, secretário do cardeal Alexandrino Miguel Bonello, enviado papal à corte portuguesa em 1571 para propor Margarida de Valois como noiva de D. Sebastião. A união do rei de Portugal com a filha de Henrique II e Catarina de Médici — que acabaria por casar-se no ano seguinte com Henrique IV e tornar-se a rainha Margot de França, célebre pela morte de milhares de protestantes —, não se concretizou. E quanto aos escravos, nada mais se soube.
No século XVI viveriam 350 pessoas no paço ducal e a criação de escravos teria lugar num terreno ao lado da casa principal, uma zona ainda hoje conhecida pelos trabalhadores locais como a “ilha”. Atualmente só resta o chão, coberto de pedras, nas imediações do picadeiro e do local onde terá estado o torreão onde, em 1512, foi degolada D. Leonor, de 23 anos, pelo seu marido, o quarto duque de Bragança, D. Jaime, acusada de ter um pajem de 16 anos por amante.
O paço era então liderado pelo sexto duque de Bragança, D. João I, que três anos mais tarde acompanhou D. Sebastião na primeira incursão em África, levando com ele 600 cavaleiros e dois mil infantes. Não participou, contudo, na desastrosa expedição de 1578 devido a violentas febres, tendo enviado o primogénito D. Teodósio II, que com dez anos foi ferido em Alcácer-Quibir e viria a ser pai de D. João IV, aclamado rei de Portugal em 1640.
O “segredo”, com mais de 400 anos, continua a ser desconhecido por muitos dos investigadores da escravatura em Portugal. Os historiadores que o conhecem defendem que o episódio tem de ser estudado para que se compreenda se foi um caso único ou se representa a ponta de um novelo espesso.O primeiro a ficar incomodado com o relato foi Alexandre Herculano, no século XIX. Nos “Opúsculos”, volume VI, refere o texto de Venturino, com pudor: “Falando dos escravos, a linguagem do autor é bastante solta, e por isso não transcreveremos esta passagem. Basta saber que estes desgraçados eram considerados e tratados como as raças de cavalos em Itália, e pelo mesmo método, que o que se buscava era ter muitas crias para as vender a trinta e quarenta escudos”.
Foram as lacunas de Herculano que levaram Jorge Fonseca, estudioso da escravatura, a procurar o documento original. Encontrou-o na Biblioteca da Ajuda, traduziu a passagem e publicou-a em 2010 no livro “Escravos e Senhores na Lisboa Quinhentista”. Um ano depois, Isabel Castro Henriques, a maior especialista portuguesa da área, cita-a em “Os Africanos em Portugal, História e Memória, séculos XV-XXI”. E é ela quem mais se insurge com a inexistência de estudos: “Impõem-se investigações rigorosas. Este é um documento de extrema violência, em que os escravos são tratados como cavalos. A investigação é difícil mas tem de ser feita”, afirmou recentemente numa conferência sobre a escravatura, na Biblioteca Nacional, em Lisboa.
SINAIS DE ALERTA
Antes de Venturino, Nicolau Clenardo escrevera cartas em que, embora não tão explícita, é referida uma estrutura de produção com fins comerciais: “Os mais ricos têm escravos de ambos os sexos e há indivíduos que fazem bons lucros com a venda dos filhos das escravas nascidos em casa. Chega-me a parecer que os criam como pombas para levar ao mercado. Longe de se ofenderem com as ribaldias das escravas, estimam até que tal suceda.” Testemunha do Portugal do século XVI, Clenardo chegou ao país em 1533 para ser mestre do infante D. Henrique, irmão do rei D. João III e sem meias-palavras, relatou: “Mal pus os pés em Évora, julguei-me transportado a uma cidade do inferno: por toda a parte topava negros.”
Na publicação “A herança africana em Portugal”, Isabel Castro Henriques explica que “desde o início de quinhentos, os autores sobretudo estrangeiros davam conta de uma atividade de produção, marcada por um carácter insólito e cruel: a criação de escravos, como se de animais se tratassem, destinada a abastecer o mercado nacional, mas também para exportação”. E transcreve uma passagem da Collecção da Legislação Portuguesa (1763-1790), que denunciava a existência de pessoas “em todo o Reino do Algarve, e em algumas províncias de Portugal (que tinham) escravas reprodutoras, algumas mais brancas do que os próprios donos, outras mestiças e ainda outras verdadeiramente negras, (designadas) ‘pretas’ ou ‘negras’, pela repreensível propagação delas perpetuarem os cativeiros”.
Questionada sobre as razões da falta de estudos sobre os escravos, Mafalda Soares da Cunha, professora da Universidade de Évora e considerada a mais importante estudiosa da Casa de Bragança, não tem dúvidas: “A investigação histórica mais recente, incentivada pelas novas agendas historiográficas internacionais, começa a tratar de forma mais sistemática e menos dependente ideologicamente da questão da presença dos escravos na história de Portugal. Os resultados são manifestamente insuficientes, mas o tema deixou de ser maldito e silenciado como o foi no passado mais recente. Creio mesmo que desperta interesse entre as gerações mais jovens de historiadores que, de certa forma também entendem o estudo da escravatura como uma forma de participação nas lutas pelos direitos humanos. Mas ainda estamos num estádio muito embrionário.”
Fantasmas históricos, os escravos não são personagens principais. “O estudo de populações com pouco acesso à escrita e aos recursos de poder é sempre difícil. Não sendo atores reconhecidos pelo sistema político, pouco falam por si, a menos que colidam com o sistema instituído. As referências de época são muitas vezes indiretas e distorcidas e os conhecimentos desses grupos, e em particular dos escravos, exige sempre um esforço grande de desconstrução das visões dominantes da época e dos contextos em que se produziram as referências”, explica a especialista.
Há pouca informação, por exemplo, sobre os escravos agrícolas porque a sua existência não tinha outro interesse para a época senão como parte dos equipamentos de uma qualquer exploração agrícola. Mas como sublinha Mafalda Soares da Cunha, “eles existiam e agiam”. Num artigo na revista “Callipole”, Jorge Fonseca relata que o duque D. Teodósio I, em 1564, teria 48 escravos, dos quais 20 serviam na estrebaria, quatro na cozinha e na copa e quatro eram varredeiros, entre outras funções. A contabilização parece ser o mais longe que se consegue ir.
Quanto ao episódio dos reprodutores, relatado por Venturino, Mafalda Soares da Cunha desconhecia-o antes do contacto do Expresso e alerta ser necessário perceber o contexto do relato para compreender a intencionalidade da narrativa e a sua veracidade, mas conclui: “Não excluo evidentemente a possibilidade. A documentação que conheço da Casa de Bragança é totalmente omissa quanto a isso, mas a probabilidade de acontecer parece-me evidente.”
PERGUNTAS & RESPOSTAS
Quando chegaram a Portugal os primeiros escravos africanos?
Os primeiros escravos negros entraram em Portugal ainda no século XV, através de Marrocos, havendo registo de apreensões desde 1441, embora o uso de mão de obra escrava fosse largamente difundido desde o século XIV. Em 1444 teve lugar o primeiro carregamento de 235 escravos, trazidos do Golfo de Arguim, atual Mauritânia. O próprio Infante D. Henrique terá estado presente no primeiro leilão de escravos em Lagos, o passo inaugural para um importante negócio de exportação sobretudo para Sevilha, Cádis e Valência.
Quantos escravos existiam em Portugal no século XVI?~
Lisboa abrigava quase dez mil escravos, o que equivaleria a cerca de 10% da população da capital na altura. A maior parte dos escravos encontrava-se no Algarve, região seguida pelo Baixo Alentejo, Vale do Tejo e pelo distrito de Évora. No século XVII, o número diminuiu substancialmente devido ao desvio para o cultivo de açúcar no Brasil.
Qual a influência da procura de escravos no continente americano no seu preço?
A partir de 1540, o aumento da procura de escravos para as plantações de açúcar nas Antilhas, primeiro, e depois no Brasil, fez com que o preço dos escravos aumentasse exponencialmente, tendo sido registada uma valorização de mais de 500% em três décadas, segundo o historiador António de Almeida Mendes.
Quais os escravos mais cobiçados pelo tráfico negreiro?
Os escravos “minas”, originários da Costa da Mina, no Golfo da Guiné (Gana, Togo, Benim e Nigéria), eram os mais procurados nos mercados consumidores, devido à maior resistência física. Os “angolas” eram considerados mais frágeis e com uma maior tendência a cometer suicídio. Em 1644, um decreto do D. João VI autorizaria os comerciantes a comprarem diretamente a mão de obra àquela região, como explica o historiador João Pedro Marques no livro “Portugal e a Escravatura dos Africanos”.
Quantos escravos morriam nas viagens nos navios negreiros?
Cerca de um quarto dos escravos morria durante o transporte transatlântico. Outros, cujo número é difícil de precisar, morriam nas viagens do interior até aos portos de embarque. Alguns, ainda, não resistiam à espera pelo embarque nos navios. Chegados ao destino, a vida nas colónias também os matava, o que permitiria totalizar a morte acumulada em todo o processo num patamar superior a 70%.
Qual o maior destino mundial de escravos?
O Brasil, entre meados do século XVI e até cerca de 1850, quando 42% do tráfico negreiro, o equivalente a cinco milhões de pessoas, terá partido de África em direção ao território brasileiro. Estima-se que atualmente cerca de um terço da população brasileira descenda de angolanos. Os maiores traficantes mundiais de escravos foram os portugueses radicados no Brasil.
Portugal foi o primeiro país a acabar com a escravatura?
Não. Em 1761, o marquês de Pombal, através de um alvará régio, acabou com o tráfico de escravos para a metrópole. A 10 de dezembro de 1836, uma lei proibiu o tráfico de escravos nos domínios portugueses ao sul do Equador. A escravatura continuou no Brasil até 1888, quando o país já era independente. Portugal só a aboliu totalmente em 1875. Em 1794, o Haiti foi o primeiro país a abolir a escravatura na sequência de uma revolta de escravos, seguindo-se a Dinamarca em 1804.
Texto publicado na edição do Expresso de 5 dezembro 2015
2018-04-11
Controlada por uma seita, abusada pelo pai e afastada dos filhos — esta é a história de Rachel Jeffs
É uma história de horror. Não é na Arábia Saudita ou numa tribo do Afeganistão, é nos EUA.
link: https://nit.pt/coolt/livros/controlada-seita-abusada-pai-historia-rachel-jeffs Texto Andreia Costa 03/04/2018
Rachel Jeffs, uma de 53 filhos,
conseguiu fugir e decidiu contar a sua experiência em “Filha do Profeta”
Em Novembro, o irmão mais novo do Pai, Seth, foi
mandado parar no Colorado, com mais de 140 mil dólares em dinheiro, cartões de
telefone pré-pagos e cartões de crédito, e molhos de cartas dirigidas ao Pai,
fosse como «Warren Jeffs» ou como «O Profeta». Seth admitiu às autoridades
estar a levar estas coisas ao Pai mas recusou-se a revelar-lhes o seu
paradeiro.
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link: https://nit.pt/coolt/livros/controlada-seita-abusada-pai-historia-rachel-jeffs Texto Andreia Costa 03/04/2018
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Foi educada na poligamia e o líder mórmon, o pai, era um dos mais procurados pelo FBI. “Filha do Profeta” conta tudo e a NiT mostra-lhe um capítulo em exclusivo.
O Pai (é assim, com letra maiúscula, que é referido)
controlava tudo, desde os nomes e a educação dos miúdos — mesmo os que não eram
dele — àquilo que os maridos podiam ou não praticar com as inúmeras mulheres na
intimidade. Pior do que tudo isso era o que fazia na sua própria família:
começou a abusar da filha Rachel quando ela tinha oito anos e casou com
crianças de 12.
Warren Jeffs, líder da Igreja
Fundamentalista de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias (um culto dentro da
igreja mórmon), fazia parte da lista das dez pessoas mais procuradas pelo FBI.
Foi condenado a prisão perpétua mas, mesmo preso, continua a controlar o que se
passa na sua seita poligâmica.
Rachel com os filhos (fotos de editora Planet
Rachel Jeffs, uma de 53 filhos,
conseguiu fugir e decidiu contar a sua experiência em “Filha do Profeta”
Em miúda, o pai levava-a a bibliotecas
para lhe mostrar pornografia e depois recriar com ela as
imagens; conheceu o marido na véspera casamento e dividiu-o com esposas-irmãs,
que não gostavam dela e lhe trancavam os filhos em closets escuros; acusada de crimes falsos, foi enviada para casas de
refúgio e afastada da família; a própria mãe foi considerada indigna quando lhe
diagnosticaram cancro.
As histórias macabras e surreais
sucedem-se nas cerca de 300 páginas deste livro. A NiT mostra-lhe, em
exclusivo, um dos capítulos de “Filha do Profeta"
12. Terra de Refúgio
“Assim que fiquei apta a viajar, o Rich
levou-me e ao nosso novo bebé de volta ao R23. Depois de cinco semanas no R17,
no Texas, com a família do Pai, estava ansiosa por partir. Senti-me mal pelos
meus irmãos e irmãs, que tinham de viver lá, rodeados de stress e do medo de
serem expulsos à mínima infracção.
Mas a distância pouco fez para nos
livrar do controlo do Pai. Quando ele deu o nome de Martha à minha segunda
filha, eu disse ao Rich:
– Gostava tanto que pudéssemos ser nós a
dar nomes aos nossos bebés. O Pai dá-lhes nomes tão feios e antiquados.
(A mãe do Rich chamava-se Martha.)
– Não digas isso, Rachel. É um
privilégio ter o teu Pai a escolher os nomes para os nossos filhos. É o Pai do
Céu que o inspira e devias sentir-te grata.
Graças ao antibiótico que a parteira me
deu, desenvolvi uma infecção fúngica grave, chamada candidíase, que fez com que
os meus mamilos inchassem de forma dolorosa e começassem a sangrar. Por isso,
tornou-se difícil amamentar a minha recém-nascida. A intervenção médica não era
uma opção, já que era suposto que nos mantivéssemos escondidos do mundo
exterior e o Pai dizia que os médicos estavam guardados apenas para situações
de vida ou de morte (e mesmo aí, como provara com a doença da minha mãe, podia
ser que ele não permitisse). Em vez disso, devíamos rezar a Deus pela cura.
O Rich ficou contente por eu não poder
dar de Com o marido, Rich mamar, porque em Fevereiro o Pai tinha dado formação aos homens
em «moral celestial» e tinha-lhes dito que nunca deveriam ter relações sexuais
com uma mulher que estivesse grávida ou
a amamentar. O Rich encorajou-me a alimentar a Martha com
a amamentar. O Rich encorajou-me a alimentar a Martha com
biberão.
A minha infecção durou vários meses, até
que o Rich pediu a um dos homens que ia a Short Creek para pedir Diflucan a uma
das enfermeiras certificadas que trabalhavam no Centro de Saúde de Hildale. O
Diflucan acabou com a infecção mas nunca mais pude amamentar a minha bebé,
porque tinha perdido o leite.
A nossa família vivia num apartamento no armazém com
uma pequena cozinha/zona de refeições, uma pequena sala de estar e quatro
quartos. O Rich pôs-me no quarto junto ao dele, e tanto a Susan como a Molly
tinham os seus próprios quartos. A Trish ainda estava em Short Creek, mas
tínhamos as duas filhas dela connosco, o que significava que todas as mulheres
tinham duas ou mais crianças a partilhar os quartos.
As minhas esposas-irmãs estavam cada vez
mais ciumentas. Elas pensavam que como não estava a amamentar eu e o
Rich tínhamos sexo todas as vezes que estávamos sozinhos. Por causa disso,
estavam sempre a inventar formas
criativas de se vingarem de mim e das minhas
filhas. Por vezes, o Rich levava-me com ele para tratar de recados para o meu
Pai e dizia-me para deixar em casa a Barbie, que ainda não tinha dois anos.
Quando voltava, via que a tinham deixado por sua conta durante a minha
ausência. Ela tinha de se vestir sozinha e perceber como se limpar quando sujava
as calças. Os sinais não deixavam margem para dúvidas: ela tinha um ar
desgrenhado e o meu quarto e casa de banho estavam uma confusão.
Ficava furiosa, mas não havia nada que
pudesse fazer. O Rich dizia-me apenas:
– Ama e perdoa as tuas esposas-irmãs. É
a única maneira de ajudar a Barbie.
Quando não estávamos a competir pela
atenção do Rich, todas nós aprendemos muito sobre sobrevivência durante aqueles
primeiros anos no Dakota do Sul. A nossa água tinha de ser transportada de uma
cidade distante e havia alturas em que o camião se avariava e chegávamos a
passar dois dias sem água. No Inverno, juntávamos neve em panelas e
derretíamo-la para termos água para limpar e cozinhar. Fez-me perceber quão
ingrata tinha sido sempre em relação ao luxo de ter água corrente.
As quatro passávamos muito tempo a coser
roupas para a nossa família. De início tudo parecia bastante terrível e amador,
mas lá acabámos por aprender a coser depressa e bem. Até nos divertíamos ao
fazê-lo, desde que o Rich não estivesse por perto, para nos tornar a todas
ciumentas.
O Rich estava encarregue do armazém e
pediu-me para gerir os registos do inventário e a contabilidade. Aprendi
sozinha a usar o QuickBooks para registar tudo. Também me pôs na estufa, onde
eu semeava sementes e colhia as plantas de flores, frutos e vegetais para o
nosso jardim. Não percebia muito do assunto, mas aprendi através da tentativa e
erro e Com três das esposas-irmãs de todos e quaisquer livros que encontrasse sobre o assunto.
As minha esposa-irmã Molly mugia as
vacas e tomava conta das galinhas. Levava muitas vezes as crianças com ela para
a ajudar a dar comida e levar a cabo outras tarefas relacionadas com os
animais. Elas gostavam muito.
Isto revelou-se uma bênção, uma vez
que no início de 2005 o Pai nos enviou uma revelação de que o Senhor
não queria que as crianças tivessem qualquer tipo de brinquedo. Ele disse
que Deus considerava as bonecas uma paródia da Sua imagem e um ídolo.
Bicicletas, skates, jogos – qualquer coisa divertida ou que as mantivesse
entretidas era vista como obra do diabo.
[…]
A única coisa que nos restava para fazer
era trabalhar, e havia trabalho de sobra, mesmo que fosse só para assegurar que
tínhamos tudo aquilo de que precisávamos, incluindo medicamentos. Cultivávamos
todas as ervas que o clima do Dakota do Sul permitia. Quando as crianças
adoeciam, fazíamos-lhes chás de ervas e desenvolvíamos os nossos remédios
naturais para as curarmos. Certo dia, enquanto fui a uma reunião geral, deixei
as minhas filhas com a minha irmã Melanie, que agora vivia lá. A Melanie
irrompeu pela reunião, com a Martha ao colo, que gritava sem parar. A minha
irmã tinha adormecido enquanto a pequena Martha saltava na cama. Ela tinha
saltado para fora da cama, aterrado num aquecedor e o pé ficara preso. A
Melanie acordou quando ouviu os gritos da Martha.
Agarrei na minha filha e corri para a
casa de banho, para pôr o pé dela debaixo de água fria. Assisti à pele dela a
cair do pequeno tornozelo e da parte de baixo do pé.
As outras mulheres trancavam uma das filhas de Rachel um
closet o dia todo
A Melanie sentiu-se culpada e ajudou-me
a cuidar da Martha. Fiz-lhe um unguento com ervas e mudava-lho a cada cinco
horas. Por sorte, passados dois dias já a Martha andava e as queimaduras
sararam tão bem que quase não deixaram cicatrizes, embora ela tenha perdido a
sensibilidade em algumas zonas por causa da gravidade dos ferimentos em certas
terminações nervosas.
A maior parte das mulheres da igreja
ficava de esperanças quando o filho mais novo tinha cerca de um ano. Mas depois
da Martha não fui capaz de engravidar, o que fez as minhas esposas-irmãs
ficarem ainda mais ciumentas e mais inclinadas a acharem que eu e o Rich
andávamos a ter sexo a toda a hora. (Não andávamos.) Comecei a ficar
desesperada por engravidar, nem que fosse porque não queria que estivessem
todos zangados comigo. As esposas também estavam zangadas com o Rich e ele
começou a passar cada vez menos tempo comigo para lhes agradar.
Entretanto, os problemas do Pai
agravavam-se. Em Junho de 2005, as autoridades agiram por fim contra ele.
Um grande júri do condado de Mohave, no Arizona, acusou-o de má conduta sexual
com uma menor, de conspiração para cometer má conduta sexual com uma menor e de
arranjar um casamento plural entre uma adolescente e um homem mais velho. Nesse
mesmo mês, procuradores federais acusaram-no de fuga ilícita para evitar a
acusação. O procurador-geral do Utah pediu a um juiz para congelar os bens da
igreja, que ascendiam a mais de 100 milhões de dólares. Durante anos a igreja
deteve e operou uma série de negócios, incluindo construção e usinagem, que
resultaram em enormes receitas usadas para
financiar a compra e construção das várias terras de refúgio e outras
propriedades da igreja. Em Julho, o Utah e o Arizona juntaram-se para
anunciar em conjunto uma recompensa de 10 mil dólares por inf. que levasse à
detenção do pai.
Em Novembro, o irmão mais novo do Pai, Seth, foi
mandado parar no Colorado, com mais de 140 mil dólares em dinheiro, cartões de
telefone pré-pagos e cartões de crédito, e molhos de cartas dirigidas ao Pai,
fosse como «Warren Jeffs» ou como «O Profeta». Seth admitiu às autoridades
estar a levar estas coisas ao Pai mas recusou-se a revelar-lhes o seu
paradeiro.
[…]
O Pai veio ao Dakota do Sul visitar-nos
em Maio de 2006, mais ou menos na mesma altura em que o procurador-geral dos
EUA o acusou de fuga ilícita e que o FBI o incluiu na lista dos 10 mais
procurados, com uma recompensa de 100 mil dólares por informações que
conduzissem à sua captura.
O Pai não nos contou nada disto e, uma
vez que não tínhamos acesso à televisão ou à rádio, não tínhamos maneira de
saber. Em vez disso, disse-nos a todos para escrevermos cartas de confissão, enume- Ao lado do pai, Warren Jeffs. Com 12 anos rando-lhe os nossos pecados. Na minha carta, disse-lhe que estava zangada
com as minhas esposas-irmãs por causa da forma como me tratavam e às minhas
filhas. O Pai,
que agora era procurado pelo governo federal, lado a
lado com assassinos e traficantes de droga,
mandou-me uma mensagem de penitência,
onde dizia que eu não era digna de o ver e que toda a nossa família tinha
pecado.
O nosso castigo seria insano.”
2017-11-11
VICHNIKI - continuação de post em A FOTO
Continuação do "post" do blog A FOTO: http://afoto1963.blogspot.pt/
[As imagens são da Universidade de Moscovo, 1ª e 2ª, parte nova da cidade, uma estação do Metro e a última do Teatro Bolshoi ]

Próximo
do fim do curso decidimos casar, em Portugal, na clandestinidade, sem padre nem
registo civil, o que veio a suceder uns meses depois, em Março de 1968. Veio a
um encontro comigo na Rua da Cruz Vermelha em frente da antiga Feira Popular,
em Lisboa e daí seguimos para o apartamento que eu alugara para o efeito, no
Bairro da Beneficência e onde Ângelo Veloso, meu controleiro nesse período,
veio participar na boda com leitão e uma garrafa de champanhe e desejar-nos
felicidades e muitos meninos.
Surgiam todos os anos, na Escola, paixões arrebatadas entre jovens de países diferentes. Por vezes entre comunistas em tempo de paz e comunistas em teatro de guerra, como sucedeu com o Giovanni, italiano que se apaixonou pela Marcela, guatemalteca e guerrilheira. Giovanni não quis, nem o deixariam, com o seu aspecto de italiano sofisticado, ir combater a tirania nas florestas semitropicais da América Central e Marcela que tinha um compromisso com o seu povo em luta não queria mudar-se para Roma. Giovanni era alto, forte e moreno. Desgrenhado. Sarcástico com os aspectos negativos que encontrava na sociedade soviética e sempre a dizer que na Itália era tudo mais bonito. Generoso e amigo de todos. Cantava ópera, claro.
Marcela era em tudo diferente. Não se pode dizer que fosse muito bonita mas era tão grácil, tão serena e tão segura do seu amor à sua Guatemala que era quase comovente ouvi-la falar da sua terra e da luta do seu povo. Tinha os cabelos muito pretos e uns olhos muito vivos. O seu aspecto físico era frágil mas tão determinada nas suas convicções que o Giovanni não resistiu.
A separação no fim do curso foi dramática. Quanto o autocarro com os guatemaltecos, peruanos e colombianos, se despedia da Escola e arrancava lentamente com Marcela amparada pelos seus companheiros de "Latinoamérica", os choros e os gritos eram de cortar a alma e estremeciam os gigantescos abetos, até aí imperturbáveis, que rodeavam o jardim.
Mas
a vida é assim. Grandes alegrias, grandes desgostos.
Poucos dias depois de pisarem a terra natal, talvez detectados no
regresso à luta, três dos nossos companheiros, duas raparigas e um rapaz, foram
metralhados na cidade de Guatemala. Ainda tivemos tempo de o saber e chorar a
sua morte em Vichniki. Mas a informação não indicava os pseudónimos, que era o
que deles conhecíamos, e não os soubemos identificar. Assim, sem
identificação, para nós era como se todos tivessem sido mortos.
O Giovanni, com os outros italianos, já tinha partido, mas pensámos no que seria a sua dor se tivesse sabido de tão triste nova. Certamente jamais soube o que sucedeu a Marcela.
O Giovanni, com os outros italianos, já tinha partido, mas pensámos no que seria a sua dor se tivesse sabido de tão triste nova. Certamente jamais soube o que sucedeu a Marcela.
No
posto médico que nos examinava à chegada, informavam os alunos que não faziam
abortos às mulheres originárias de países onde ele era proibido. E era o caso
de Portugal. A pílula ou não havia ou não era de fácil obtenção na altura. Por
isso, um dia, eu e a Leonor, depois de fugirmos à Ana, entrámos numa farmácia que os locais, ignorantes da língua de Camões,
designavam sem elegância, por Apoteca, para comprar uns cúmplices
preservativos. Estávamos especados no meio da farmácia levando connosco apenas
o nosso russo precário e sem saber como pedir na língua de Puskin aquelas
borrachinhas salvadoras. Queríamos evitar a linguagem gestual que muitas vezes
nos salvava do nosso Russo insuficiente porque naquela situação não seria muito
lisonjeira. Fiados na barreira da língua discorríamos em voz alta:
—
Que raio de nome dará esta gente aos preservativos?
—
Preservatif? Preservatif? — logo acorreu solícita e salvadora uma menina do outro
lado do balcão.
A
primeira reacção foi a de quem é apanhado em flagrante a cometer uma má acção,
mas logo me alegrei com a insuspeitada proximidade das línguas. Aqui e além.
Também
a palavra café não anda muito longe do quase britânico "cófi". Por
isso, soletrando o cirílico, pronunciámos vitoriosos, mais rápida a Leonor que
eu por causa do seu jeito para as línguas, a enigmática palavra:
"cófi". Entrámos resolutos e disponíveis para um café que já
saboreávamos, apesar da sala ter mais o aspecto de um "self-service"
que o de um café como a Brasileira, o Nicola, a Mexicana ou mesmo o nosso Pão
de Açúcar. Qual não foi o nosso desânimo ao vermos trazerem-nos uns enormes
copos cheios de café com leite. De regresso à Tcê Cá Chá apresentámos queixa à
nossa professora de Russo, a nossa amiga Rosa — Tavárich Rosa! - e lá lhe
manifestámos a nossa indignação. Explicámos a diferença entre um belo e
fumegante cafezinho lisboeta, originário de Angola, de São Tomé, de Timor ou do
Brasil, moca e robusta sem falar no suave e perfumado café da Colômbia e aquele
medonho galão que nos serviram.
—
Têm de pedir "tchornie cófi".
E
assim ficámos a saber que café, mesmo café, só pedindo café preto. Mas em
geral, quando pedíamos o "tchornie cófi" o que nos davam era café
turco, com as borras no fim da chávena. E não tinham aquelas salas próprias, de
verdadeiros cafés, a não ser o Café Puskin, na
Rua Gorki. Era o que mais falta sentia em Moscovo e perguntava a admirados
moscovitas como é que conseguiam viver sem o café de bairro. Onde é que
discutiam a política? Onde é que diziam mal, isto é, onde é que diziam bem do
Governo? Onde comentavam o último filme? Onde namoravam...? Respondiam-me que
era nos clubes das empresas. Talvez.
Um
pouco antes das oito horas da manhã corríamos, estremunhados e descompostos
para a casa de banho colectiva com uma fila de lavatórios e duches. Depois
corríamos para o refeitório, para o pequeno almoço e às nove horas em ponto
estávamos com os alemães na aula. Nós com a nossa intérprete a nossa muito
querida Galina que tratávamos familiarmente por Gália e eles com a sua
intérprete de russo-alemão. Durante todo o ano lectivo nem uma vez os alemães
chegaram atrasados às aulas. Os alemães - já suspeitávamos - seriam pontualíssimos.
Mas não me recordo de ter havido, uma vez que fosse, qualquer atraso de
professores ou intérpretes. Um comportamento que em Portugal não é
suficientemente valorizado. Mas nós não queríamos deixar os pergaminhos por
mãos alheias, por isso, por nacionalismo ou por não querermos perder, nem a
feijões, também nunca chegámos atrasados! Suponho que os nossos amigos
berlinenses nunca suspeitaram desta prova de força que diariamente travámos com
eles. Levávamos a peito deixar uma boa imagem do país. No aproveitamento
escolar e na nossa conduta.
Em
Vichniky, na nossa turma, os professores davam a lição em Russo e os
intérpretes vertiam-na em alemão e em português. Para não me andarem a ensinar
o que já sabia, os professores organizaram para mim, diligentemente, um plano
de estudo, bibliografia e fichas que me permitiram aprofundar conhecimentos e,
consequentemente, adequaram as provas de avaliação. Era uma prática comum aos
diferentes grupos nacionais.
O
Russo que fomos aprendendo já dava, ao fim de alguns meses, para nos fazermos
entender nas visitas que duas ou três vezes por semana, fazíamos, sós, a Moscovo
e também para sustentar uma conversação pouco rigorosa mas não era suficiente
para dispensar o intérprete nas aulas.
A
nossa turma era pequena. Além de nós três tinha apenas mais os quatro alemães
de Berlim Ocidental.
O
Sábado de manhã estava reservado à prestação de provas sob a forma de debates
com o professor respectivo.
Sábado
à noite havia convívio organizado pela escola com música e baile. O que hoje
chamaríamos uma discoteca. Sem os efeitos especiais, sem música ensurdecedora,
sem os belos sons da moderna música anglo-saxónica e quase sempre com as modas
românticas da música russa.
Aprendíamos
as cantigas populares das Américas, da Rússia e dávamos a conhecer, ao vivo , os fados da
Amália, as cantigas do Zeca Afonso, e as populares como a Oliveirinha da Serra,
Meu Lírio Roxo, Ai Malhão, Malhão. Afirmar que dávamos a conhecer as cantigas
portuguesas é uma forma de dizer. A minha total incapacidade para cantar seja o
que for deixava à Ana e em especial à Leonor essa incumbência.
Quem melhor cantava era a Leonor cuja voz já gozava de grande popularidade e sempre era solicitada para cantar.
Muitas vezes tínhamos que fugir dos nossos quartos ou fingir que não estávamos, para podermos estudar em sossego. Uma parte daqueles jovens “latinos” vinha da guerrilha urbana ou "campesina" ou de sociedades onde imperava a repressão brutal de esquadrões da morte. Talvez por isso, aquela ânsia de viver, pensei inicialmente. Mas depois verificava que os rapazes e as raparigas da Argentina, do México ou do Chile, países onde existia há muitos anos uma relativa paz social (Pinochet só veio cinco anos depois) eram iguais aos outros.
Quem melhor cantava era a Leonor cuja voz já gozava de grande popularidade e sempre era solicitada para cantar.
Muitas vezes tínhamos que fugir dos nossos quartos ou fingir que não estávamos, para podermos estudar em sossego. Uma parte daqueles jovens “latinos” vinha da guerrilha urbana ou "campesina" ou de sociedades onde imperava a repressão brutal de esquadrões da morte. Talvez por isso, aquela ânsia de viver, pensei inicialmente. Mas depois verificava que os rapazes e as raparigas da Argentina, do México ou do Chile, países onde existia há muitos anos uma relativa paz social (Pinochet só veio cinco anos depois) eram iguais aos outros.
Por
causa da língua e da proximidade, na nossa zona residencial, dávamo-nos mais
com os latino-americanos e os franceses. E também com os guineenses e
moçambicanos, apesar
destes terem os quartos noutro edifício. Nesse ano não havia angolanos na
escola.
Também evitámos as paixões internacionais, apesar da Deolinda, de pele acetinada e lindo tom castanho e do Cali que falava melhor o Inglês que o Português, constituírem um desafio nos primeiros meses à capacidade de resistência da delegação portuguesa. Assim, no continente africano, só namoriscávamos com os moçambicanos e guineenses e evitávamos o fogo ardente que nos imolasse como adivinhávamos acontecer à Carmela e ao Giovanni.
Deolinda e Cali eram nomes de guerra. Nunca saberíamos o seu verdadeiro nome e nunca mais as nossas vidas se cruzariam. Sabíamos isso. O que dava às nossas relações um carácter transitório. E também um pouco estranho. Tudo o que poderia haver entre nós ou aconteceria agora ou não mais aconteceria. E tudo o que activamente fomentássemos ou passivamente deixássemos surgir, amor ou ódio, zanga ou amizade, cooperação ou rivalidade, ficaria eterno no efémero encontro das nossas vidas em Vichniky.
No
nosso círculo de convívio privilegiado entravam alguns soviéticos, em geral
intérpretes ou professores, que falavam português, castelhano ou francês. Com
alguns tínhamos uma relação muito próxima, cúmplice e amiga. E isso sucedia com
cinco ou seis russos e russas, um tchetcheno, o que dominava sete línguas, e
que para que conseguíssemos pronunciar-lhe o nome passou para nós a chamar-se
Henrique, um mongol nosso professor e uma lituana de nome Liuda. Surpresas com
os nomes também nos trouxe a delegação do Ceilão na qual havia um José e
falava-nos dos indícios, ainda detectáveis, na sua terra, da passada presença
portuguesa.
Tinham-nos
dado um bilhete de identidade soviético que nos permitia o livre trânsito por
Moscovo e a região à volta e recebíamos uma bolsa que nos permitia uma vida
relativamente folgada. Amealhámos rublos e copeques e adquirimos um gira-discos
com um "design" muito desanimador,[mas em
contrapartida comprámos, muito barata, uma robusta colecção da melhor música e
dos melhores intérpretes. Do Barroco ao século XX, Bach, Hendel, Vivaldi,
passando por Mozart e Wagner aos russos do século XIX e XX Tchaikovsky,
Borodine, Mussorgsky, Rimsky-Korsakov, Scriabin, Shostakovitch, Stravinsky, obras
completas e não apenas excertos. Uma excelente colecção de discos, de música
erudita, que, como tudo o resto, lá ficou. Não era impossível fazer chegar a
Portugal todo o nosso património adquirido em rublos mas, para além de
ostentarem marcas pouco discretas no Portugal salazarento, não era aconselhável
andarmos com demasiado enxoval atrás de cada vez que tínhamos de mudar
apressadamente de casa, por vezes abandonando tudo.
Gália,
a nossa intérprete era uma russa de vistoso cabelo de tons dourados, culta,
grande conhecedora da literatura portuguesa e brasileira. Conhecia Fernão Lopes
e Fernão Mendes Pinto e, é claro, Camões. Conhecia Camilo, Eça, Oliveira
Martins, Camilo Pessanha, Pessoa, Cesarini, Aquilino, Namora, Redol, ou Fiama
ou Ruy Belo. E não era apenas os nomes.
Gália, que se veio a tornar uma dedicada amiga,
organizava-nos um intenso e requintado programa cultural extra-escolar.
Assistimos à temporada de ópera de um dos mais famosos teatros do mundo, o Teatro
Bolshoi. Tornámo-nos assíduos frequentadores da Tchaikovskaya Zal, onde
conseguimos ver actuar alguns dos mais famosos intérpretes musicais de então.
Sviatoslav Richter ao piano, David Oistrakh, não ao violino como já o vira em
Lisboa, no Tivoli, mas como regente de orquestra. O filho, Igor Oistrakh, outra
celebridade, no violino. No famoso palácio dos Congressos ou no Teatro Bolchói
familiarizámo-nos com o clássico balet russo e conseguimos ver a inesquecível Maya Plisetskaya que, já velhinha, nove anos
depois, encheu de aplausos o Coliseu de Lisboa, e um infindável número de
excelentes bailarinos.
Uma
vez por mês recebíamos a visita do representante do PCP, Manuel Rodrigues da
Silva, para uma reunião política. Tratava-nos com desvelo e parecia-me bastante
mais à vontade em Moscovo do que da primeira vez que o vi, em 1965. Tinha o bom
senso, coisa que não aconteceu com outros, de não nos andar a explicar como
havíamos de considerar boas as coisas más que observássemos na sociedade
soviética nem se devíamos namorar muito ou pouco e quem. Trazia-nos jornais
portugueses e notícias de Portugal. As prendas que mais apreciávamos.
Estávamos
em Junho e quase a partirmos para a viagem de fim de curso, com o grupo de
Berlim Ocidental, quando chegou a ordem do PCP para eu partir imediatamente
para Portugal para se dar inicio rapidamente às acções armadas.
Achei
a ordem totalmente inoportuna porque a viagem de fim de curso era nem mais nem
menos que à Sibéria e, como se sabe, não se vai à Sibéria todos os dias. Ia à
Sibéria. Não para a Sibéria! Coisa muito distinta. O objectivo era visitar as
grandes barragens hidroeléctricas do Oriente. A de Bratsk no Angara e a de
Krasnoyarsk
no Yenisey.
E incluía uma visita ao Lago Baikal e um passeio pela taiga siberiana.
No
fim do curso, cada grupo tinha direito a uma visita a uma república ou região
da União Soviética.
—
Carliucha, que quer você ir visitar no fim do curso? — perguntava-me, solícita
e interessada, a nossa amiga intérprete Galina, no seu português de sotaque
brasileiro e com o diminutivo à russa.
—
Aonde é que podemos ir?
—
Aonde você pedir, Carloss (Carlos era
o pseudónimo que usava em Moscovo) Se o vosso curso não conseguir o que quer,
nenhum conseguirá! — animava-nos a Gália. De facto, o pequeno
grupo português usufruía da mais elevada cotação na opinião dos professores e
da Direcção da Escola. Quer pelo aproveitamento escolar, onde nunca tirámos
menos que o máximo, nos seminários, quer pelo comportamento. Também cuidávamos
da imagem de Portugal com iniciativas políticas e culturais, em realizações de
carácter circum-escolar, como o Dia de
Portugal, ou de solidariedade com a luta dos povos das colónias portuguesas. E
até pela higiene e arranjo dos nossos quartos.
Um
dia fomos surpreendidos com uma menção pública por sermos a delegação que tinha
os quartos mais limpos e melhor decorados. Não sabíamos que nos revistavam os
quartos enquanto estávamos nas aulas!
—
Então posso pedir à vontade? — enfatizei para a nossa amiga Gália, desconfiado
da fartura. Se assim é, então quero
ir à Sibéria — propus, descrente.
Era
o que Gália queria ouvir porque essa era a sua secreta ambição. Já tinha
viajado muito pelo seu país mas à Sibéria, quase no outro lado do mundo, nunca
tinha ido e, como nossa intérprete, acompanhar-nos-ia.
—
Que óptima ideia! Mas o pedido tem de ser fundamentado porque é uma viagem
muito grande, dispendiosa e só muito raramente concedida. Mas para as
"mininas" e para o "Carloss" os
camaradas vão, com certeza, concordar.
O
pedido foi aceite e a comunicação da Galina fez que todos, nós e ela,
pulássemos de contentamento. Afinal… para eu não ir. Fiquei sempre a invejar a
visita da Ana e da Leonor cujos verdadeiros nomes são Mariana e Maria Machado,
à Sibéria, e a
maldizer o fascismo português porque maldizer o partido, por me requisitar tão
intempestivamente e afinal sem razão plausível, parecia-me pouco estatutário .
2015-08-21
Bento de Jesus Caraça, um homem que abençoava as ilusões
Intervenção de Helena Neves
na Iniciativa do Movimento Não Apaguem a Memória - NAM em parceria com campOvivo, em 5 de Janeiro de 2015, na Padaria do Povo, onde funcionou a Universidade Popular entre 1919 e 1948
______________________________
Há cem anos, nasceu uma criança do sexo masculino que, diriam mais tarde as velhas mulheres, parecia fadada por uma estrela. Estrela, sem dúvida, contraditória. Porque, se cedo se evidenciou que a sua sorte seria diversa daquela a que a origem social o destinava, e a sua vida se afirmou, desde a infância, como conquista de espaços cada vez mais amplos, o seu tempo seria breve. Ao morrer, 47 anos depois, o adulto que foi esse menino diria, segundo testemunho do sobrinho, «tão pouco tempo...» Tempo breve mas intenso. Marcando a sua época. E a nossa ainda.
Falamos de Bento de Jesus Caraça, filho de
trabalhadores rurais, nascido a 18 de Abril de 1901, em Vila Viçosa.
A morte tocou-lhe à
nascença. Conta a irmã, mais nova, Filomena Caraça, que a mãe, aflita, vendo o
menino a finar-se, correu à igreja a baptizá-lo, sem pensar sequer que nome
pôr-lhe. Acudiu-lhe o padre, sugerindo Bento de Jesus. Mais tarde, Bento Caraça
ironizará em resposta a uma crítica ao seu trabalho em O Diabo, jornal
da frente intelectual mais radicalmente oposicionista e plataforma do movimento
neo-realista. «Um articulista de Beja descobriu numa hora de ócio que há uma
quase contradição entre o meu nome tão católico (sic) e o meu ingresso nas
hostes diabólicas (re-sic). Que quer amigo? Fui baptizado à pressa e com um
escasso mês de idade. Razões por que se julgaram dispensados de me
consultar...»
Levado aos dois meses,
pelos pais, para a Aldeia de Montoito, no Redondo, onde o pai é feitor da
Herdade da Casa Branca, dá aí os primeiros passos e conhece, com pouco mais de
4 anos, as primeiras letras ensinadas por um trabalhador errante, desses que
sazonalmente chegavam ao Alentejo, este trazendo, no pouco de seu, uma cartilha escolar. Impressionada com a inteligência do
menino, a senhora da herdade, D. Jerónima, torna-se «sua protectora»: assim
assinará as cartas e postais que lhe escreve, até morrer, para os diferentes
lugares para onde o envia a aprender a ser diferente: um homem culto.
É neste percurso protegido que Bento Caraça
passa pelo Liceu Sá da Bandeira, em Santarém, e, em 1915, se encontra no Liceu
Pedro Nunes, em Lisboa, espaço de descoberta de amigos, como Luís Dias Amado,
tornado quase irmão, e Carlos Botelho, pintor da cidade e dos seus entardeceres;
espaço de encontro com o amor através de Maria Octávia, filha do professor de
matemática, Adolfo Sena; e limiar de um combate em que política e cultura
constituem uma mesma matriz..
Em 1918, Bento Caraça
termina com distinção o curso liceal e entra no Instituto Superior do Comércio,
designação ao tempo do Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras,
actualmente Instituto Superior de Economia e Gestão. Em Fevereiro de 1919, no
segundo ano do curso de Economia, escreverá numa folha de papel que encontramos
no seu espólio: «hei-de ser o primeiro aluno do meu curso».
Sê-lo-á. Nesse mesmo ano, o professor Mira Fernandes, insigne matemático,
recomenda a sua nomeação como 2º assistente temporário do Instituto para as
cadeiras de Álgebra Superior e Geometria Analítica, 1º grupo. . Licencia-se em
Outubro de 1923 com «bom com distinção», em 1924 passa a 1º assistente, em 1926
entra para a Comissão de Redacção da Revista de Economia, em 1927 é nomeado
professor extraordinário e em 1929 é professor catedrático. A sua carreira
revela-se fulgurante.
Com ele e através dele, a
matemática torna-se um universo diferente, fascinante. Quer pelo seu estilo
pedagógico, quer pela paixão que imprime e comunica na divulgação da
matemática. Sucede algo de inusitado no Instituto. Alunos de outras turmas, de
outras faculdades, de outro âmbito escolar, até de ciências humanas, afluem às
suas aulas. As aulas inaugurais de início do ano escolar tornam-se um
acontecimento cultural, um ritual de passagem. Este professor que transforma o
olhar sobre uma matéria até considerada inóspita, este homem que vê no rosto
dos alunos o estado de ânimo e os interpela pessoalmente, os consola e
aconselha, este homem irónico e meigo, é, porém, extremamente rigoroso,
exigente. Os alunos parodiam as iniciais do Instituto Superior de Ciências
Económicas e Financeiras: «Isto sem o Caraça era fácil».
Como estudioso e
divulgador, Bento Caraça introduz uma ruptura fundamental. Na sua obra, atrás
do número, das figuras geométricas, das equações, é todo o tempo humano que
pulsa, a respiração do social, as contradições de classes, a ansiedade e a luta
dos homens fazendo-se no acto de fazer a história e as ciências. Praxis
social e matemática cruzam-se dialecticamente. A renovação pedagógica e
epistemológica do livro Os Conceitos Fundamentais da Matemática, editado
em 1941, ofusca outras obras de Bento Caraça no mesmo domínio. É o caso de Lições
de Álgebra e Análise, cuja publicação, em 1935, marca, segundo o
professor Sebastião e Silva, «uma presença na história do ensino da
matemática em Portugal». Este paradigma novo, que recupera a historicidade
da produção científica, transparece no domínio da econometria que Bento Caraça
introduz na investigação académica. Em consequência, cria, em 1938, com Mira
Fernandes e Caetano Beirão da Veiga, o Centro de Estudos Matemáticos aplicados
à Economia. Impulsionará, também, o Movimento Matemático que, entre 1937 e
1947, congregará matemáticos, físicos e químicos, numa linha de investigação
inovadora, criativa, em consonância com a investigação internacional. Caraça
encontra-se também entre os primeiros académicos que constituem, em 1940, a
Sociedade Portuguesa de Matemática, cuja comissão Pedagógica dirige. Na
Sociedade encontra-se entre os fundadores da Gazeta da Matemática, e
participa nos congressos da associação Luso espanhola para o Progresso das
Ciências, em 1941, no Porto, e, em 1944, em Cordoba.
Se na matemática Bento de
Jesus Caraça opera um corte epistemológico transversal a todo o domínio
científico, no plano cultural constituirá, como salienta Eduardo Lourenço, uma
referência constante na sua própria geração e na que se lhe sucede. Quando
dizemos «obra», significamos não apenas a vasta produção teórica, mas as práticas
que protagoniza e incentiva. O que se trata é de praxis revolucionária,
uma praxis em que combate cultural e político coincidem, no puro sentido
do jovem Marx, filosofia, cultura, comprometidas na mudança do mundo.
Para o grupo social dos
intelectuais de esquerda, dos anos trinta e quarenta, num leque vasto que vai
de republicanos, mais ou menos radicais, seareiros, a marxistas, as armas da
crítica têm um alvo político directo, a ditadura salazarista. Se divergem
ideologicamente e se opõem, frequentemente, na concepção táctica e estratégica,
o seu alvo é o mesmo: o derrube do auto-designado «Estado Novo». Toda a
inteligência oposicionista esgrime contra a situação de miséria social e
cultural, para cuja mudança a cultura é tão mais fundamental quanto o
salazarismo investiu ideologicamente no obscurantismo, nomeadamente por via da
«Escola, oficina de almas», e, de forma mais refinada, da «Política do
Espirito» que, sob o impulso inteligente de António Ferro, mobilizou mesmo
alguns intelectuais não fascistas.
É pois num contexto de
condicionamento cultural, fortemente repressivo, agindo nas consciências e nos
actos pela censura e pela interdição das liberdades de reunião e de associação,
que Bento de Jesus Caraça sobressai num grupo de outros importantes
combatentes. A sua concepção de cultura «como despertar das almas», de «aquisição
da cultura» como significando «a conquista da liberdade» afirma-se
na série de conferências e escritos (mesmo os matemáticos), nos artigos que
publica no Globo, jornal efémero que, a 11 de Novembro de 1933, funda
e dirige com José Rodrigues Miguéis, no Liberdade,
em O Diabo , na Seara Nova
e noutros órgãos de intervenção. Mas não somente. Toda a sua vida
quotidiana é de empenho cultural e político. Na Universidade Popular Portuguesa,
cujos corpos gerentes integra, desde a fundação em 1919, e a que preside, desde
1928 até à morte, Bento Caraça imprime um debate de ideias, uma perspectiva de
cultura como impulso para a mudança, que tornam este espaço uma vanguarda de
divulgação literária, artística e científica, cuja dimensão, em termos
nacionais mas também internacionais, está ainda por ser devidamente estudada.
. No mesmo sentido, funda
a Biblioteca Cosmos, com Manuel Rodrigues de Oliveira, que dirige desde 1941
até à morte. Uma Biblioteca que pretende ser, como escreve ao apresentar a
colecção, «uma pequena pedra» para «toda uma vida nova a construir
dominada por um humanismo novo». Em torno deste programa, Bento Caraça
congrega intelectuais num espectro muito amplo de pertenças e referências do
pensamento da época, muitos deles já colaboradores da Universidade Popular. O
projecto gráfico é do amigo Carlos Botelho. Considerada já a primeira
enciclopédia portuguesa, anterior à colecção francesa «Que
sais-je?», a Biblioteca Cosmos, produção de
transdisciplinaridade, no sentido conceptual contemporâneo, contará com a
colaboração, entre outros, de Adolfo Casais Monteiro, Adriano Gusmão, António
Sérgio, António da Silveira, Diogo de Macedo, escultor, José Gomes Ferreira,
Luís Navarro Soeiro, Manuel Peres, Mário Dionísio, Mário Neves, Orlando
Ribeiro, Paulo Quintela, Ruy Luís Gomes, Vitorino Magalhães Godinho. Publicam
aqui os primeiros livros, Rómulo de Carvalho, Agostinho da Silva, Irene Lisboa,
Luís de Freitas Branco, Fernando Lopes Graça, Manuel Mendes, Maria Silva,
Alberto Candeias, Flausino Torres, Eugénio Conceição Silva, Ramiro da Fonseca.
Até 1948, ano da morte de Caraça, a Cosmos publica 145 volumes, correspondendo
a 114 títulos, com uma tiragem global de 793 500 exemplares.
Mesmo quando a
intervenção de Bento Caraça se assume numa vertente mais situada politicamente,
é ainda e sempre o «despertar das almas» que o move. Porque, como
acentua em diversas fórmulas, as revoluções pressupõem uma consciência
necessária à sua sustentabilidade.
Destacando-se no empenho pelo frentismo político, Bento
Caraça funda a Liga contra a Guerra e o Fascismo, é um activista no apoio aos
presos nos campos de concentração nazis e aos refugiados, colabora na Frente
Popular, surge como um dos mais estacados
fundadores do MUNAF, Movimento de Unidade Nacional Antifascista, em 1942, e do
MUD, Movimento de Unidade Democrática, em 1945, de cuja comissão central será
vice-presidente. Por este envolvimento, no qual produz importantes documentos
de análise política, será preso várias vezes e demitido das funções de docência
a 8 de Outubro de 1946, sob a acusação de ter assinado um documento contra a
admissão de Portugal na NATO, tal como o professor Mário de Azevedo Gomes, co-autor
do documento e presidente da comissão central do MUD.
É já então casado com a
segunda mulher, Cândida Gaspar, a aluna que o levou a abandonar a longa viuvez
do breve casamento com Maria Octávia, que durara menos de um ano. Com Cândida,
que lhe devolve a paixão e a ternura, será também breve a vida. Ele sabe-o. A
doença cardíaca, já de longa data, agravava-se. Por isso o olhar de profunda
ternura com que segue os primeiros passos vacilantes de João, o seu filho, é um
olhar pleno de nostalgia. Nostalgia do futuro. E nas últimas fotografias antes
da morte, a 25 de Julho de 1948, Bento Caraça devolve-nos o sorriso magoado dos
que sabem que vão morrer.
Deixará uma obra
invulgar. E uma invulgar saudade. Porque muitos foram os que o amaram nesse
tempo de cruzamento de cumplicidades, de militâncias e de amizades. E mais
ainda os que o admiraram.
No seu enterro, a 27 de
Julho de 1948, uma impressionante multidão, num impressionante silêncio, vai
pelas ruas de Lisboa, de Campo de Ourique ao Cemitério dos Prazeres. Agentes da
polícia política enquadram a multidão, infiltram-se nela à espera da quebra do
silêncio que não sucede, e, intimidatoriamente, filmam todo o funeral, nas ruas
e no cemitério. Um cortejo simbólico, uma quase coreografia, imaginada pelo
amigo Fernando Piteira Santos, as jovens e os jovens, em bloco, as mãos densas de flores. Afirmando
a continuidade na ilusão do mundo que Bento Caraça procurou no seu empenho
cultural e político.
Como ele escrevera em
1939, na Seara Nova, «as ilusões nunca são perdidas. Elas significam o que
há de melhor na vida dos homens e dos povos. (...) Benditas as ilusões, a
adesão firme e total a qualquer coisa de grande, que nos ultrapassa e nos
requer. Sem ilusão nada de sublime teria sido realizado, nem a Catedral de
Estrasburgo, nem as sinfonias de Beethoven. Nem a obra imortal de
Galileu.»
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