2013-07-24

Três teses renascentistas para a esquerda

Francisco Louçã
Público
22 de Julho de 2013


Vinte dias de crise e não voltámos à estaca zero. Estamos pior, nas vésperas do segundo resgate. Mas iluminou-se o que era obscuro: o governo é uma dissimulação irrevogável, o Presidente é fraco, o PS tudo promete o que pouco compromete, a Europa fecha-se, o descalabro social rompe pelas estatísticas. Precisamos por isso de um abanão.As três teses que apresento de seguida são propostas para essa insurreição da razão.

Primeira tese: a finança-sombra subjuga a economia que subjuga a democracia.
Há dois meses, o valor do mercado de derivados não regulados ultrapassou um quadrilião de dólares. Duplicou desde o início da recessão e é mais de 16 vezes o PIB mundial. É capital fictício,evidentemente, mas é capital – ou seja, o seu valor é garantido por salários,pensões e impostos, através do controlo implacável da dívida pública. Esvaziado, o Estado deixa de repartir bens públicos porque é uma agência da finança.

Na Europa, a dívida é a máquina que permite simultaneamente perpetuar a renda financeira futura e impor o novo regime social, por via da “corrosão de carácter” a que se refere Sennett: a maior transformação social desde a passagem da economia agrária para a industrial, a precarização absoluta do trabalho qualificado.

A essa economia corresponde uma política-sombra que reduz os súbditos, tirando-lhes tudo e não devolvendo nada.Assim, sem espaço para o centro, os regimes desfazem-se cruelmente. Primeira conclusão: sem vencer a finança-sombra, sobrará uma democracia cerimonial para gerir o empobrecimento radical.


Segunda tese: Na Europa, é preciso o primeiro governo de esquerda que comece a romper o círculo vicioso da subjugação à finança.
Se as chefias da UE e do BCE são instrumentos desta finança-sombra e se não desistimos da Europa, só temos um instrumento realista para começar a viragem: seja na Grécia seja em Portugal,conseguir o primeiro governo de esquerda que enfrente a pressão financeira. Uma nova aliança europeia tem de começar por um governo que esteja disposto a dirigir essa ruptura. O seu ponto fulcral é a tirania da dívida.

Para isso, é preciso constituir uma maioria com um forte campo popular contra a finança-sombra, que reestruture a dívida e devolva os salários e pensões. Depressa, porque a destruição social em curso é irreversível: reconstituir o SNS ou a Segurança Social é trabalho imenso.

Essa vitória é possível. Sem o vórtice do centro, a esquerda fica a única representante das políticas sociais que são a condição da democracia. Segunda conclusão: a esquerda é a única voz da democracia contra o confisco fiscal e para controlar a banca para usar os recursos necessários à criação de emprego.

Terceira tese: o governo de esquerda não se fará com os comprometidos da troika e exige um novo mapa político.
Da forma que se conhece, Seguro tornou claro esta semana que só trata com a direita e que, se não fosse o tumulto no seu partido, aceitaria adiar eleições a troco de alguma coisa. Mas a rebelião,chefiada por Mário Soares, também prova a sensibilidade de tanta gente do PS contra a austeridade.

A novidade decisiva, no entanto, foi a iniciativa do Bloco, que muitos esperavam, provando vontade para o governo de esquerda. Sem condições e com uma agenda clara: a reestruturação da dívida e o Estado Social. A partir de agora, não há mais nenhum obstáculo na esquerda para um entendimento de maioria, a não ser a devoção da direção do PS ao ritual dos acordos com a troika.

Chegamos por isso ao momento da verdade.Seguro ficou a saber que o que não assinou agora fica assinado depois: com a troika, prosseguirá sempre a austeridade castigadora que garante a renda financeira. Corrompido pelo hábito dos interesses, cheio de balofa “pose de Estado”, este centro já não faz política: faz-se de morto, à espera que a austeridade alivie como a trovoada que passou. Engana-se. Terceira conclusão: a austeridade será a nossa vida se desistirmos da vida.

O Renascimento da esquerda depende da força que quer esta viragem. Diziam os antigos que há um tempo da coruja e um tempo da águia, tempo de pensar e de fazer: agora é tempo da esquerda socialista, empenhada num governo que liberte Portugal das garras da finança-sombra.

2013-06-27

"A Alma da Europa à Venda"

Artigo de Mário Vieira de Carvalho, no Público de 2013-06-27: [ampliar com um clique]


2013-06-18

Renegociar já, mas não como os credores querem

Artigo de José Castro Caldas, no Público de 17 Junho 2013
 
"Com as intervenções da troika, uma parte importante da dívida grega e portuguesa passou de mãos dos credores privados, internos e externos, para a de credores oficiais - o FMI, o BCE e os fundos da União Europeia. Para isso serviram os resgates: para transferir dívida pública tóxica do sector privado para o sector público."


"Quem agora o reconhece, com a mais desavergonhada candura, é o FMI no relatório sobre a Grécia que recentemente veio a público: "Uma reestruturação à partida teria sido melhor para a Grécia, apesar de isto não ser aceitável pelos parceiros do euro. Uma reestruturação atrasada também criou a janela para os credores privados reduzirem a sua exposição e mudarem a dívida para as mãos de credores oficiais (FMI, BCE e instrumentos europeus). Esta mudança ocorreu numa escala significativa e limitou um bail in (resgate envolvendo os detentores de títulos de dívida)... deixando os contribuintes e os Estados com a responsabilidade de pagar".

"Compreende-se assim que, "à partida", os banqueiros não quisessem nada com a reestruturação da dívida. "Temos de evitar a reestruturação da dívida o mais possível porque se fizermos perder dinheiro àqueles que nos emprestaram dinheiro, esses não vão voltar a emprestar outra vez", disse José Maria Ricciardi [um dos donos do BES], segundo o jornal Sol, no dia 27 de Dezembro de 2011.
E compreende-se também que a opinião agora comece a mudar. "Se até 2014 a economia não crescer, vai ser necessário reestruturar a dívida", disse o mesmo Ricciardi em entrevista ao Jornal de Negócios na semana passada.
Não era difícil perceber o que devia ser feito em 2010 na Grécia e em 2011 em Portugal - Grécia e Portugal deviam ter desencadeado uma renegociação da dívida tendente à sua reestruturação. Mas a reestruturação atempada da dívida teria feito "perder dinheiro àqueles que nos emprestaram dinheiro" e isso era inaceitável para quem condicionava e acabou por determinar as decisões políticas do momento - os bancos e os fundos de investimento.
A situação agora é outra. Agora, perante os resultados da austeridade, interessa aos banqueiros garantir a cobrança de alguma coisa antes que as vítimas da austeridade se tornem incapazes de pagar o que quer que seja. Por isso falam de reestruturação da dívida.
Será que isso significa que a renegociação da dívida e a sua reestruturação já não interessa aos povos da Grécia e de Portugal? É claro que interessa. Só a renegociação, acompanhada de uma moratória, e a reestruturação, com anulação de uma parte do valor da dívida, redução das taxas de juro e alongamento das maturidades, pode reduzir o peso dos juros na despesa pública, evitar o colapso da provisão pública de bens e serviços e libertar recursos para o investimento e a criação de emprego.
Mas a reestruturação de que Portugal e a Grécia precisam não é a dos credores. Aos credores interessa aliviar o fardo para que o "animal" continue a ser capaz de puxar a carroça. Aos povos grego e português interessa alijar a carga para caminhar em frente, sem condições impostas pelos credores.
A renegociação tendente à reestruturação da dívida de que precisamos tem de ser conduzida em nome do interesse nacional, contra o interesse dos grandes credores e salvaguardando os pequenos aforradores. O Estado português tem de tomar a iniciativa e conduzir todo o processo.
Mas o Governo português, o Presidente da República e a maioria dos deputados da Assembleia da República fingem não perceber. Estão sentados à espera que os credores mandem. Em contrapartida, cresce na sociedade a compreensão da necessidade de agir.
 
A Iniciativa para uma Auditoria Cidadã à Dívida (IAC), que desde a sua fundação em Dezembro de 2011 tem vindo a conhecer e dar a conhecer a dívida pública (ver o relatório "Conhecer a dívida para sair da armadilha"), lançou, em conjunto com outras organizações, a campanha Pobreza não paga a dívida: renegociação já!
 
Responde esta campanha à necessidade sentida pela IAC de complementar o trabalho de estudo e análise da dívida pública, que prosseguirá, com mais debate público sobre as causas e as consequências da dívida e mobilização pela sua renegociação com a participação dos cidadãos.
A campanha envolve uma petição dirigida à Assembleia da República, instando-a a pronunciar-se pela abertura urgente de um processo de renegociação da dívida pública, pela criação de uma entidade para acompanhar a auditoria à dívida pública e o seu processo de renegociação e pela garantia de que nestes processos existe isenção de procedimentos, rigor e competência técnicas, participação cidadã qualificada e condições de exercício do direito à informação de todos os cidadãos e cidadãs.
"Trata-se de fazer ouvir em S. Bento uma opinião e uma vontade que acreditamos ser maioritária na sociedade portuguesa.
"É certo que quando tudo está a arder uma petição parece pouco. No entanto, com um número pouco usual de assinaturas, a petição terá força. Confrontando os membros da Assembleia da República com as suas responsabilidades, poderá acordá-los para a necessidade de não fazer o que os credores querem."
A petição pode ser subscrita online aqui: «Pobreza não paga a Dívida: Renegociação já!»
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2013-06-17

José Mujica

Sim é o presidente do Uruguai. Ex-guerrilheiro "tupamaro". Quem o vê não dá nada por ele. Mas escutando-o... perceberá então que se trata de um político de natureza diferente dos que por estas bandas pontificam, de conversa engravatada.
É um homem culto e guia-se por valores. Estranho, não é ?
 
 
AUDICIÓN en m24

Mujica criticó “superficialidad de las ideas” para analizar el país

 
“Cuando un hombre aumenta sus conocimiento no necesariamente aumenta sus valores”, expresó el mandatario.
vie jun 14 2013 12:46
El presidente José Mujica dedicó su audición radial a reflexionar sobre el rol de la educación en la sociedad.
El mandatario comenzó criticando “la superficialidad de las ideas que se manejan para nuestro país no hacen cometer simplistas. Que después nos deja desarmados a las complejidades de la propia realidad”.
Luego el mandatario comenzó a hablar sobre la corriente del iluminismo, “una corriente de ideas que construyó una filosofía política en la que todos los males de la sociedad era consecuencia de la ignorancia y la masificación de la enseñanza nos iban a colocar una sociedad en donde las mayoría de los problemas iban a estar solucionados”.
En ese sentido Mujica reflexionó sobre “la obra de gran importancia” que fue la masificación de la escuela pública en Uruguay, apoyada en el iluminismo. “Fue un esfuerzo de carácter formidable. Se superan algunos problemas y del mano de la educación aparecieron otros (...) Y sobre todo cuando vive en una civilización en el que hace la tuya, y el mercado, y el mercado y el comprar y el comprar y el consumir, y el consumir, se transforman en los valores centrales, no nos deja espacio para disfrutar de la vida", aseguró.
“La ingenuidad del iluminismo está compensada por lo mucho que aportó, pero no podía prever que cuando el hombre multiplica sus conocimiento no necesariamente multiplica sus valores”, afirmó el mandatario.
“Caer en una dependencia material consumista nos impone una vorágine de trabajo que consume nuestra energía, y no nos queda absolutamente nada para las cosas de la felicidad. Yo creo que es demasiado superficialidad el enfoque que veo por aquí y por allá, para explicar el acontecer en la grades urbes y no escapa nuestra sociedad", opinó.
Y concluyó: "Quiero ponerme en guardia a las soluciones que aparecen como fáciles pero no tiene nada de fáciles”.

2013-05-12

Como evitar o corte nas pensões

Eis um muito oportuno artigo do Professor Valadares Tavares, publicado no Público de 2013-05-12, que oferece ao governo uma alternativa aos cortes nas pensões e revela, de caminho, a sua profunda ignorância e impreparação para governar. Mas não se trata só de ignorância e impreparação. O 1ºM, o MF e outro pessoal da sua entourage são uns crentes nos dogmas neoliberais, gente muito centrada nos seus interesses e que nutre um colossal desprezo pelos seus concidadãos que vivem do seu trabalho. 

É urgente demitir o Governo e se o PR persistir no seu suporte para lá de toda a razoabilidade e decência então há que pressionar Cavaco a ir de B para B. É simples, é mudar-se de B para B. De Belém para Boliqueime.    
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O Orçamento do Estado é, em qualquer Estado moderno, o seu principal instrumento de governação, pelo que deve ser preparado, verificado, negociado e aprovado antes do início do ano para que possa estruturar as políticas e actuações governativas, inspirar confiança nos mercados e nos agentes económicos, ajudando estes a planear os seus Í investimentos e a programar as suas acções.

Portugal viveu nos primeiros tempos de democracia dificuldades graves de aprovação orçamental, vivendo-se no “regime dos duodécimos” com custos acrescidos para todos, mas nas últimas décadas passou a dispor de orçamentos aprovados atempadamente, embora não executados correctamente, pois em quase todos os exercícios foi necessário aprovar rectificações orçamentais, a partir do 2.º semestre, e ainda não se concluiu qualquer ano com saldo positivo! Infelizmente, no ano de 2013, Portugal regressa às dificuldades passadas, estando-se já em Maio sem saber qual o orçamento que vigora em 2013, o que resulta, não de dificuldades de aprovação na AR, mas sim da dificuldade de construção pelo Governo de propostas orçamentais que respeitem a Constituição.

Com efeito, as recentes declarações governamentais sobre eventuais propostas de alterações orçamentais, frisando-se que “está tudo em cima da mesa”, parecem indiciar um clima de brain storm, talvez útil numa fase muito preliminar de preparação do orçamento - a qual deveria ter ocorrido no Verão passado, mas certamente nunca em Maio do próprio ano. Este experimentalismo orçamental, ainda por cima, novamente, baseado em opções com elevada probabilidade de virem a ser consideradas inconstitucionais por quem tem competência para tal juízo - o Tribunal Constitucional -, lança o país em acrescida incerteza, aumentando a sensação de insegurança em todos os agentes económicos, especialmente consumidores e, por consequência, também nos investidores já que estes planeian os seus desenvolvimentos em função da procura.

Como exemplo, cenarizar novos cortes nas pensões, neste caso do sistema público, e com efeitos retroactivos (!), agudiza o pânico em centenas de milhares de consumidores que dispendem a quase totalidade do seu baixo rendimento disponível médio e gera imediata retracção no seu consumo. Ou seja, é a melhor forma que o Governo podia encontrar para acelerar a espiral recessiva, aumentar o crescimento do desemprego e retrair possíveis investimentos futuros.

Importa agora compreender que a aflição orçamental que vem sendo vivida pelo Governo e pelo país se relaciona, principalmente, com a necessidade real de reduzir a despesa pública, o que exige, como é evidente, que os decisores conheçam muito bem a complexa máquina geradora de despesa mas, infelizmente, as evidências indiciam o oposto, pois, se assim não fosse, como compreender a convicção, rapidamente malograda, de que seria pela fusão de algumas entidades que se faria a reforma do Estado (20l1e 2012)?

Ora todas as análises comparativas feitas mostram que o nosso sistema público é dos mais complexos, pois inclui cinco administrações públicas com histórias, lógicas e quadros legais e regulamentares bem distintos, a Administração Directa (direcões- gerais), desenhada pela Reforma de 1935, as Administrações Regionais e Autárquicas, surgidas nos anos 1970, a dos Institutos Públicos (serviços e fundos autónomos), muito expandida nos anos 1980, a das Empresas Públicas (década de 1990) e a das parcerias público-privadas, já deste século.

Eis por que quem nunca viveu a experiência de administração pública ou não a estudou tende a formar perceções erradas e a não conseguir controlar a própria despesa tal como os factos evidenciam. Talvez o melhor exemplo deste desconhecimento seja pensar que o principal problema da despesa pública seja o montante pago em salários e em pensões quando aqueles já estão aquém da média europeia e abaixo dos 10%. Pelo contrário, toda a soma das despesas contratualizadas com outras entidades (investimentos, bens, serviços e consumos intermédios) totaliza cerca de 17% do PIB, pelo que gerar aí uma poupança de 10% significa poupar quase 2% do PIB.

Infelizmente, esta componente da despesa pública não tem vindo a ser analisada ou controlada pois, senão, como compreender que a despesa com aquisições de bens e serviços dos institutos públicos tivesse aumentado mais de 10% em 2012, no ano de todos os cortes em salários e pensões, segundo os próprios dados do Ministério das Finanças? Ou compreender o aumento de mais de 50% desta rubrica na Administração Regional da Madeira? Quais os esclarecimentos do Governo sobre este descontrole?

Na verdade, urge não só rever toda a fundamentação desta vasta gama de despesas como também aumentar a sua transparência e eficiência. Para tal, uma das medidas mais evidentes consistirá em substituir a esmagadora maioria actual de ajustes directos, opacos, e evitando a competitividade e transparência, por procedimentos electrónicos, abertos a todos os potenciais fornecedores, o que, segundo dados recentes, permitirá reduzir a sua despesa em mais de 10%,

Atendendo a que o primeiro- ministro convidou à apresentação de propostas alternativas ao corte das pensões, aqui fica a primeira sugestão: reduzir a despesa nas aquisições de bens e serviços dos institutos públicos, das regiões, das empresas públicas em 10%, o que irá gerar uma poupança superior à necessária, potenciando a contratação electrónicas compensando os aumentos inacreditáveis que ocorreram em 2011 e.2012.
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Professor catedrátioo emérito do IST, ex-presidente do INA e presidente da APMEP.

2013-05-01

Cavaco ele mesmo

Baptista Bastos mostra-nos Cavaco. Cavaco por dentro. Cavaco cavaco. Baptista Bastos é um artista da palavra e alia às suas qualidades literárias de grande jornalista e escritor uma larga cultura e uma madura experiência política. Por isso ele lê a alma deste homem que não merecíamos ter por presidente com a mesma facilidade com que eu leio os seus cintilantes artigos.
Para que fique à mão de uma indispensável referência sem as contingências da presença efémera no site do DN aqui o guardo:

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Um alarido inusitado, por injustificável, envolveu o discurso do dr. Cavaco nas cerimónias oficiais do 25 de Abril. No Parlamento a coisa foi pífia, nas ruas a festa assumiu o carácter do protesto
contra o que estamos a viver. Ouvi e li o que disse o dr. Cavaco e não fiquei nem surpreendido nem chocado. É a criatura que há, o Presidente que se arranja, irremissível e sombrio. Medíocre, ressentido, mau-carácter, incapaz de compreender a natureza e a magnitude histórica da revolução. E sempre agiu e se comportou consoante a estreita concepção de mundo com que foi educado. A defesa da direita mais estratificada está-lhe no sangue e na alma, além de manter, redondo e inamovível, um verdete avassalador pela cultura. O possidonismo da sua estrutura comportamental pode ser aferido naquela cena irremediável, em que, de mão dada com a família, sobe a rampa que conduz ao Pátio dos Bichos, no Palácio de Belém, quando venceu as presidenciais.
O homem confunde Thomas Mann com Thomas More; ignora que Os Lusíadas são compostos por dez cantos; omite o nome de José Saramago, por torpe vingança, na recente viagem à Colômbia, enquanto o Presidente deste país nomeou o Nobel português com satisfação e realce; não se lhe conhece o mais módico interesse pela leitura; e, quando primeiro-ministro, recusou à viúva de Salgueiro Maia uma pensão, que, jubiloso e feliz, atribuiu a antigos torcionários da PIDE. Conhece-se a arteirice com a qual acabrunhou Fernando Nogueira, seu afeiçoado; a inventona das escutas em Belém, montada por um assessor insalubre e por um jornalista leviano; a confusa alcavala com o BPN, com a qual auferiu uns milhares de euros; contrariou uma tradição, por ódio e rancor (sempre o ódio e o rancor), e não condecorou José Sócrates, quando este saiu de primeiro-ministro. É uma criatura sem amigos; dispõe, apenas, de instantes de amizade interesseira. Nada mais.

O discurso que tem suscitado tanta brotoeja é o seu normal. Tão mal escrito quanto os outros; desprovido de conteúdo racional, emocional e ético; e um atropelo às mais elementares normas de sensatez e equilíbrio exigíveis a quem desempenha aquelas nobres funções. Espanto e indignação porquê e para quê?, se ele não tem emenda nem berço que o recomende.
Mas as coisas, ultimamente, têm atingido proporções inquietantes. A ida a Belém do primeiro-ministro e do ministro das Finanças perturbou o senhor. Parece julgar-se a rainha de Inglaterra, considerando o papel superior a que a si mesmo se atribui. A soberba dele sobe de tom, admitindo alguns de nós e muitos de entre eles que pode haver indícios de oligofrenia, doença incurável. "Eu bem avisei! Eu bem avisei!", costuma agora dizer, como uma tenebrosa ameaça. No núcleo estrutural deste homem emerge a complexidade indecisa de uma alma juvenil irresolvida - e, por isso mesmo, extremamente perigosa.

2013-02-01

Do Rato e dos homens

FERNANDA CÂNCIO
por FERNANDA CÂNCIO  [Link:  DN - 2013-02-01]

Não fossem os portugueses ainda com emprego ficar mesmerizados com os recibos do ordenado de janeiro, o PS encenou, esta terça-feira, um grandioso espetáculo no Rato. Coisa shakespeariana: um rei fraco rodeado de lugares-tenentes aos gritos de deslealdade e conspiração ante o anúncio de uma pretensão ao trono, uma reunião à porta fechada e um final em que o monarca, depois de chamar e deixar chamar tudo a quem possa pô-lo em causa, abraça o concorrente que não chega a sê-lo e assume o compromisso de com ele trabalhar em prol da união do reino.
Em Shakespeare, como em geral, o pano nunca cai depois de uma cena destas. É só o princípio da intriga e de sangrentas congeminações que inevitavelmente nos revelam a natureza das personagens e da sua relação com o poder. E que sabemos nós das personagens? Comecemos pelo rei. Há um ano e meio no trono, não só tarda em mostrar o seu projeto e valor no campo de batalha como se rodeia de uma corte apagada e sem chama que, na noite de terça, mostrou também (com raras exceções, como a de Zorrinho) ser vil. É um monarca que não hesita em recorrer ao insulto, à ameaça e a insinuações de conspiração - chama desleais aos que com ele não concordam e que o consideram inadequado, fala ou deixa que por ele falem de "limpar o partido e o grupo parlamentar" (atribuído pela SIC, na noite de terça, à direção socialista), acusa quem o defronta de "querer regressar ao passado", dando alento aos boatos que dizem ser o rei anterior a comandar, do exílio, a sublevação. Para, numa entrevista na noite seguinte, fazer de magnânimo e amnésico, cumulando de elogios o adversário da noite transata.
Quanto a este, alcaide valoroso e respeitado, com legítimas aspirações ao trono, renunciou a bater-se por ele quando ficou livre. Desde a coroação, porém, não perde uma ocasião de demonstrar o seu desagrado e até desprezo pelo ora rei. Era, pois, previsível que aglutinasse a esperança dos que consideram estar o reino mal dirigido e veem nele a esperança da vitória contra o inimigo e a salvação do povo. Como explicar, pois, que na famosa noite, quando todos esperavam que se perfilasse como candidato ao trono - o que só pode decorrer do facto de o ter confirmado aos próximos - se tenha ficado? Faltou-lhe a coragem, as ganas? Percebeu que não estava garantida a vitória e só quer arriscar não arriscando? Habituou-se ao conforto de criticar, na sua cátedra da SIC, sem correr o risco de provar que sabe e quer fazer melhor? Sentiu-se traído, na hora H, por aqueles de quem esperava apoio? Ou, como alguns aventam, recuou para tomar balanço, fazendo do recuo (o acordo da união) repto? Seja qual for a resposta certa (senão todas), sabemos, como sabem os protagonistas, isto: que na noite de terça algo se partiu no PS, e não há pantomina de união que o disfarce. O trono pode ter sido segurado, mas o reino está longe de seguro.

2013-01-17

Ricardo Salgado esqueceu-se de declarar 8,5 milhões de euros ao fisco

Artigo no jornal "I"

Por Carlos Diogo Santos e Luís Rosa, publicado em 17 Jan 2013 
 
Antes de ser ouvido na Operação Monte Branco, o presidente-executivo do BES fez três rectificações à sua declaração original de IRS de 2011

Na declaração inicial o presidente do BES referia ter ganho cerca de 1,1 milhões de euros
filipe casaca
 
O presidente-executivo do Banco Espírito Santo (BES) deslocou-se ao Departamento Central de Investigação e Acção Penal (DCIAP) no passado dia 18 de Dezembro para prestar depoimento na investigação em que estão sob escrutínio os crimes de fraude fiscal qualificada e branqueamento de capitais.

2012-12-16

Artur Baptista da Silva? Será mesmo esse o seu nome?

Depois das conferências no distinto International Club of Portugal, no distintíssimo Grémio Literário, depois de solicitado pela TSF e pelo programa Expresso do Meia Noite, depois da entrevista ao Expresso, depois da excelente animação dos media ficámos a saber que afinal o Sr. Artur Baptista da Silva não é nem foi, como dizia, professor na tal universidade norte-americana, consultor do Banco Mundial, coordenador do Observatório Económico e Social da ONU, a instalar em Portugal, tu cá tu lá com o Secretário Geral da ONU, Ban Ki Moon, ex-Sec Estado do governo português, deputado à Constituinte, membro da Comissão Política do PS, é prudente duvidar que tenha de facto o nome de Artur Baptista da Silva ou até que exista mesmo!
A verdade é que o Sr. enganou meio mundo quanto à identidade mas fez análises políticas e fez propostas que foram consideradas pertinentes.
O insólito acabou por propiciar no meio da desgraça nacional umas boas gargalhadas neste fim de ano de 2012, ano em que o governo do país se revelou ser uma fraude, ser de facto um agente da banca nacional e internacional contra o seu próprio país.
O Sr., supostamente Artur Baptista da Silva, para dizer o que tinha para dizer teve necessidade de se adornar com todas aquelas lustrosas plumagens científicas e políticas. Foram as ideias que expôs muito aplaudidas mas a seguir totalmente desvalorizadas. Afinal parece que mais do que argumentos o que vale é o trajo do conferencista.

Da entrevista dada ao Expresso de 2012-12-15 por (supostamente!) Artur Baptista da Silva ficam aqui uns extratos

 

2012-11-06

João Ferreira do Amaral

Entrevista dada à TSF



Entrevista dada a DINHEIRO VIVO em 03/11/2012.
João Ferreira do Amaral garante que a refundação do Estado é um acelerador da recessão. "O modelo tem de ser outro", diz

"Se agora cortamos 2 mil milhões, daqui a dois anos cortamos 6"

João Ferreira do Amaral
João Ferreira do Amaral
Diana Quintela
03/11/2012 | 00:00 | Dinheiro Vivo 
          
João Ferreira do Amaral conhece bem o FMI. Esteve nas primeiras negociações em 1977 e repetiu na crise de 1983, quando Portugal foi obrigado a desvalorizar o escudo. Hoje, não percebe os modelos do Fundo. Nem a insistência na austeridade, que levará o país - garante, em entrevista ao Dinheiro Vivo e à TSF - ainda mais fundo na recessão.
Foi relator do CES num parecer que foi muito crítico à política orçamental e à estratégia deste governo. Agora foi substituído por outro relator. Porquê? Porque foi demasiado crítico?Não, penso que não. Não sei. Não sou eu que me nomeio relator, mas penso que não. Teve que ver com a natural rotação. Já no ano passado também não fui relator do parecer sobre o orçamento para 2012. Tem havido uma rotação que acho muito bem, aliás.
Não acha que estar mais próximo do PS nesta altura, ou ser visto como mais próximo do PS, pode ter influenciado?Não, penso que não. Aliás, não sei se o grau de criticismo que vai aparecer no próximo parecer, que será aprovado brevemente, será inferior ao que constava no documento de estratégia orçamental. E convém dizer que o parecer não é do relator.
Portugal gasta anualmente cerca de oito mil milhões em juros. Se não os pagássemos o défice seria zero. É inevitável renegociarmos a nossa dívida?Dependerá muito do crescimento económico. A grande probabilidade é que, mais cedo ou mais tarde, vamos ter de renegociar prazos e juros, porque não vejo que o crescimento económico se possa acelerar muito rapidamente nos próximos anos - e basta que o crescimento seja zero ou um pouco negativo, como tem sido em termos nominais, isto já incluindo o aumento de preços, para a dívida ir ganhando peso mesmo que o défice seja muito pequeno. Portanto, como esta espiral a certa altura torna-se ingerível, a probabilidade é de que um dia vamos ter de renegociar prazos e juros da dívida.
Mas nunca um corte como foi feito na Grécia, um corte agressivo do montante total da dívida?Bom, isso dependerá da situação. Eu espero que não se chegue a essa situação, porque isso tem sempre consequências muito nefastas a prazo. Um corte, não um reescalonamento mas um corte em si próprio, tem tendência a perpetuar-se em termos de desconfiança durante muito tempo.
Tem defendido que Portugal deveria sair de uma forma organizada do euro. Mas ninguém, nem os partidos mais à esquerda, parece defender isso. Vamos mesmo acabar por sair de uma forma atabalhoada?Há uma grande probabilidade de isso acontecer porque, olhando friamente para as condições em que Portugal está, não vejo como possa sustentar--se dentro da zona euro. Isto muitas vezes não é apontado porque estamos muito focados em questões financeiras, mas as recessões financeiras não surgem por acaso, surgem porque temos um profundo desequilíbrio na estrutura produtiva, que se foi acumulando ao longo do tempo desde a altura em que começou o caminho para a moeda única, e ainda antes de a moeda única estar realizada. Gerámos, desde essa altura, um desequilíbrio muito grande na estrutura produtiva. Há vinte anos, quando começou o caminho para a moeda única, o nosso sector industrial pesava 24% do produto interno bruto (PIB). Hoje pesa 13 %, que é metade do que pesava em 1953, quando começou a haver contas nacionais. Nenhum país consegue prosperar e crescer assim, é impossível.
Não podemos ser um país de serviços?Não podemos ser porque, embora tenhamos vocação para o turismo e o turismo possa subir mais, nenhum país com uma dimensão como o nossa pode sobreviver só de serviços. Para reverter isso é preciso um choque competitivo, é preciso investir na indústria ou na agricultura. Como é que se diz isso aos empresários? Desvalorização da moeda. Se eu desvalorizar a moeda, torno automaticamente muito mais rentáveis este sectores.
De quanto dinheiro é que Portugal precisaria para essa saída organizada da zona euro?Precisaria de dinheiro e precisaria de alguns compromissos europeus, por isso é que tem de ser negociada e organizada. O que acho que vai ser necessário, em qualquer caso, é um empréstimo, para obter o financiamento externo enquanto a desvalorização cambial não der resultado. A desvalorização cambial não dá resultados no dia seguinte, demora um ano e meio e, portanto, é preciso esse empréstimo. Há um segundo aspeto importante: garantir que o Banco Central Europeu (BCE) continuasse a renovar a dívida dos bancos portugueses durante algum tempo. A forma equilibrada de sair seria nós passarmos a pertencer àquilo que se chama o mecanismo de taxas de câmbio dois, que regula as relações entre os países do euro e os países da União Europeia que não estão no euro, o que significa que a moeda teria de ter uma paridade definida em relação ao euro. E, depois, o BCE e o Banco de Portugal seriam responsáveis por manter a moeda no dia a dia dentro de parâmetros.
Os países fortes da zona euro pagavam para ver Portugal fora?Penso que sim. Vão ter de pagar à mesma para nos mantermos na zona euro, com uma vantagem, é que a saída da zona euro, a prazo não muito longo, era menos um problema que teriam. Porque, não tenhamos ilusões, não temos capacidade para estar na zona euro com a estrutura produtiva que temos.
Nesta altura eles já preferiam estar a pagar para sairmos do que estar pagar para continuarmos?Penso que nesta altura não. A zona euro está muito instável e não proponho a saída de Portugal nesta situação. Primeiro é necessário que a zona euro estabilize para depois podermos pensar numa situação sustentável a prazo - e na nossa saída da zona euro. Neste momento, nem por sombras, acho que isso poderia desencadear um processo muito complicado dentro da zona euro.
Grande parte dos economistas defende que a competitividade do país só pode aumentar através da redução do custo no trabalho. Nunca defendeu essa hipótese. O que lhe pergunto é se há outra forma de aumentar a competitividade?Hoje, o problema salarial não é importante do ponto de vista da competitividade. A nossa perda de competitividade teve que ver com o facto de investir em sectores protegidos da concorrência externa, ser mais rentável do que estar a investir em sectores que têm concorrência externa, os chamados bens transacionáveis. A nossa competitividade não tem que ver com salários, tem que ver com o facto de a nossa estrutura produtiva estar desequilibrada. Se eu descer os salários, desço para todos os sectores, não só para aqueles que é preciso de-senvolver. A questão salarial é um mito que não vai resolver em nada a questão da competitividade.
Na Grécia, continuamos a assistir a uma situação muito, muito complicada: o desemprego não para de subir, não há crescimento. Em Portugal também não. Estas previsões do governo são credíveis: 16,4% de desemprego em 2013?Não, não me parece. Já no ano passado, por esta altura, disse e escrevi que não acreditava nos objetivos para este ano - e de facto não se verificaram. O desemprego será bastante superior porque a recessão económica vai ser bastante mais funda do que 1%. Não é só uma questão de se eliminarem postos de trabalho, há também que ter em conta a emigração, portanto, a taxa de desemprego dependerá muito do fluxo de emigração. Mas não ficaria espantado se fosse, por exemplo, aos 18%. A queda do produto interno bruto dificilmente será inferior à deste ano.
Nunca teremos uma recessão inferior a 3% no próximo ano?Se o Orçamento for adiante como está, sim, acho que não teremos menos do que 3% de recessão. O consumo vai descer mais do que o governo prevê. A austeridade é mais funda para o ano que vem do que este ano e as famílias estão muito endividadas. Portanto, medidas de redução de rendimento em geral, quando as famílias estão muito endividadas, amplificam muito os efeitos. Se além disso houver já algum corte de despesas a nível social, as famílias têm mesmo de o fazer - e, portanto, se o Estado obriga a que isso seja financiado pelas famílias, elas deixarão de consumir mais noutros aspetos. O consumo vai descer bastante e isso provocará uma recessão maior e desemprego maior.
Vamos ter eleições mais cedo do que o que estamos à espera?Não sei. Acredito que há uma grande possibilidade de haver uma crise política, se se verificar que os objetivos orçamentais não estão a ser cumpridos. Se isso dá origem a eleições ou não, não tenho uma bola de cristal.
E seria quando?Diria que lá para abril. Ou seja, tendo os dados de janeiro a março, penso que já se vai poder formar uma ideia de como a economia está a evoluir e como é que as finanças públicas estão a evoluir.
Nem o IRS - que tem um aumento enorme até fevereiro - pode dar alguma margem de conforto ao governo? Mesmo com o desconforto das famílias?Poderá dar alguma margem, mas repare: as famílias começaram já a reagir, já com os anúncios - e ainda não entrou em funcionamento o Orçamento. Os indicadores apontam que as famílias começaram a reduzir o consumo. A recessão será muito profunda, o desemprego vai aumentar e, portanto, as despesas do Estado vão crescer; os subsídios de desemprego e as receitas da Segurança Social vão diminuir. Portanto, isto acontece mesmo que o IRS mantenha os níveis que o governo pensa - mas também vai reduzir, porque aqueles que estão empregados e deixam de estar pagarão menos IRS.
Vou citá-lo: "Acho Vítor Gaspar um ótimo economista mas não concordo com ele." O governo já falhou quase todas as previsões para 2012. Como é que um ótimo economista se engana tanto?É um ótimo economista porque tenta acertar, tenta usar os instrumentos que existem para acertar e conhece bem esses instrumentos, tem experiência na sua utilização. Eu não concordo com ele precisamente porque acho que esses instrumentos não dão resultado. Esses modelos, que são utilizados também nas organizações internacionais, nomeadamente pelo Fundo Monetário Internacional, não têm em conta a realidade portuguesa em vários domínios, não têm em conta o alto endividamento das famílias, não têm em conta o facto de o emprego estar muito ligado à procura interna e, portanto, quedas da procura interna fazem aumentar muito o desemprego. Por isso, não admira que o governo e o FMI e a troika em geral tenham ficado surpreendidos com o aumento do desemprego e com a profundidade da recessão.
Acha que o ministro das Finanças ainda está demasiado refém da experiência que teve no BCE e da visão académica que tem?Todos nós somos reféns da nossa experiência passada, e a certa altura é difícil mudar. Eu reconheço... Enfim, com a idade que ele já tem e com o seu percurso, não penso que de repente, um dia, se ilumine como São Paulo e ache que a forma de pensar a economia é outra. Mas a certa altura as pessoas têm tendência a sedimentar os seus conceitos e as mudanças não são muito drásticas.
Este tipo de política económica não acaba por estar também a matar o próprio mercado que se considera que pode salvar a economia?Sim, põe muito bem a questão. Estas medidas são muito drásticas. E a responsabilidade também é do Fundo Monetário Internacional, que neste programa e nos anteriores sempre achou que era assim que se resolvia o problema. A questão é que as medidas drásticas podem fazer disfunções nos mercados, podem dar origem a comportamentos de economia paralela por exemplo, a não cumprimento de regras mínimas de concorrência e por aí fora. E, portanto, não só acaba por ser mau em termos macroeconómicos como muitas vezes acaba por ser mau também em termos microeconómicos, porque faz uma disfunção completa em alguns os mercados. O caso mais evidente é a fuga e a evasão fiscal e a fraude fiscal; quando se tenta forçar as coisas, aumenta-se o incentivo para fugir.
Tem defendido que a diferença entre Portugal e os países do norte da Europa está sobretudo na eficácia da cobrança fiscal. Mas a maior parte das pessoas, sobretudo quem vive só do trabalho, já tem uma carga fiscal enorme em cima.Se aumentar a eficácia fiscal, tenho margem para diminuir os impostos daqueles que pagam , e esse é um dos aspetos mais importantes da justiça: equidade fiscal. Repare, nós temos uma economia paralela que é avaliada em cerca de 25% do PIB. Mas se for a países do Norte terei 10%, 12%. Isto quer dizer que há uma boa parte do PIB que não é sujeita a impostos. E se for à Grécia, então será uma coisa incomensurável. Portanto, se eu conseguir meter dentro da legalidade esses sectores, posso baixar a carga fiscal individual, e isso, do meu ponto de vista, é que é civilizado. Além disso, para além destes aspetos de mais equidade social, há também os aspetos da concorrência. Porque empresas que fogem ao fisco, ao IVA, estão a concorrer deslealmente, além de tudo mais, com as empresas que cumprem. Por isso, penso que esse é um aspeto fundamental. Independentemente das ações punitivas, digamos, que são importantes e fiscalizadoras, é também importante criar um enquadramento em que não seja possível ou útil fugir aos impostos.
Há aqui uma fatia da sociedade que devia ser mais taxada e que não o está a ser nesta altura?Isso é difícil de dizer porque fala-se muito de rendimentos que não são taxados, mas é preciso ver que algumas vezes esses rendimentos, se forem taxados, podem dar origem a comportamentos negativos do ponto de vista da economia, como fuga de capitais. Portanto, as coisas têm de ser feitas com algum cuidado. Eu penso que, com este aumento da carga fiscal, reduziu-se, e esse aspeto é verdadeiro, reduziu-se bastante, digamos, a disparidade entre rendimentos por origens. Agora o grande problema do IRS são os escalões tal como estão feitos, a meu ver estão desequilibrados. É uma carga excessiva para as pessoas que têm realmente rendimentos médios ou baixos.
Nesta semana, a maioria aprovou o Orçamento e o governo convidou o PS a participar de forma ativa naquilo a que chamou refundação do acordo com a troika. São quatro mil milhões de cortes permanentes na despesa a efetuar em 2013 e 2014. Há alguma coisa que o Estado possa deixar de fazer? Ou cortar?O Estado faz hoje, em Portugal, o mesmo, e às vezes até menos, do que faz a generalidade dos Estados na União Europeia. Os Estados da UE têm as funções de soberania, a segurança, a justiça, os negócios estrangeiros, etc. Depois têm as funções sociais, educação e saúde. Não gastamos mais, nem por sombras, do que se gasta por essa Europa fora. Pode-se, evidentemente, melhorar a eficiência e reduzir as despesas para obter o mesmo resultado, mas não creio que isso sejam quatro mil milhões de euros. Creio, sim, que isso é um absurdo e é preciso ver como é que surgem esses quatro mil milhões de euros. Penso que aí o Partido Socialista tem razão: isto resulta em grande parte da estratégia seguida de provocar uma grande recessão. É evidente que quando se provoca uma grande recessão, obviamente, depois as coisas não chegam - cobra-se menos impostos, o défice mantém-se, é preciso cortar mais despesa, depois ainda vai agravar mais a recessão, e por aí fora. Ouvi que já estariam três mil e quinhentos milhões de euros destinados a ser cortados nas funções sociais, mas não nos esqueçamos de que a Segurança Social estava equilibrada. Só se desequilibrou este ano devido justamente à recessão. Esta estratégia não tem futuro nenhum. Se estamos agora a cortar quatro mil milhões, daqui a dois anos estamos a cortar seis mil milhões. Isto vai ser uma bola de neve que nunca mais acabará. Não faz sentido.
O FMI está a ajudar o governo a cortar esses quatro mil milhões. O PS deve aceitar o convite do governo para discutir o Estado?Não sou sequer militante do PS, portanto, o PS fará o que quiser. Agora, se o PS disser que não aceita, dou-lhe 100% razão. Por dois motivos. Em primeiro lugar, porque não faz sentido; colaborar nisto seria dizer que concorda com a estratégia que foi seguida e, a meu ver, isso é errado. Em segundo, se as coisas já estão decididas, o que é que o PS vai lá fazer? O PS fará o que entender, mas percebe-se se disser que não. É um convite envenenado, como é evidente. E aceitar como bom que é preciso cortar quatro mil milhões de euros não é nada líquido. É resultado desta estratégia recessiva.
Esteve, quer com Mário Soares quer com Jorge Sampaio, na Presidência da República e foi assessor deles, aconselhou-os. Acha que nesta altura em que o Estado vai ser refundado a Presidência da República é mais permissiva face a essas duas presidências, face a essa refundação do Estado? Está mais alinhada com a necessidade de reduzir o Estado ou não?Não será, a meu ver, uma diferença muito substancial justamente por aquilo que eu digo, não é muito nítido ver onde é que o Estado pode reduzir as suas funções, porque mesmo dar em concessão não reduz a despesa. Pode é haver melhor prestação do serviço. Eu sou a favor até de concessões em alguns serviços, desde que devidamente estabelecidas. Reconheço que para o Presidente Cavaco Silva, tanto quanto percebo nas suas declarações, isto seja complicado. Se estão recordados, de há uns anos a esta parte, ainda nem era presidente nem candidato a Presidente da República, era adepto de um choque fiscal, um choque fiscal no sentido de uma redução grande de impostos, para impulsionar a economia, e o que está a suceder é justamente o inverso. Portanto, penso que do ponto de vista dele não deve ser fácil, enfim, lidar com esta situação. Também não estou a ver o professor Cavaco Silva, pelo discurso que tem tido, dizer: "Agora o Estado deixa de prestar serviços de saúde ou deixa de prestar serviços de educação", não estou a ver. É uma situação muito complicada mas previsível, quando se provoca uma recessão da profundidade que esta tem. Quando se continua no mesmo caminho, é evidente que as coisas não chegam, a Segurança Social começa a entrar em incumprimento ou a aproximar-se disso, pelo menos, começa a entrar em défice. Depois houve ainda aquelas habilidades deste e dos anteriores governos com os fundos de pensões, que também acabam sempre por se pagar mais tarde. As sociedades modernas não estão feitas para viver em recessão, estão feitas para haver crescimento económico. Eu não digo que possamos ter um crescimento muito grande, mas pelo menos estou plenamente convencido, e digo-o sinceramente: se a carga fiscal não fosse aumentada na proporção que vai ser, teríamos mais chances de cumprir o défice de 4,5% do PIB. Só que assim, porque a recessão provavelmente não existiria, ou seria muito suave, esta vai ser de tal maneira que não vai ser possível cumprir os 4,5% do PIB. A quem é que isto serve? Eu não entendo. É um mistério que não compreendo, que já se deu na Grécia e que está a suceder agora em Portugal.
Este FMI está preparado para desenhar programas de ajuste em países que não têm uma moeda própria?Há uma grande diferença em relação aos programas de 1967, 1968 , 1983 e 1984, que é justamente não termos moeda própria. E esta receita não funciona. Não funciona sem moeda própria. Porque há dois objetivos que só são compatíveis com moeda própria e a desvalorização cambial. O objetivo de redução de défice externo e o objetivo de redução de défice público. O défice externo na economia no seu conjunto, e défice do Estado. Quando não há moeda própria, para se reduzir o défice externo é preciso reduzir muito a procura interna para reduzir as importações e equilibrar a balança de pagamentos. Mas ao fazer-se isso está a pôr-se em causa o objetivo de redução do défice do Estado - porque recebe menos receitas e tem de aumentar as despesas, porque há mais desempregados. As duas coisas não jogam. O FMI sempre se preocupou mais com o défice externo, a Comissão Europeia sempre se preocupou mais com o défice público, que é o que vem nos tratados, e o resultado disto é que as duas coisas acabam por não jogar. Nós reduzimos muito o défice externo este ano - até praticamente o equilibrámos - à custa de uma grande redução da procura interna. Agora, tentar atingir as duas coisas não se vai conseguir. E penso que é isso que o Fundo Monetário Internacional não terá entendido: o problema da dimensão deveria ser compreendido.
Costuma falar com alguma regularidade com António José Seguro. O que é que ele lhe pede?No fundo, o que me pede - o que, aliás, outros secretários-gerais do PS também pediram -, uma opinião sobre a situação económica, e eu dou-lhe aquela que sei e que posso dar. Não sou militante, mas penso que é importante um secretário-geral de um partido ouvir pessoas, mesmo que não sejam militantes. Faço os possíveis para dar a minha visão e não há qualquer diferença entre o que eu digo em privado ou em público.
A atividade política - para ser mais direto, um cargo governativo - é uma atividade que não lhe interessa?Não, não me interessa definitivamente. Já fui convidado em tempos e recusei, não tenho vocação para isso e acho que uma atividade governativa é tão exigente de ponto de vista pessoal que ou se vai muito empenhadamente para lá ou então é um desastre. E eu não tenho esse empenho - e agora com a idade ainda menos teria do que há uns anos, portanto, isso está completamente afastado. É uma coisa que nem sequer me punha. Nem é uma questão de discordância ou concordância política, ponho-me, à partida, pessoalmente fora.
O que sugere a António José Seguro enquanto plano para os próximos dois anos?Aquilo que tenho defendido publicamente: a redução do défice do sector público, justamente pelo facto de que deve ser acompanhada de uma redução do défice externo. Os dois objetivos são importantes, mas, justamente porque são conflituantes na ausência de moeda própria, entram em conflito; deve fazer-se de forma muito gradual. O problema disto foi tentar-se reduzir zero o défice externo e ao mesmo tempo fazer uma grande redução no défice do sector público - as coisa não jogam. Se se fizer gradualmente, obtém-se melhores resultados sem provocar recessão e creio que os credores ficarão muito mais bem defendidos nos seus créditos do que criando o tal clima recessivo de uma tal ordem que depois põe em causa o próprio cumprimento. A minha sugestão é que estes ajustamentos se façam de forma gradual e até podemos ficar surpreendidos. Se calhar até podemos reduzir muito mais o défice público do que à partida queríamos.
Voltando ao início desta entrevista, e ao início também da sua história... Esteve em 1977 com o FMI, esteve em 1983 com o FMI, tem olhado de fora para o trabalho do Fundo. Este FMI é menos esclarecido? São tecnocratas de quinta ou sétima linha, como disse Fernando Ulrich?Não sei o que é a responsabilidade do governo ou do FMI na forma como o memorando foi delineado. Agora que estes programas não fazem sentido nenhum, não fazem. Para mim, pior ainda é a Comissão Europeia, que se tornou numa espécie de capataz da Alemanha em conflito com os países mais débeis, quando não era nada disso que a Comissão Europeia fazia no passado.

2012-10-12

Akira Kurosawa sonha com Van Gogh

Chama-se Akira Kurosawa' Dreams (Sonhos de Akira Kurosawa)
Akira Kurosawa é um grande realizador de cinema, japonês,e que sonha com Van Gogh. O Video está neste endereço: https://www.youtube.com/watch?feature=player_detailpage&v=We8NpHPXzwI

2012-06-15

Goldman Sachs ou Goldman Sacks* ?

* Sack (to) = saquear, pilhar.
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O CEO do banco, Lloyd Blankfein, diz que ele  "faz o trabalho de Deus!" Lloyd Blankfein assumiu as funções de CEO do GS em 2006, substituindo Henry Paulson que W Bush nomeou Secretário de Estado do Tesouro (Ministro das Finanças dos EUA)

Origem do artigo: http://www.bolsanobolso.com/showthread.php?p=391056
Que reproduz segundo parece um artigo de Ana Rita Faria do Público (sem acesso online) de 31/05/2012 com o título:

O banco que faz o "trabalho de Deus

"Alimentou a máquina do subprime, ajudou a manipular as contas da Grécia, mas continua a dirigir o mundo. Num livro agora editado em Portugal, o jornalista belga Marc Roche desvenda os bastidores do gigante, numa altura em que a sua rede de influência na Europa parece estar mais forte do que nunca.

Está em todo o lado: na maré negra do golfo do México, na bolha da Internet, na falência do Lehman Brothers, na manipulação das contas gregas e na crise do euro. O português António Borges, os italianos Mario Draghi e Mario Monti e o norte-americano Henry Paulson são apenas alguns dos nomes da sua vasta rede de influências. Na "franco-maçonaria" que é o Goldman Sachs (GS) só entram os melhores. A agressividade e o puritanismo são as regras de ouro num mundo onde se trabalha em equipa e 24 horas por dia.

Ninguém envelhece no banco americano. Antes disso, saltam para os corredores do poder político e das organizações internacionais. Num mundo povoado de "ex-Goldmans", o grande banco gira habilmente a roleta do casino. Reina sobre a finança mundial. "Eu faço o trabalho de Deus", ironizou um dia Lloyd Blankfein, o presidente executivo do Goldman Sachs. Agora, em cerca de 200 páginas, o jornalista de economia belga Marc Roche explica como é que o banco americano se tornou omnipresente e, tantas vezes, omnipotente. O seu livro "O Banco: Como o Goldman Sachs Dirige o Mundo" acaba de ser lançado em Portugal. E tem logo um aperitivo nacional nas primeiras páginas: as ligações de António Borges ao banco americano.

Marc Roche escreve que o actual consultor do Governo para as privatizações, parcerias público-privadas e banca terá deixado o cargo de director europeu do FMI não por "razões pessoais", segundo reza a versão oficial, mas devido às suas ligações ao GS. António Borges foi durante oito anos (entre 2000 e 2008) um dos dirigentes do Goldman Sachs International, a filial europeia do banco americano. Para Marc Roche, o Goldman poderá ter interesse em ter um dos seus "ex-alunos" ligado às privatizações portuguesas e, consequentemente, retirar algum proveito daí enquanto assessor financeiro. "É óbvio que Portugal não é um grande mercado para o GS, mas fica no CV do banco e é, sobretudo, uma boa publicidade, depois de ter estado ligado à manipulação das contas gregas", explicou o autor em entrevista ao PÚBLICO.

Mas António Borges é apenas um dos nomes de uma extensa rede de influências. Na Europa, o banco não perde tempo com diplomatas, antigos primeiros-ministros ou ministros das Finanças. O alvo são ex-comissários europeus e antigos banqueiros centrais. E, olhando para a lista de intermediários, "o GS nunca esteve tão forte", considera Marc Roche. Apesar das crescentes imposições de regulação do sistema financeiro nos EUA e na Europa. Apesar de algumas limitações nos bónus dos banqueiros. Apesar de a má imagem que o banco deixou na opinião pública ter sido identificada como "um novo factor de risco" nos negócios no relatório anual do grupo.

Mario Draghi, um dos ex-vice-presidentes europeus do banco (e responsável pelo departamento que, pouco antes da sua chegada, tinha ajudado a Grécia a maquilhar as contas), é presidente do Banco Central Europeu (BCE). Mario Monti foi conselheiro do GS até se tornar primeiro-ministro de Itália, abrindo as portas da Europa ao banco. Entre os nomes associados ao GS está ainda Otmar Issing (antigo economista-chefe do BCE e ex-membro do banco central alemão) e Peter Sutherland (antigo comissário europeu da Concorrência que teve um papel importante no resgate à Irlanda).

Qual sociedade secreta, os ex-membros do GS têm por regra omitir que trabalharam no banco, mas mantêm-se em contacto depois de saírem. A cultura do trabalho em equipa é, aliás, uma das traves-mestras do sucesso do Goldman. Num banco que é simultaneamente consultor de empresas e governos, faz trading de matérias-primas e taxas de juro, opera no mercado cambial e dos derivados e gere fundos de investimento, a informação é o bem mais valioso. Circula de departamento em departamento. Potencia negócios. E também conflitos de interesses.

A isso junta-se um rigoroso processo de recrutamento (os candidatos têm de passar por 20 a 30 entrevistas de selecção) e uma rigorosa "dieta" de trabalho. "Não há outro banco onde se sacrifique assim a vida pessoal", conta o correspondente do jornal francês Le Monde em Londres há mais de 20 anos. As férias sem telemóvel e email são mal-vistas, as ligações extraconjugais afastam pretensões de ascensão. A própria alimentação é controlada. Fora das paredes do banco, reina o secretismo.

Mas não é só a cultura do GS que justifica o seu sucesso e poder. "Os governos são fracos e, por isso, ficam fascinados pelo Goldman", resume Marc Roche. A relação de poderes está desequilibrada, avisa o jornalista, mas não há aqui "um plano pré-concebido pelo Goldman para dominar o mundo" ou "uma teoria da conspiração". Não é o poder que motiva o banco e sim os lucros. O primeiro serve para chegar ao segundo. Foi isso que conduziu o GS à Grécia. Foi isso que o levou a negligenciar a maré negra do golfo do México. Foi isso que o levou a enganar os seus próprios clientes na crise do subprime. Três episódios reveladores do poder do banco.

A incendiária grega

Em 1999, quando se decide a criação do euro, a Grécia não pode aderir à moeda única. Infringe dois critérios do tratado de Maastricht: dívida pública inferior a 60% do produto interno bruto (PIB) e défice abaixo dos 3% do PIB. É então que o Governo grego pede ajuda ao Goldman Sachs. Antigone Loudiadis, de origem grega e uma das especialistas em produtos financeiros complexos no Goldman Sachs International em Londres, desencanta um esquema financeiro que colocará a Grécia dentro dos critérios europeus. E que, nove anos mais tarde, ajudará a desencadear uma crise ainda sem fim à vista em toda a zona euro.

O jogo do crude

Pior: depois de receber dinheiro da Grécia como consultor do Governo, o banco irá especular sobre a dívida do país e do euro e pôr mesmo em marcha a sua rede de influências para tentar contrariar uma operação de resgate a Atenas, que lhe estragaria o negócio.

Mas o rol de conflitos de interesse em que o Goldman se tem visto envolvido é bem mais extenso. O caso da petrolífera britânica BP é um deles. Uma semana depois do derrame de crude no golfo do México, em Abril de 2010, e perante a queda a pique da cotação da empresa, os analistas do GS continuam a recomendar a compra de acções da BP. Na origem do optimismo estão vários cordões umbilicais: um deles é Peter Sutherland (que presidia à BP e dirigia também a filial europeia do GS); o outro é Lorde Browne, na altura director-geral da BP e com assento no conselho de administração da petrolífera. Foi, aliás, a filosofia "goldmaniana" deste último que levou a empresa a apostar fortemente na actividade de mercados. O contraponto foi uma política de redução de custos que fragilizou as questões da segurança e lançou "as premissas da catástrofe futura" - o derrame no golfo do México.

Fintar a crise

O episódio mais revelador do poder do Goldman Sachs parece ser, contudo, a forma como escapou praticamente incólume à crise financeira de 2008-2009. À custa de dois gigantes: a AIG e o Lehman Brothers. Apesar de ser o banco consultor da seguradora, o GS apostou contra ela logo a partir de 2007. Em 2008, dá um último abalo à confiança dos mercados na AIG, pondo em dúvida a sua solvabilidade. Mas é apanhado na própria armadilha. Com os investidores receosos do impacto que uma falência da AIG teria no banco, Lloyd Blankfein recorre a um antigo "goldmaniano": o secretário do Tesouro Henry Paulson.

O resultado é conhecido: o Governo americano acaba por salvar a AIG e assegurar que esta pagará aos seus credores, entre os quais o GS. O mesmo não acontecerá com o Lehman Brothers. O presidente do Goldman faz parte do grupo de banqueiros que se reúnem para decidir o destino daquele banco. É de opinião que se deve deixar cair. Sem bancos interessados em ficar com o Lehman, Paulson decreta a falência do banco. Menos um concorrente para o Goldman Sachs. Mais terreno livre para estender o seu império."

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Apesar de ser de 16/10/11 ainda é actual este artigo do Diário Económico.
http://economico.sapo.pt/noticias/afinal-o-goldman-sachs-manda-no-mundo_129099.html

Afinal, o Goldman Sachs manda no mundo?
Rui Barroso
Coloca ex-funcionários nos lugares de topo que decidem o rumo da economia global, o que leva muitos a dizerem que domina o mundo.
"Sou um banqueiro a fazer o trabalho de Deus". É a forma como o presidente do maior banco de investimento do mundo vê a sua missão no comando do Goldman Sachs. Mas na opinião de um número cada vez maior de pessoas, o "trabalho de Deus" do Goldman Sachs é a encarnação do lado negro da força em Wall Street. E há até quem defenda que é este banco que manda no mundo e não os governos

"Não há dúvida que Wall Street tem uma força cada vez mais poderosa no governo americano. Não são apenas os milhões que vão para os bolsos de políticos atrás de políticos para ajudá-los a ganhar as eleições, mas os banqueiros de Wall Street são frequentemente escolhidos para posições de poder na Casa Branca, no Tesouro, na SEC [regulador dos mercados financeiros] e noutros reguladores", observa William D. Cohan, que passou 16 anos a trabalhar na banca de investimento antes de se dedicar ao jornalismo de investigação.
O banco reconhece no seu site que os antigos colaboradores contribuíram para a rica história e tradição da empresa e "orgulhamo-nos de muitos continuarem activamente ligados. Isto não ajuda apenas a validar a nossa cultura mas também a fornecer um valor real e tangível que transcende uma geração". E não é só nos EUA que ex-Goldmans dão o salto para altos cargos políticos e económicos. Um dos exemplos é o futuro presidente do Banco Central Europeu, Mario Draghi, que desempenhou o cargo de director-geral do Goldman International entre 2002 e 2005, levando-o mesmo a ser questionado no Parlamento Europeu sobre as ligações do banco de investimento à Grécia.

Duas crises de proporções épicas, duas epopeias de escândalos
O mundo enfrentou duas das maiores crises das últimas décadas em quatro anos. E, tanto na crise financeira de 2008 como na tragédia grega, o Goldman Sachs foi alvo de acusações de actuações menos correctas.
Começando por Atenas, o Goldman Sachs ajudou, a partir de 2002, a Grécia a encobrir os reais números do défice, através de ‘swaps' cambiais com taxas de câmbio fictícias, o que na prática permitiu a Atenas aumentar a sua dívida sem reportar esses valores a Bruxelas. Segundo o "Der Spiegel", o banco cobrou uma elevada comissão para fazer esta engenharia financeira e, em 2005, vendeu os ‘swaps' a um banco grego, protegendo-se assim de um eventual incumprimento por parte de Atenas. No início de 2010, os analistas do Goldman recomendaram aos seus clientes a apostar em ‘credit-default swaps' sobre dívida de bancos gregos, portugueses e espanhóis. Os CDS são instrumentos que permitem ganhar dinheiro com o agravamento das condições financeiras de determinado país. "É um escândalo se os mesmos bancos que nos trouxeram para a beira do abismo ajudaram a falsear as estatísticas", referiu a chanceler alemã Angela Merkel.
As autoridades europeias e a SEC abriram investigações ao logro das contas gregas, mas isso não impediu que Petros Christodoulou, um antigo empregado na divisão de derivados do Goldman, assumisse em Fevereiro de 2010 o cargo de director da entidade que gere a dívida pública grega. Além disso, o Goldman tem ajudado o Fundo Europeu de Estabilização Financeira a colocar dívida para financiar Portugal, Irlanda ao abrigo do programa de assistência financeira. O FEEF justifica a escolha com o alcance global do banco. Além do Goldman, também o BNP Paribas e o Royal Bank of Scotland costumam ser escolhidos para liderar estas operações.
O escândalo grego levou alguns deputados europeus a questionarem o futuro presidente do BCE sobre a sua independência para assumir o cargo. Queriam saber se teve conhecimento das operações feitas com a Grécia e se o cargo no Goldman não poderia afectar a percepção sobre a sua integridade para substituir Trichet. Draghi negou as ligações aos negócios com Atenas e defendeu o seu registo em alertar para os riscos que o sector financeiro estava a tomar.
Manifestações à porta do Goldman apesar de ameaça de prejuízos
Mas é nos EUA que há mais sinais de raiva contra o Goldman Sachs. Esta semana, o movimento dos "Ocupas" de Wall Street manifestou-se à frente do banco. A fúria contra o banco deve-se à actuação do Goldman durante a crise financeira. O banco chegou mesmo a ser condenado por fraude pela SEC por estar a apostar contra instrumentos ligados ao mercado imobiliário, ao mesmo tempo que vendia esses mesmos instrumentos aos seus clientes. Além disso, recorreu a fundos públicos e foi acusado de ser beneficiado com o resgate da AIG, coordenado pelo Tesouro dos EUA, liderado na altura por um antigo presidente do Goldman. "Os banqueiros e ‘traders' de Wall Street foram recompensados por tomarem riscos elevados com o dinheiro de outras pessoas. Como consequência, os bancos foram salvos e os banqueiros receberam os seus bónus de milhões de dólares. É difícil de acreditar que foram recompensados pelo seu falhanço, mas foi o que aconteceu", defende William D. Cohan.
Uma das respostas aos que acusam o Goldman de dominar o mundo financeiro é que, afinal, o banco também sofre com a crise. Os analistas de mercado esperam que o banco tenha registado o segundo prejuízo trimestral da sua história entre Julho e Setembro. Isto depois de ter lucrado mais de mil milhões de dólares no segundo trimestre. Em 2010 e 2009, conseguiu receitas de 39,2 mil milhões de dólares e de 45,2 mil milhões de dólares, respectivamente. Mais de 35% destes valores foram utilizados para pagar bónus aos seus empregados. O salário e bónus do presidente do banco, Lloyd Blankfein, situou-se em 13,2 milhões de dólares no ano passado.

O homem que denunciou o Goldman em directo
Alessio Rastani, um ‘trader' em ‘part-time', defendeu em directo na BBC que não eram os governos que mandavam no mundo, mas sim o Goldman Sachs. (Rui Barroso).
Alessio Rastani transformou-se num fenómeno. O ‘trader' em ‘part-time' surpreendeu tudo e todos numa entrevista à BBC. Além de vários cenários catastrofistas sobre a crise, Rastani defendeu que "este não é o momento para pensar que os governos irão resolver as coisas. Os governos não mandam no mundo, o Goldman Sachs manda no mundo". Bastaram pouco mais de três minutos para tornar Rastani num fenómeno na Internet. O vídeo tornou-se viral e levantou a controvérsia sobre o poder que o banco liderado por Lloyd Blankfein tem na economia e na política. Isto apesar de haver quem defendesse que Rastani estaria apenas a pregar uma partida à BBC e que pertencesse a um grupo satírico chamado Yes Men. O próprio ‘trader' refutou esta tese, apesar de reconhecer que gosta mais de falar do que de fazer negociação em bolsa, algo que vê apenas como um ‘hobbie'.
Esta semana, numa entrevista ao "Huffington Post", Rastani teceu uma série de ideias sobre o papel do Goldman no mundo. E diz que as teorias da conspiração que aparecem sobre o banco não são uma coincidência.
"Os governos dependem dos bancos, os bancos dependem dos governos. A relação é tão cinzenta e quem controla quem? Quem é o marionetista e quem é a marioneta? As pessoas podem ter as suas ideias sobre isto. Eu apenas expressei a minha perspectiva", disse.
Rastani não é o primeiro a atacar o papel do Goldman no mundo. Em Abril de 2010, um jornalista da "Rolling Stone" escreveu um artigo que se tornou famoso, tanto para os contestatários ao banco como para os que defendem o Goldman e utilizam a caracterização feita pelo repórter para ironizar com os detractores do banco. Matt Taibbi descreveu o Goldman como um "grande vampiro" que se alimenta da humanidade, com um apetite sanguinário implacável por tudo o que envolva dinheiro.

Do Goldman para o poder
O Goldman Sachs é uma escola que permite a muitos economistas e gestores atingir cargos de poder um pouco por todo o mundo.
Hank Paulson, antigo secretário de Estado do Tesouro dos EUA
Saiu da liderança do Goldman Sachs para ser secretário de Estado do Tesouro durante a administração Bush. Paulson delineou o programa de ajuda à banca durante a crise financeira de 2008, que também resgatou o Goldman.
Mario Draghi, futuro presidente do BCE
O futuro presidente do BCE, Mario Draghi, foi director-geral da Goldman Sachs International entre 2002 e 2005. A ligação levou-o a enfrentar perguntas dos eurodeputados sobre se esteve envolvido na ocultação do défice grego.
Mark Carney, governador do Banco Central do Canadá
O actual governador do banco central do Canadá passou 30 anos no Goldman.Foi responsável pelas áreas relacionadas com risco soberana e foi o homem com a tarefa de delinear a estratégia do banco durante a crise russa de 1998.
Romano Prodi, antigo presidente da comissão europeia
O antigo presidente da Comissão e ex-primeiro-ministro italiano esteve no Goldman nos anos 90. A ligação valeu-lhe críticas da Oposição quando rebentou um escândalo a envolver o Goldman e uma empresa italiana.
Robert Zoellick, presidente do Banco Mundial
O actual presidente do Banco Mundial foi director-geral do Goldman.Antes de se juntar ao banco tinha trabalhado no Departamento do Tesouro norte-americano. Lidera o Banco Mundial desde Julho de 2007.
Robert Rubin, antigo Secretário de Estado do Tesouro dos EUA
Robert Rubin teve cargos de topo na administração do Goldman. Após 26 anos no banco foi escolhido por Bill Clinton como secretário de Estado do Tesouro. Após passar pelo Governo, trabalhou no Citigroup.
Ducan Niederauer, presidente da NYSE Euronext
O presidente da NYSE Euronext, Duncan Niederauer, que detém as bolsas de Nova Iorque e de Paris, Bruxelas, Amesterdão e Lisboa, foi responsável do Goldman pela área da execução de ordens dadas sobre títulos financeiros.
Mark Patterson, Chefe de Staff do Tesouro dos EUA
Mark Patterson é o chefe de gabinete do actual secretário do Tesouro dos EUA, Timothy Geithner. Antes de se juntar ao governo estava registado como lóbista, intercedendo para defender os interesses do Goldman.
António Borges, director do Departamento Europeu do FMI
O economista foi vice-presidente e director-geral do Goldman entre 2000 e 2008. Após sair do banco foi da associação que delineia a regulação dos ‘hedge funds'. Em Outubro de 2010, foi nomeado director do FMI para a Europa.
Carlos Moedas, Secretário de Estado adjunto do Primeiro Ministro
Após acabar o MBA em Harvard, no ano 2000, o actual responsável pelo acompanhamento do programa da ‘troika' foi trabalhar para a divisão europeia de fusões e aquisições do Goldman Sachs. Saiu do banco em 2004.
António Horta Osório, presidente do Lloyds Bank
O primeiro emprego de Horta Osório após terminar o MBA no Insead foi no Goldman, centrando-se na área de ‘corporate finance'. Actualmente é presidente do banco britânico Lloyds depois de ter estado no Santander.