2012-06-15

Goldman Sachs ou Goldman Sacks* ?

* Sack (to) = saquear, pilhar.
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O CEO do banco, Lloyd Blankfein, diz que ele  "faz o trabalho de Deus!" Lloyd Blankfein assumiu as funções de CEO do GS em 2006, substituindo Henry Paulson que W Bush nomeou Secretário de Estado do Tesouro (Ministro das Finanças dos EUA)

Origem do artigo: http://www.bolsanobolso.com/showthread.php?p=391056
Que reproduz segundo parece um artigo de Ana Rita Faria do Público (sem acesso online) de 31/05/2012 com o título:

O banco que faz o "trabalho de Deus

"Alimentou a máquina do subprime, ajudou a manipular as contas da Grécia, mas continua a dirigir o mundo. Num livro agora editado em Portugal, o jornalista belga Marc Roche desvenda os bastidores do gigante, numa altura em que a sua rede de influência na Europa parece estar mais forte do que nunca.

Está em todo o lado: na maré negra do golfo do México, na bolha da Internet, na falência do Lehman Brothers, na manipulação das contas gregas e na crise do euro. O português António Borges, os italianos Mario Draghi e Mario Monti e o norte-americano Henry Paulson são apenas alguns dos nomes da sua vasta rede de influências. Na "franco-maçonaria" que é o Goldman Sachs (GS) só entram os melhores. A agressividade e o puritanismo são as regras de ouro num mundo onde se trabalha em equipa e 24 horas por dia.

Ninguém envelhece no banco americano. Antes disso, saltam para os corredores do poder político e das organizações internacionais. Num mundo povoado de "ex-Goldmans", o grande banco gira habilmente a roleta do casino. Reina sobre a finança mundial. "Eu faço o trabalho de Deus", ironizou um dia Lloyd Blankfein, o presidente executivo do Goldman Sachs. Agora, em cerca de 200 páginas, o jornalista de economia belga Marc Roche explica como é que o banco americano se tornou omnipresente e, tantas vezes, omnipotente. O seu livro "O Banco: Como o Goldman Sachs Dirige o Mundo" acaba de ser lançado em Portugal. E tem logo um aperitivo nacional nas primeiras páginas: as ligações de António Borges ao banco americano.

Marc Roche escreve que o actual consultor do Governo para as privatizações, parcerias público-privadas e banca terá deixado o cargo de director europeu do FMI não por "razões pessoais", segundo reza a versão oficial, mas devido às suas ligações ao GS. António Borges foi durante oito anos (entre 2000 e 2008) um dos dirigentes do Goldman Sachs International, a filial europeia do banco americano. Para Marc Roche, o Goldman poderá ter interesse em ter um dos seus "ex-alunos" ligado às privatizações portuguesas e, consequentemente, retirar algum proveito daí enquanto assessor financeiro. "É óbvio que Portugal não é um grande mercado para o GS, mas fica no CV do banco e é, sobretudo, uma boa publicidade, depois de ter estado ligado à manipulação das contas gregas", explicou o autor em entrevista ao PÚBLICO.

Mas António Borges é apenas um dos nomes de uma extensa rede de influências. Na Europa, o banco não perde tempo com diplomatas, antigos primeiros-ministros ou ministros das Finanças. O alvo são ex-comissários europeus e antigos banqueiros centrais. E, olhando para a lista de intermediários, "o GS nunca esteve tão forte", considera Marc Roche. Apesar das crescentes imposições de regulação do sistema financeiro nos EUA e na Europa. Apesar de algumas limitações nos bónus dos banqueiros. Apesar de a má imagem que o banco deixou na opinião pública ter sido identificada como "um novo factor de risco" nos negócios no relatório anual do grupo.

Mario Draghi, um dos ex-vice-presidentes europeus do banco (e responsável pelo departamento que, pouco antes da sua chegada, tinha ajudado a Grécia a maquilhar as contas), é presidente do Banco Central Europeu (BCE). Mario Monti foi conselheiro do GS até se tornar primeiro-ministro de Itália, abrindo as portas da Europa ao banco. Entre os nomes associados ao GS está ainda Otmar Issing (antigo economista-chefe do BCE e ex-membro do banco central alemão) e Peter Sutherland (antigo comissário europeu da Concorrência que teve um papel importante no resgate à Irlanda).

Qual sociedade secreta, os ex-membros do GS têm por regra omitir que trabalharam no banco, mas mantêm-se em contacto depois de saírem. A cultura do trabalho em equipa é, aliás, uma das traves-mestras do sucesso do Goldman. Num banco que é simultaneamente consultor de empresas e governos, faz trading de matérias-primas e taxas de juro, opera no mercado cambial e dos derivados e gere fundos de investimento, a informação é o bem mais valioso. Circula de departamento em departamento. Potencia negócios. E também conflitos de interesses.

A isso junta-se um rigoroso processo de recrutamento (os candidatos têm de passar por 20 a 30 entrevistas de selecção) e uma rigorosa "dieta" de trabalho. "Não há outro banco onde se sacrifique assim a vida pessoal", conta o correspondente do jornal francês Le Monde em Londres há mais de 20 anos. As férias sem telemóvel e email são mal-vistas, as ligações extraconjugais afastam pretensões de ascensão. A própria alimentação é controlada. Fora das paredes do banco, reina o secretismo.

Mas não é só a cultura do GS que justifica o seu sucesso e poder. "Os governos são fracos e, por isso, ficam fascinados pelo Goldman", resume Marc Roche. A relação de poderes está desequilibrada, avisa o jornalista, mas não há aqui "um plano pré-concebido pelo Goldman para dominar o mundo" ou "uma teoria da conspiração". Não é o poder que motiva o banco e sim os lucros. O primeiro serve para chegar ao segundo. Foi isso que conduziu o GS à Grécia. Foi isso que o levou a negligenciar a maré negra do golfo do México. Foi isso que o levou a enganar os seus próprios clientes na crise do subprime. Três episódios reveladores do poder do banco.

A incendiária grega

Em 1999, quando se decide a criação do euro, a Grécia não pode aderir à moeda única. Infringe dois critérios do tratado de Maastricht: dívida pública inferior a 60% do produto interno bruto (PIB) e défice abaixo dos 3% do PIB. É então que o Governo grego pede ajuda ao Goldman Sachs. Antigone Loudiadis, de origem grega e uma das especialistas em produtos financeiros complexos no Goldman Sachs International em Londres, desencanta um esquema financeiro que colocará a Grécia dentro dos critérios europeus. E que, nove anos mais tarde, ajudará a desencadear uma crise ainda sem fim à vista em toda a zona euro.

O jogo do crude

Pior: depois de receber dinheiro da Grécia como consultor do Governo, o banco irá especular sobre a dívida do país e do euro e pôr mesmo em marcha a sua rede de influências para tentar contrariar uma operação de resgate a Atenas, que lhe estragaria o negócio.

Mas o rol de conflitos de interesse em que o Goldman se tem visto envolvido é bem mais extenso. O caso da petrolífera britânica BP é um deles. Uma semana depois do derrame de crude no golfo do México, em Abril de 2010, e perante a queda a pique da cotação da empresa, os analistas do GS continuam a recomendar a compra de acções da BP. Na origem do optimismo estão vários cordões umbilicais: um deles é Peter Sutherland (que presidia à BP e dirigia também a filial europeia do GS); o outro é Lorde Browne, na altura director-geral da BP e com assento no conselho de administração da petrolífera. Foi, aliás, a filosofia "goldmaniana" deste último que levou a empresa a apostar fortemente na actividade de mercados. O contraponto foi uma política de redução de custos que fragilizou as questões da segurança e lançou "as premissas da catástrofe futura" - o derrame no golfo do México.

Fintar a crise

O episódio mais revelador do poder do Goldman Sachs parece ser, contudo, a forma como escapou praticamente incólume à crise financeira de 2008-2009. À custa de dois gigantes: a AIG e o Lehman Brothers. Apesar de ser o banco consultor da seguradora, o GS apostou contra ela logo a partir de 2007. Em 2008, dá um último abalo à confiança dos mercados na AIG, pondo em dúvida a sua solvabilidade. Mas é apanhado na própria armadilha. Com os investidores receosos do impacto que uma falência da AIG teria no banco, Lloyd Blankfein recorre a um antigo "goldmaniano": o secretário do Tesouro Henry Paulson.

O resultado é conhecido: o Governo americano acaba por salvar a AIG e assegurar que esta pagará aos seus credores, entre os quais o GS. O mesmo não acontecerá com o Lehman Brothers. O presidente do Goldman faz parte do grupo de banqueiros que se reúnem para decidir o destino daquele banco. É de opinião que se deve deixar cair. Sem bancos interessados em ficar com o Lehman, Paulson decreta a falência do banco. Menos um concorrente para o Goldman Sachs. Mais terreno livre para estender o seu império."

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Apesar de ser de 16/10/11 ainda é actual este artigo do Diário Económico.
http://economico.sapo.pt/noticias/afinal-o-goldman-sachs-manda-no-mundo_129099.html

Afinal, o Goldman Sachs manda no mundo?
Rui Barroso
Coloca ex-funcionários nos lugares de topo que decidem o rumo da economia global, o que leva muitos a dizerem que domina o mundo.
"Sou um banqueiro a fazer o trabalho de Deus". É a forma como o presidente do maior banco de investimento do mundo vê a sua missão no comando do Goldman Sachs. Mas na opinião de um número cada vez maior de pessoas, o "trabalho de Deus" do Goldman Sachs é a encarnação do lado negro da força em Wall Street. E há até quem defenda que é este banco que manda no mundo e não os governos

"Não há dúvida que Wall Street tem uma força cada vez mais poderosa no governo americano. Não são apenas os milhões que vão para os bolsos de políticos atrás de políticos para ajudá-los a ganhar as eleições, mas os banqueiros de Wall Street são frequentemente escolhidos para posições de poder na Casa Branca, no Tesouro, na SEC [regulador dos mercados financeiros] e noutros reguladores", observa William D. Cohan, que passou 16 anos a trabalhar na banca de investimento antes de se dedicar ao jornalismo de investigação.
O banco reconhece no seu site que os antigos colaboradores contribuíram para a rica história e tradição da empresa e "orgulhamo-nos de muitos continuarem activamente ligados. Isto não ajuda apenas a validar a nossa cultura mas também a fornecer um valor real e tangível que transcende uma geração". E não é só nos EUA que ex-Goldmans dão o salto para altos cargos políticos e económicos. Um dos exemplos é o futuro presidente do Banco Central Europeu, Mario Draghi, que desempenhou o cargo de director-geral do Goldman International entre 2002 e 2005, levando-o mesmo a ser questionado no Parlamento Europeu sobre as ligações do banco de investimento à Grécia.

Duas crises de proporções épicas, duas epopeias de escândalos
O mundo enfrentou duas das maiores crises das últimas décadas em quatro anos. E, tanto na crise financeira de 2008 como na tragédia grega, o Goldman Sachs foi alvo de acusações de actuações menos correctas.
Começando por Atenas, o Goldman Sachs ajudou, a partir de 2002, a Grécia a encobrir os reais números do défice, através de ‘swaps' cambiais com taxas de câmbio fictícias, o que na prática permitiu a Atenas aumentar a sua dívida sem reportar esses valores a Bruxelas. Segundo o "Der Spiegel", o banco cobrou uma elevada comissão para fazer esta engenharia financeira e, em 2005, vendeu os ‘swaps' a um banco grego, protegendo-se assim de um eventual incumprimento por parte de Atenas. No início de 2010, os analistas do Goldman recomendaram aos seus clientes a apostar em ‘credit-default swaps' sobre dívida de bancos gregos, portugueses e espanhóis. Os CDS são instrumentos que permitem ganhar dinheiro com o agravamento das condições financeiras de determinado país. "É um escândalo se os mesmos bancos que nos trouxeram para a beira do abismo ajudaram a falsear as estatísticas", referiu a chanceler alemã Angela Merkel.
As autoridades europeias e a SEC abriram investigações ao logro das contas gregas, mas isso não impediu que Petros Christodoulou, um antigo empregado na divisão de derivados do Goldman, assumisse em Fevereiro de 2010 o cargo de director da entidade que gere a dívida pública grega. Além disso, o Goldman tem ajudado o Fundo Europeu de Estabilização Financeira a colocar dívida para financiar Portugal, Irlanda ao abrigo do programa de assistência financeira. O FEEF justifica a escolha com o alcance global do banco. Além do Goldman, também o BNP Paribas e o Royal Bank of Scotland costumam ser escolhidos para liderar estas operações.
O escândalo grego levou alguns deputados europeus a questionarem o futuro presidente do BCE sobre a sua independência para assumir o cargo. Queriam saber se teve conhecimento das operações feitas com a Grécia e se o cargo no Goldman não poderia afectar a percepção sobre a sua integridade para substituir Trichet. Draghi negou as ligações aos negócios com Atenas e defendeu o seu registo em alertar para os riscos que o sector financeiro estava a tomar.
Manifestações à porta do Goldman apesar de ameaça de prejuízos
Mas é nos EUA que há mais sinais de raiva contra o Goldman Sachs. Esta semana, o movimento dos "Ocupas" de Wall Street manifestou-se à frente do banco. A fúria contra o banco deve-se à actuação do Goldman durante a crise financeira. O banco chegou mesmo a ser condenado por fraude pela SEC por estar a apostar contra instrumentos ligados ao mercado imobiliário, ao mesmo tempo que vendia esses mesmos instrumentos aos seus clientes. Além disso, recorreu a fundos públicos e foi acusado de ser beneficiado com o resgate da AIG, coordenado pelo Tesouro dos EUA, liderado na altura por um antigo presidente do Goldman. "Os banqueiros e ‘traders' de Wall Street foram recompensados por tomarem riscos elevados com o dinheiro de outras pessoas. Como consequência, os bancos foram salvos e os banqueiros receberam os seus bónus de milhões de dólares. É difícil de acreditar que foram recompensados pelo seu falhanço, mas foi o que aconteceu", defende William D. Cohan.
Uma das respostas aos que acusam o Goldman de dominar o mundo financeiro é que, afinal, o banco também sofre com a crise. Os analistas de mercado esperam que o banco tenha registado o segundo prejuízo trimestral da sua história entre Julho e Setembro. Isto depois de ter lucrado mais de mil milhões de dólares no segundo trimestre. Em 2010 e 2009, conseguiu receitas de 39,2 mil milhões de dólares e de 45,2 mil milhões de dólares, respectivamente. Mais de 35% destes valores foram utilizados para pagar bónus aos seus empregados. O salário e bónus do presidente do banco, Lloyd Blankfein, situou-se em 13,2 milhões de dólares no ano passado.

O homem que denunciou o Goldman em directo
Alessio Rastani, um ‘trader' em ‘part-time', defendeu em directo na BBC que não eram os governos que mandavam no mundo, mas sim o Goldman Sachs. (Rui Barroso).
Alessio Rastani transformou-se num fenómeno. O ‘trader' em ‘part-time' surpreendeu tudo e todos numa entrevista à BBC. Além de vários cenários catastrofistas sobre a crise, Rastani defendeu que "este não é o momento para pensar que os governos irão resolver as coisas. Os governos não mandam no mundo, o Goldman Sachs manda no mundo". Bastaram pouco mais de três minutos para tornar Rastani num fenómeno na Internet. O vídeo tornou-se viral e levantou a controvérsia sobre o poder que o banco liderado por Lloyd Blankfein tem na economia e na política. Isto apesar de haver quem defendesse que Rastani estaria apenas a pregar uma partida à BBC e que pertencesse a um grupo satírico chamado Yes Men. O próprio ‘trader' refutou esta tese, apesar de reconhecer que gosta mais de falar do que de fazer negociação em bolsa, algo que vê apenas como um ‘hobbie'.
Esta semana, numa entrevista ao "Huffington Post", Rastani teceu uma série de ideias sobre o papel do Goldman no mundo. E diz que as teorias da conspiração que aparecem sobre o banco não são uma coincidência.
"Os governos dependem dos bancos, os bancos dependem dos governos. A relação é tão cinzenta e quem controla quem? Quem é o marionetista e quem é a marioneta? As pessoas podem ter as suas ideias sobre isto. Eu apenas expressei a minha perspectiva", disse.
Rastani não é o primeiro a atacar o papel do Goldman no mundo. Em Abril de 2010, um jornalista da "Rolling Stone" escreveu um artigo que se tornou famoso, tanto para os contestatários ao banco como para os que defendem o Goldman e utilizam a caracterização feita pelo repórter para ironizar com os detractores do banco. Matt Taibbi descreveu o Goldman como um "grande vampiro" que se alimenta da humanidade, com um apetite sanguinário implacável por tudo o que envolva dinheiro.

Do Goldman para o poder
O Goldman Sachs é uma escola que permite a muitos economistas e gestores atingir cargos de poder um pouco por todo o mundo.
Hank Paulson, antigo secretário de Estado do Tesouro dos EUA
Saiu da liderança do Goldman Sachs para ser secretário de Estado do Tesouro durante a administração Bush. Paulson delineou o programa de ajuda à banca durante a crise financeira de 2008, que também resgatou o Goldman.
Mario Draghi, futuro presidente do BCE
O futuro presidente do BCE, Mario Draghi, foi director-geral da Goldman Sachs International entre 2002 e 2005. A ligação levou-o a enfrentar perguntas dos eurodeputados sobre se esteve envolvido na ocultação do défice grego.
Mark Carney, governador do Banco Central do Canadá
O actual governador do banco central do Canadá passou 30 anos no Goldman.Foi responsável pelas áreas relacionadas com risco soberana e foi o homem com a tarefa de delinear a estratégia do banco durante a crise russa de 1998.
Romano Prodi, antigo presidente da comissão europeia
O antigo presidente da Comissão e ex-primeiro-ministro italiano esteve no Goldman nos anos 90. A ligação valeu-lhe críticas da Oposição quando rebentou um escândalo a envolver o Goldman e uma empresa italiana.
Robert Zoellick, presidente do Banco Mundial
O actual presidente do Banco Mundial foi director-geral do Goldman.Antes de se juntar ao banco tinha trabalhado no Departamento do Tesouro norte-americano. Lidera o Banco Mundial desde Julho de 2007.
Robert Rubin, antigo Secretário de Estado do Tesouro dos EUA
Robert Rubin teve cargos de topo na administração do Goldman. Após 26 anos no banco foi escolhido por Bill Clinton como secretário de Estado do Tesouro. Após passar pelo Governo, trabalhou no Citigroup.
Ducan Niederauer, presidente da NYSE Euronext
O presidente da NYSE Euronext, Duncan Niederauer, que detém as bolsas de Nova Iorque e de Paris, Bruxelas, Amesterdão e Lisboa, foi responsável do Goldman pela área da execução de ordens dadas sobre títulos financeiros.
Mark Patterson, Chefe de Staff do Tesouro dos EUA
Mark Patterson é o chefe de gabinete do actual secretário do Tesouro dos EUA, Timothy Geithner. Antes de se juntar ao governo estava registado como lóbista, intercedendo para defender os interesses do Goldman.
António Borges, director do Departamento Europeu do FMI
O economista foi vice-presidente e director-geral do Goldman entre 2000 e 2008. Após sair do banco foi da associação que delineia a regulação dos ‘hedge funds'. Em Outubro de 2010, foi nomeado director do FMI para a Europa.
Carlos Moedas, Secretário de Estado adjunto do Primeiro Ministro
Após acabar o MBA em Harvard, no ano 2000, o actual responsável pelo acompanhamento do programa da ‘troika' foi trabalhar para a divisão europeia de fusões e aquisições do Goldman Sachs. Saiu do banco em 2004.
António Horta Osório, presidente do Lloyds Bank
O primeiro emprego de Horta Osório após terminar o MBA no Insead foi no Goldman, centrando-se na área de ‘corporate finance'. Actualmente é presidente do banco britânico Lloyds depois de ter estado no Santander.

2012-05-19

Miguel Relvas ameaça e censura o jornal Público

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O Ministro Miguel Relvas que tutela a comunicação social ameaçou o jornal Público de boicote por parte do Governo e ameaçou a jornalista Maria José Oliveira de que divulgaria, na Internet, dados da vida privada,  para impedir a publicação por esta jornalista naquele jornal de uma notícia sobre incongruências das declarações do governante ao Parlamento.

É o que afirma o comunicado do Conselho de Redação do Público que repudia as pressões do ministro e o comportamento da direção do Público que se vergou às intoleráveis pressões do ministro.

(Fonte: http://www.agenciafinanceira.iol.pt/economia/relvas-ameaca-publico-secretas-noticia-ministro/1349417-4058.html )

COMUNICADO DO CONSELHO DE REDACÇÃO [do Público]

A jornalista Maria José Oliveira pediu ao Conselho de Redacção que analisasse umasérie de episódios ocorridos na passada quarta-feira, na qual o ministro Adjunto e dosAssuntos Parlamentares, Miguel Relvas, queixou-se ao jornal de estar a ser perseguido,ameaçando a jornalista e o PÚBLICO se fosse publicada uma determinada notícia, relacionada com o caso das “secretas”.

A notícia não foi publicada. O CR ouviu a jornalista, a editora de Política e os directores Bárbara Reis e MiguelGaspar e, destas auscultações, entende considerar o assunto em duas vertentes: asameaças de Miguel Relvas e a não publicação da notícia.

As ameaças

As ameaças foram confirmadas pela editora de Política, que recebera um telefonemade Relvas depois de Maria José Oliveira ter enviado ao ministro questões para umanotícia de follow-up às incongruências das declarações do governante ao Parlamento,um dia antes. Relvas terá dito que, se o jornal publicasse a notícia, enviaria uma queixa à ERC, promoveria um “black out” de todos os ministros em relação ao PÚBLICO e divulgaria, na Internet, dados da vida privada da jornalista. Estas ameaças foramreiteradas num segundo contacto telefónico .

A editora de Política afirma que, ao longo dos anos, sempre recebeu ameaças de governantes e sempre as tratou da mesma maneira, ignorando-as. De qualquer forma, a jornalista foi informada pela editora do teor da conversa com o ministro e ambas, apedido da jornalista, levaram o caso à directora Bárbara Reis, que não atribuiu relevo às ameaças, por também lidar com situações do género com muita frequência. Posteriormente, Miguel Relvas falou com Bárbara Reis, a contestar o conteúdo da notícia saída no papel naquele dia, sobre a qual a jornalista pretendia fazer um follow-up .

A directora não interpelou o ministro sobre as ameaças feitas no telefonema àeditora. Até ontem, quinta-feira, a direcção editorial não tinha tomado posição, nemfeito qualquer diligência sobre as ameaças em si. Segundo a directora, é um assunto que tem de ser tratado com calma, e não “a quente”.
O director Miguel Gaspar considera que o caso é grave e vai ser tratado pela direcção.
O Conselho de Redacção é da opinião que ameaças como aquelas, vindas de um dos ministros mais importantes do Governo e que, além disso, tem o pelouro da Comunicação Social, não deviam ter sido tratadas como se fosse um episódio normal,igual a tantos outros. Pelo contrário, o CR considera que as ameaças, cujo único fim era condicionar a publicação de trabalhos incómodos para o ministro, são intoleráveis e revelam um desrespeito inadmissível do governante em relação à actividade jornalística, ao jornal PÚBLICO e à jornalista Maria José Oliveira. Mostram, ainda, uma grosseira distorção do comportamento de um governante que, ao invés de zelar pela liberdade de imprensa, vale-se de ameaças – um acto essencialmente cobarde – para tentar travar um órgão de comunicação social que cumpre o seu inalienável papel decontra-poder.

O PÚBLICO teve três oportunidades para lidar com as ameaças: no primeiro telefonema à editora de Política, numa segunda conversa telefónica com a directora e nas próprias páginas do jornal do dia seguinte, através de uma notícia, um editorial,uma nota da direcção, ou qualquer outra forma pela qual o PÚBLICO manifestasse o repúdio pelos actos do ministro, que é de manifesto interesse público divulgar. Os portugueses têm o direito de saber quem é e como age o seu ministro Adjunto e dos Assuntos Parlamentares, e o PÚBLICO tem a obrigação de revelar este triste episódio, no âmbito da cobertura que tem feito do caso das “secretas”. Nada, no entanto, foi feito nem no dia em que as ameaças foram proferidas, nem nodia seguinte.
Editores e directores têm toda a legitimidade para tratar dos assuntos sob a sua tutela de acordo com o seu modo e juízo pessoal. Mas, neste caso, o jornal falhou ao não repudiar imediata e publicamente a inaceitável atitude de pressão daquele que é considerado o “número 2” do Governo da República.
O PÚBLICO não pode nunca aceitar, calado, tal tipo de pressões e é lamentável que o tenha feito. Os elementos do CR irão estudar o caso com o advogado do jornal e com o Sindicatodos Jornalistas para definir acções futuras junto das entidades competentes.
A não publicação do artigo O artigo que não chegou a ser publicado era um follow-up da notícia que apontavaincongruências no depoimento de Relvas no Parlamento, publicada no papel naquelaquarta-feira. Maria José Oliveira enviou ao ministro perguntas que não tinham sido feitas ou respondidas no Parlamento. O resultado foi uma notícia cujo “lead” era o de que o ministro se recusava a esclarecer ao PÚBLICO sobre as incongruências,acrescentando mais alguns detalhes sobre as mesas.

A editora de Política, antes de receber o telefonema do ministro, disse que não valeriaa pena publicar a notícia no papel, pois não trazia nada de substancialmente novo em relação ao que já tinha sido escrito. A editora reiterou várias vezes ao CR que decidira não publicar no papel antes do telefonema de Miguel Relvas, com as ameaças. Não se opôs, de qualquer forma, que fosse publicada no online, porque o texto que constava na edição escrita do jornal (e onde eram já mencionadas as incongruências nas respostas do ministro) não estava disponível na edição electrónica.

Segundo a directora Bárbara Reis, a relevância do artigo levantou dúvidas desde omeio da tarde junto dos editores do online. A jornalista foi questionada várias veze sobre a redacção da notícia ao longo da tarde e o próprio texto que saíra no jornal naquele dia foi alvo de reconfirmação, na sequência de um telefonema de Miguel Relvas à directora a dizer que a notícia era falsa.
A direcção confirmou que a notícia já publicada no papel estava correcta. Só já à noite é que o director Miguel Gaspar, a quem o assunto foi passado horas depois de ter sido discutido por editores e pela directora, decidiu não publicar anotícia. Miguel Gaspar disse ao CR que a decisão baseou-se única e exclusivamente na sua interpretação de que dizer apenas que o ministro não respondera ao PÚBLICO não era uma notícia – em consonância com opiniões já expressas pela directora e pela editora-substituta do online.
A editora de Política, como referido, não se opôs à notícia sair no online, dizendo ao CR que não interfere na edição electrónica. Miguel Gaspar afirmou ainda ter sugerido à jornalista que continuasse a investigar o caso, fazendo eventualmente um trabalho mais sistematizado, com mais dados, sobre as incongruências do ministro Miguel Relvas.

Os membros do Conselho de Redacção consideram que existia relevância noticiosa notexto de Maria José Oliveira, que fez o que qualquer jornalista deve fazer: não deixou cair a história e trabalhou para aprofundá-la, procurando esclarecimentos junto do ministro.

O CR é da opinião que, mesmo que os telefonemas do ministro não tenham tido aqui qualquer influência, a não publicação da notícia passará a imagem para fora, quando o assunto vier a tornar-se público, como é expectável, de que foi justamente isto o que aconteceu: que o PÚBLICO vergou- se perante ameaças do “número 2” do Governo. Independentemente da mais-valia de se aguardar por um follow-up mais aprofundado,a publicação da notícia, juntamente com a divulgação pública das pressões doministro, teria certamente evitado este possível dano na imagem de independência do PÚBLICO, imagem esta que o jornal tem o dever de preservar.
Bruno Prata
Clara Viana
João D’Espiney
João Ramos de Almeida
Luís Francisco
Luís Miguel Queirós
Ricardo Garcia
Rita Siza
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Miguel Relvas acusado de ameaçar jornalista

Link

Ministro terá ameaçado revelar vida privada de jornalista do «Público», caso fosse publicada notícia sobre «secretas». Relvas assume telefonema, desmente pressões

O conselho de redação do jornal «Público» acusa o ministro Adjunto e dos Assuntos Parlamentares, Miguel Relvas, de ter ameaçado a jornalista Maria José Oliveira, e o jornal, «se fosse publicada uma determinada notícia, relacionada com o caso das secretas», sendo que a notícia «não foi publicada».

A direção do jornal contesta a divulgação pública desse comunicado, apesar de reconhecer que essa pressão existiu. À Agência Financeira o assessor de Miguel Relvas diz que o ministro «desmente categoricamente qualquer tipo de ameaça», mas admite que o governante telefonou à diretora e à editora do jornal, «que decidiram não publicar a notícia». «A publicação ou não da notícia é uma decisão interna do jornal», disse António Valle, que não quis revelar o teor dos telefonemas feitos por Miguel Relvas.

Segundo o conselho de redação do diário, «Relvas terá dito que, se o jornal publicasse a notícia, enviaria uma queixa à ERC, promoveria um black out de todos os ministros em relação ao "Público" e divulgaria, na Internet, dados da vida privada da jornalista. Estas ameaças foram reiteradas num segundo contacto telefónico».

A direcção do «Público» diz ter sido «surpreendida» com a divulgação do comunicado do conselho de redação, que foi descrito como «inaceitável e que representa uma manipulação intolerável dos factos».

«O comunicado insinua que o "Público" não publicou uma notícia sobre o caso das secretas na sequência de pressões do ministro Miguel Relvas. Até hoje nenhuma notícia sobre o caso das secretas deixou de ser publicada e nenhum facto relevante sobre esta matéria deixou de ser do conhecimento dos leitores», lê-se na nota.

O jornal justificou a não publicação da notícia por considerar que «não havia matéria publicável». Uma avaliação feita pela direção e por três editores.

Em causa nessa notícia está, de acordo com o conselho de redação, um «follow-up às incongruências das declarações do governante ao Parlamento, um dia antes». O ministro não terá aceitado responder às questões de Maria José Oliveira, a que seguiram os telefonemas em causa por parte de Relvas.

O mesmo órgão diz ainda que «a diretora não interpelou o ministro sobre as ameaças feitas». Na resposta, a direção assegura que Bárbara Reis «protestou junto do ministro Miguel Relvas por ter exercido uma pressão que toda a direcção considera inaceitável». E explica que a regra é não publicar pressões, a não ser que estas constituam uma violação da lei.

«A direção consultou o advogado do jornal, Francisco Teixeira da Mota, que considerou não ser esse o caso», lê-se na nota.

2012-04-27

Manifesto sobressalto

 FERNANDA CÂNCIO  Fernanda Câncio, pois claro. No DN de 2012 04 27. Muitos como ela e Portugal sairia da crise!
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"É altura de os Portugueses despertarem da letargia em que têm vivido e perceberem claramente que só uma grande mobilização da sociedade civil permitirá garantir um rumo de futuro."(1)
"É oportuno tomar uma posição clara contra a iniquidade, o medo e o conformismo que se estão a instalar na nossa sociedade."(2)
"Precisamos de uma política humana, orientada para as pessoas concretas, para famílias inteiras que enfrentam privações absolutamente inadmissíveis num país europeu do século XXI."(3)
"Portugal é já o país da União Europeia com maiores desigualdades sociais."(4)
"Precisamos de um combate firme às desigualdades e à pobreza que corroem a nossa unidade como povo."(5)
"O rumo político seguido protege os privilégios, agrava a pobreza e a exclusão social, desvaloriza o trabalho."(6)
"A expectativa legítima dos Portugueses é a de que todas as políticas públicas e decisões de investimento tenham em conta o seu impacto no mercado laboral, privilegiando iniciativas que criem emprego ou que permitam a defesa dos postos de trabalho. [...] Exige-se, em particular, um esforço determinado no sentido de combater o flagelo do desemprego."(7)
"As medidas e sacrifícios impostos aos cidadãos portugueses ultrapassaram os limites do suportável. Condições inaceitáveis de segurança e bem-estar social atingem a dignidade da pessoa humana."(8)
"Sem crescimento económico, os custos sociais da consolidação orçamental serão insuportáveis. [...] Há limites para os sacrifícios que se podem exigir ao comum dos cidadãos."(9)
"O contrato social estabelecido na Constituição da República Portuguesa foi rompido pelo poder."(10)
"Precisamos de gestos fortes que permitam recuperar a confiança nos governantes e nas instituições."(11) "Queremos apelar ao Povo português e a todas as suas expressões organizadas para que se mobilizem e ajam, em unidade patriótica, para salvar Portugal, a liberdade, a democracia."(12)
"É necessário um sobressalto cívico."(13)
"Queremos reafirmar a nossa convicção quanto à vitória futura, mesmo que sofrida, dos valores de Abril no quadro de uma alternativa política, económica, social e cultural que corresponda aos anseios profundos do Povo português."(14)
"Façam ouvir a vossa voz. Este é o vosso tempo. [... ] Mostrem que não se acomodam nem se resignam."(15)
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(Ímpares: discurso de tomada de posse de Cavaco Silva, 9 de março de 2011; Pares: Comunicado da Associação 25 de Abril, 23 de abril de 2012)
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Conclusão: "Com o espírito do 25 de Abril, juntos iremos vencer. Obrigado." - Cavaco Silva, 25 de abril de 2012.

2012-01-24

Raquel Freire uma voz indomável


Este Tempo a última crónica de Raquel Freire, na Antena 1, em que anunciou ter sido demitida pelo Governo.

Porquê? Ora porquê! Porque recusou ser a voz do dono, a voz do Relvas, do Passos Coelho, do governo da Troica, do governo dos banqueiros. Porque as suas crónicas são uma fonte de inspiração a todos os que amam a liberdade e acreditam num mundo diferente. Porque ademais luta contra a resignação, apela à esperança e à combatividade de cada cidadão, apela à revolta. E disso, é claro, o capital financeiro não concorda e os seus empregados demitem, despedem. Até um dia.

Ver aqui o post de Ricardo Santos Pinto no 5 dias.
Ou no JN, a entrevista a Helena Teixeira da Silva.


2012-01-22

Álvaro de Campos: "Cruzou por mim..."


Cruzou por mim, veio ter comigo, numa rua da Baixa
Aquele homem mal vestido, pedinte por profissão que se lhe vê na cara,
Que simpatiza comigo e eu simpatizo com ele;
E reciprocamente, num gesto largo, transbordante, dei-lhe tudo quanto tinha
(Exceto, naturalmente, o que estava na algibeira onde trago mais dinheiro:
Não sou parvo nem romancista russo, aplicado,
E romantismo, sim, mas devagar...).

Sinto uma simpatia por essa gente toda,
Sobretudo quando não merece simpatia.
Sim, eu sou também vadio e pedinte,
E sou-o também por minha culpa.
Ser vadio e pedinte não é ser vadio e pedinte:
E' estar ao lado da escala social,
E' não ser adaptável às normas da vida,
Às normas reais ou sentimentais da vida -
Não ser Juiz do Supremo, empregado certo, prostituta,
Não ser pobre a valer, operário explorado,
Não ser doente de uma doença incurável,
Não ser sedento da justiça, ou capitão de cavalaria,
Não ser, enfim, aquelas pessoas sociais dos novelistas
Que se fartam de letras porque tem razão para chorar lagrimas,
E se revoltam contra a vida social porque tem razão para isso supor.

Não: tudo menos ter razão!

Tudo menos importar-me com a humanidade!
Tudo menos ceder ao humanitarismo!
De que serve uma sensação se há uma razão exterior para ela?

Sim, ser vadio e pedinte, como eu sou,
Não é ser vadio e pedinte, o que é corrente:
E' ser isolado na alma, e isso é que é ser vadio,
E' ter que pedir aos dias que passem, e nos deixem, e isso é que é ser pedinte.

Tudo o mais é estúpido como um Dostoiewski ou um Gorki.
Tudo o mais é ter fome ou não ter que vestir.
E, mesmo que isso aconteça, isso acontece a tanta gente
Que nem vale a pena ter pena da gente a quem isso acontece.
Sou vadio e pedinte a valer, isto é, no sentido translato,
E estou-me rebolando numa grande caridade por mim.

Coitado do Álvaro de Campos!
Tão isolado na vida! Tão deprimido nas sensações!
Coitado dele, enfiado na poltrona da sua melancolia!
Coitado dele, que com lágrimas (autênticas) nos olhos,
Deu hoje, num gesto largo, liberal e moscovita,
Tudo quanto tinha, na algibeira em que tinha pouco àquele
Pobre que não era pobre, que tinha olhos tristes por profissão

Coitado do Álvaro de Campos, com quem ninguém se importa!
Coitado dele que tem tanta pena de si mesmo!

E, sim, coitado dele!
Mais coitado dele que de muitos que são vadios e vadiam,
Que são pedintes e pedem,
Porque a alma humana é um abismo.

Eu é que sei. Coitado dele!
Que bom poder-me revoltar num comício dentro da minha alma!
Mas até nem parvo sou!
Nem tenho a defesa de poder ter opiniões sociais.
Não tenho, mesmo, defesa nenhuma; sou lúcido.

Não me queiram converter a convicção: sou lúcido!

Já disse: sou lúcido.
Nada de estéticas com coração: sou lúcido.
Merda! Sou lúcido

2012-01-21

50º Aniversário da Revolta de Beja: Intervenção de António Louçã

O Movimento Não Apaguem a Memória-NAM em cooperação com a Comissão de Participantes (na revolta) organizou uma sessão comemorativa do 50º aniversário e de homenagem aos heróis de Beja, no dia 14 de Janeiro de 2012, na Biblioteca Museu da República e da Resistência, em Lisboa. A assistência ultrapassou muito a lotação da sala e as intervenções couberam aos historiadores Irene Pimentel e António Louçã e ao coronel Carlos Matos Gomes.
Intervenção do historiador António Louçã: 

"Agradeço às pessoas presentes o interesse pelo tema, que sa fez deslocarem-se aqui nesta tarde de sábado. Aos participantes da Revolta de Beja não agradeço que se tenham levantado em armas contra a ditadura salazarista, porque não procuravam gratidão - procuravam apenas fazer o que era preciso e esse “apenas” era muito. Para alguns foi tudo: o sacrifício de si próprios e de familiares seus, dos confortos, das carreiras, da liberdade e até da vida. E continuam hoje, os vinte e três subscritores do comunicado evocativo da Revolta, a dar testemunho contra esta voragem neo-liberal que ameaça as gerações vindouras.

Valha esta referência como declaração de intenções. O historiador, o jornalista, o investigador ou o estudioso, segundo a amável apresentação do Raimundo Narciso, ao debruçar-se sobre uma iniciativa da envergadura que teve a Revolta de Beja, não pode deixar de vibrar com ela e de tomar partido. Eu, partidário dos insurrectos, me confesso e declaro desde já este parti pris.

Agradeço à associação “Não Apaguem a Memória” o convite para participar nesta comemoração. No nome da associação vai toda uma intenção programática.

A memória, desde logo, é apagada ou adulterada neste regime de pensamento único em que hoje vivemos. No Chile, é agora doutrina oficial que não houve uma ditadura, e sim um “regime militar”. Em Portugal, nega-se a resistência e, como não há esquecimento quimicamente puro e a natureza tem horror ao vazio, logo se promove alguma interpretação distorcida da História para preencher o vácuo laboriosamente criado. Quem apaga uma memória está a instalar, no seu lugar, uma memória diferente. Quem apaga a memória do Veiga Simão, ministro dos gorilas, pretende erguer uma estátua ao Veiga Simão, reformador da educação. E era isso que fazia, aqui há uma semana, um texto de Barbara Wong no Público, apresentando o ministro da ditadura como autor de uma “tentativa de democratização da escola”, interrompida – adivinhem – pelo 25 de Abril. O 25 de Abril interrompeu a “democratização da escola”.

Também em ambiente académico se omite ou branqueia. Duas obras históricas, de referência, das mais importantes que foram publicadas nos últimos tempos, ilustram esta constatação. A biografia de Filipe Ribeiro de Menezes sobre Salazar, documentada, exaustiva, académica para o melhor e para o menos bom, apenas se refere brevemente à Revolta de Beja pelo ângulo das reacções e comportamentos do ditador: foi acordado, foi à missa de corpo presente pelo subsecretário do Exército, quis investigar um carácter cripto-comunista da revolta. Não custa a crer na obsessão de Salazar com o PCP, embora uma observação atenta do seu comportamento também pudesse ter notado que a Revolta lhe fez perder a fala e que a mensagem de 3 de Janeiro na AN teve de ser lida pelo seu fiel Mário de Figueiredo. O próprio Salazar confessava, aliás, que a mudez não se devia apenas à tomada de Goa, como depois ficou estabelecido na historiografia oficial, mas aos “acontecimentos dos últimos dias”.

A parte de Rui Ramos na História de Portugal refere-se ainda mais brevemente à Revolta de Beja, e apenas pelo ângulo da intervenção de Delgado. A melhor forma de fazer esquecer um acontecimento é o silêncio. E se o silêncio total é demasiado gritante numa obra com as pretensões desta que assina Ramos, então refere-se a Revolta de Beja, apenas como nota de rodapé para um outro tema, que é a humilhação infligida à Pide por Delgado (entrou e saiu do país, fez-se fotografar em frente do Diário de Notícias, foi a Beja).

Ao negacionismo subtil daquele historiador militante, junta-se o negacionismo grosseiro de um poder judicial herdeiro dos Tribunais Plenários. E assim vemos o mesmo Estado que reconstituiu integralmente as carreiras dos pides e lhes paga pensões de reforma sem qualquer beliscadura, a negar o “envolvimento na resistência à ditadura” de um Peralta Bação, com os seus quatro anos de prisão na sequência da Revolta de Beja. A doutrina oficial é, portanto, sancionada por obras com chancela académica e por sentenças com sinete judicial.

Mas uma das marcas de água do negacionismo está em baixar o nível do debate. E por isso devemos desembaraçar-nos dele e reflectir sobre o lugar da Revolta de Beja na História. Respondia essa revolta a um problema específico ou dava corpo a dilemas universais, recorrentes em toda a acção revolucionária?

Num acontecimento de envergadura histórica, como foi a Revolta de Beja, sempre se pode encontrar traços característicos, teimosamente repetidos em todas as grandes encruzilhadas da sociedade contemporânea. A Revolta de Beja não foi um capricho de uma centena de indivíduos – e já seriam demasiados para capricharem todos ao mesmo tempo e todos para o mesmo lado. Ela inseriu-se num fluxo, ou processo, de massas que vinha ao menos da campanha eleitoral de 1958. Os participantes tinham vivido a fraude eleitoral desse ano, alguns deles, operários na sua maioria, tinham vivido uma busca de alternativas por parte da classe trabalhadora que, após ser defraudada nas urnas, se lançara numa imponente vaga de greves contra a ditadura. O esmorecer desse movimento grevista, por falta de direcção, e por uma série de factores que agora não vêm ao caso, deixou esse amargo de boca e essa apetência por novas soluções que só podiam encontrar-se em algum tipo de acção directa.

O ano de 1961 tinha tudo para manter acesa a chama revolucionária. A nível mundial, foi um ano de violentos confrontos com o imperialismo. Depois de ser militarmente derrotado no Vietname, o imperialismo francês foi politicamente derrotado na Argélia. Num momento de superioridade sobre as forças argelinas, De Gaulle teve a lucidez de entender que a colonização estava condenada e mais lhe valia negociar enquanto estivesse em posição de força. Daí resultou o referendo de Janeiro de 1961, que abriu caminho à independência argelina.

A uma escala diferente, a ditadura de Salazar também estava no centro de uma efervescência sem precedente. Habitualmente, 1961 é considerado o seu annus horribilis. Em Janeiro, tomada do Santa Maria; em Fevereiro, começo da guerra colonial em Luanda; em Março, massacres da UPA no norte de Angola; em Novembro, campanha eleitoral com eco de massas considerável; finalmente, em Dezembro, tomada de Goa, Damão e Diu pela União Indiana.

Ora a designação do ano e a enumeração de desaires políticos sugere um quadro de facilidades irreal. A nível global, o imperialismo norte-americano não se dava por vencido. No mês de Janeiro, era a sua mão que estava por trás do assassínio de Lumumba, no Congo. Em Abril apadrinhava e apoiava a invasão de Cuba, derrotada na Baía dos Porcos. Em Maio, impulsionava o golpe militar de Park Chung Hee, na Coreia do Sul. Passados alguns meses, em Dezembro, oficializava a sua escalada no Vietname: para já, era um movimento ofensivo, embora acabasse por conduzi-lo à sua maior derrota histórica.

Tal como o império norte-americano contra-atacava, também a ditadura portuguesa, à sua escala, se defendia com unhas e dentes. Os trabalhadores da Baixa do Cassange eram brutalmente reprimidos e mesmo bombardeados com napalm. Ao 4 de Fevereiro seguiam-se os massacres nos musseques de Luanda. Os massacres da UPA davam o sinal para uma contra-ofensiva política e militar em larga escala.

A intoxicação propagandística não falhou o alvo. A velha oposição era colocada entre a determinação de lutar pelo restabelecimento de valores republicanos ou pela tradição colonialista que também tinha existido, entre outras, na Primeira República. Um sopro de união sagrada sentiu-se numa parte da oposição burguesa: não seria a defesa da pátria mais urgente do que o derrubamento da ditadura? Mesmo o protagonista da tomada do Santa Maria e do desvio do avião da TAP, Henrique Galvão, fez causa comum com a odiada ditadura salazarista para repudiar o restabelecimento da soberania indiana em Goa.

Perante este quadro, que orientação devia adoptar-se? Seria de preparar melhores condições para um levantamento? Ou seria de passar imediatamente à acção? Este é um dilema clássico da acção revolucionária. Um certo objectivismo marxista distinguiu-se pela sua elevada exigência sobre a maturação das condições. A certa altura, a exigência era tanta que sempre se considerava faltar alguma condição essencial. E, no momento da verdade, os marxistas da escola de Plekhanov sentenciavam que era “um erro” pegar em armas. A iniciativa revolucionária passava a ser, para eles, invariavelmente uma prova de “blanquismo”. E, na verdade, Blanqui, com toda a sua exemplaridade, tinha estado na origem de vários fracassos ao longo do século XIX.

Mas o voluntarismo blanquista, tantas vezes inadequado, era noutras ocasiões indispensável para forçar um desenlace e impedir que apodrecessem condições já sobejamente amadurecidas. Disso tinha plena consciência Thiers, ao recusar a troca de mais de 70 prisioneiros da Comuna por um só prisioneiro em mãos dos versalheses: o próprio Auguste Blanqui (que isso equivaleria a oferecer à Comuna todo um regimento, explicou na altura Thiers). Alguma coisa desse suposto blanquismo existia também em Lenine, que a partir das Jornadas de Julho insistiu contra Zinoviev e Kamenev na necessidade de “marcar uma data” para a insurreição.

O mesmo ingrediente blanquista que nas mãos de Lenine foi ferramenta de vitória encontra-se presente em vários fracassos posteriores. Na Alemanha, em Março de 1921, “marcou-se a data”, contra todos os mandamentos do bom senso e avançou-se desse modo para um fiasco. No Outono de 1923, tentou-se “marcar a data”, mas os potenciais insurrectos recuaram no último instante. Em 1953, Fidel e Raul Castro marcaram a data e atacaram o Quartel de Moncada – sem êxito. Mas os insurrectos de Beja podiam ter presente a vitória do Ejército Rebelde, fazia então exactamente três anos. Apesar de tudo, Moncada tinha valido a pena ou, pelo menos, não tinha deitado tudo a perder.

O dilema de preparar as condições ou tomar a iniciativa manifesta-se também na forma de lidar com o problema da guerra. Deve a revolução antecipar-se à guerra? Ou será a guerra a parteira da revolução? Na mesma Rússia czarista, chegara a haver a expectativa de que a grande vaga de greves de 1914 derrubasse a autocracia antes de esta entrar na guerra. Nesse cenário, o país seria poupado à fome, às privações de todo o tipo e a milhares de mortes. Mas a embriaguez chauvinista da guerra veio precisamente cortar o fio da revolução e adiar por mais três anos o confronto decisivo com o czarismo. Em 1962, uma revolta bem sucedida em Beja, e depois no resto do pais, teria poupado as colónias portuguesas a perdas humanas e materiais incalculáveis e teria poupado a metrópole colonial a mais de 9.000 mortos – um número mais pesado, tendo em conta o tamanho do país, que as perdas dos EUA no Vietname. Mas ao fim de um ano de guerra, ainda concentrada numa só colónia, a ditadura tinha conseguido retomar o terreno perdido. Já podia agitar o espantalho da descolonização e ainda não era chamada a responder pelo preço da guerra.

A primeira madrugada de 1962, uma data marcada pelo imperativo categórico de poupar milhares de vidas, era, ao contrário do que sugere o rótulo do annus horribilis, o momento em que os insurrectos teriam de enfrentar a mais adversa das marés. Tomaram a decisão obedecendo a um elevado sentido de dever revolucionário – contra ventos e marés, como titula a recente biografia de Maria Eugénia Varela Gomes. Como em Moncada, o sacrifício dos seus mortos, feridos, torturados e condenados não foi inútil. Entre o ensaio geral de Janeiro de 1962 e a acção vitoriosa de Abril de 1974 decorreram os mesmos doze anos que entre o ensaio geral de 1905 e a revolução russa de Fevereiro. Aqueles que vivemos a revolução vitoriosa no limiar da nossa vida adulta temos essa dívida para com os insurrectos de Beja.

2012-01-01

Salvem oa cidadãos antes dos bancos


James K. Galbraith e Aurore Lacq em  Le Monde 2011-12-13 
 [La crise de la zone euro est une crise bancaire qui a pris la forme d'une série de crises des dettes souveraines. Une crise aggravée par des idées économiques réactionnaires, une architecture défectueuse et un climat politique toxique. Comme la crise américaine, elle est le fruit de ...]

(tradução)

A crise da zona euro é uma crise bancária que assumiu a forma de uma série de crises de dívida soberana. Uma crise agravada pelas ideias reaccionárias em economia, por uma arquitectura com falhas e um clima político tóxico. Como a crise americana, é o resultado de empréstimos laxistas destinados a mutuários de fracos rendimentos: a habitação em Espanha, o imobiliário comercial na Irlanda, o sector público na Grécia. Os bancos europeus beneficiaram com os efeitos de alavancagem oferecidos pelos activos tóxicos americanos.

Quando os países entraram em colapso, os bancos decidiram livrar-se das obrigações dos Estados mais frágeis em benefício dos países mais fortes para preservarem a sua rentabilidade, o que mergulhou a União Europeia na crise.

Neste tipo de crise, o primeiro reflexo dos bancos é o de fingir surpresa antes de culparem os seus clientes pela sua imprudência ou até mesmo pelo seu engano. Isto esconde o fato de que durante muito tempo os banqueiros concederam empréstimos com demasiada facilidade, com a intenção de embolsarem óptimas comissões. Esta estratégia dos bancos funciona muito melhor na Europa que os Estados Unidos, devido às fronteiras nacionais que separam devedores dos credores e às ligações entre os dirigentes políticos e os grandes bancos nacionais que de repente nem sequer hesitem em difundir estereótipos racistas.

Na base deste poder bancário, há uma corrente de pensamento e de políticos que consideram os excedentes como um sinal de virtude e consideram os défices como sendo um sinal de vício, um fetiche da desregulamentação, das privatizações e dos ajustamentos pelo mercado. O norte da Europa realmente tem esquecido que a integração económica tem sempre como seu efeito a concentração da indústria nas regiões mais ricas.

A Alemanha e a França estão agora armados em professores face aos países endividados: rigor salarial, cortes orçamentais. Lições que se tornaram as injunções do Fundo Monetário Internacional e do Banco Central Europeu (BCE): os novos pobres endividados já não vivem numa democracia.

A arquitectura da zona euro agrava a crise de duas maneiras: primeiro, os fundos estruturais são demasiado fracos para corrigir as desigualdades regionais e os seus pagamentos estão bloqueados, porque as condições de co-financiamento são difíceis de preencher. Faltam também os mecanismos inter-regionais de redistribuição para as famílias, como aqueles que são criados nos Estados Unidos: reformas, Medicare, Medicaid, etc.

Em seguida, o BCE recusa-se a resolver esta crise através da compra de títulos dos países fragilizados – em nome do princípio segundo o qual ajudar estes Estados é estar a incentivá-los a endividarem-se, um argumento reforçada pelos temores de inflação. A zona euro, portanto, preferiu lançar-se na criação de um gigantesco CDO (títulos de dívida colateralizados - Collateralized Debt Obligation) que é o Fundo Europeu de Estabilidade Financeira.

No entanto, existem soluções técnicas, por exemplo a "modesta proposta" de Yanis Varoufakis (Professor de economia, Universidade de Atenas) e de Stuart Holland (antigo parlamentar britânico e professor na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra) que sugere converter até 60% do PIB da dívida de cada um dos países da zona do euro em títulos europeus emitidos pelo BCE, de recapitalizar e de europeizar o sistema bancário e de lançar um New Deal com o Banco Europeu de Investimento. Pode se também pensar em estabelecer um direito de falência nacional (Raffer. Kunibert), em fazer do BCE um "grupo público para o serviço de interesse geral e do desenvolvimento" como a Caisse de dépôts (Thomas Palley) ou um imposto sobre os lucros dos bancos (Jan Toporowski).

Destas boas ideias nenhuma será posta em prática. Porque na Europa, os termos do debate são completamente fechados, às novas ideias, enquanto a sobrevivência política assenta na capacidade de " arrumar a casa" quanto às contas públicas. Tudo é feito para não enfrentar a realidade: a crise bancária. Cada reunião europeia conduz à adopção de submedidas pérfidas e de verdadeiras fugas para a frente. Quanto ao destino dos países mais fracos, é melhor ser considerado como dano colateral, ou mesmo como um mal necessário.

A Grécia e a Irlanda estão em vias de ficarem destruídos. Portugal e a Espanha estão em farrapos, a crise propaga-se à Itália e a França debate-se para tentar retardar a perda do seu AAA. Se houvesse uma forma simples de sair do euro, a Grécia já o teria feito. O único país que poderia optar por esta via é a Alemanha.

Para os outros, trata-se de escolher entre o cancro ou um ataque cardíaco, a menos que haja uma mudança radical na Europa do Norte mas dado que nenhum dos partidos socialistas alemão ou francês está em condições de aceder ao poder , estes não parecem estar em condições de ser capaz de a fornecer. Então, caminha-se para uma explosão social, acompanhada de um pânico financeiro e de um retorno inexorável de emigração. Resta apenas poder contar com a capacidade dos cidadãos europeus em se defenderem.

Não façam o mesmo erro histórico do que nós. Quando os Estados Unidos decidiram intervir no Iraque, a velha Europa não hesitou em dizer que o nosso país cometia um erro. Isto foi um alívio para os adversários da guerra, mas foi uma afronta para o governo. Hoje, é um americano da velha América, um americano da guerra civil, um americano do New Deal, que tenta dizer aos seus amigos europeus que eles estão a cometer um erro histórico ao recusarem-se a ouvir ideias de bom senso que consistem em fazerem, na verdade, rapidamente frente a uma situação excepcional.

2011-12-26

Para sair da Crise é preciso romper com a troica e obrigá-la a negociar a dívida.

Para o politólogo belga, Éric Toussaint, a dívida de Portugal à Europa e ao FMI é ilegítima e deveria ser renegociada. O grande problema da crise, defende, não está nos estados, mas nos bancos. (Hoje no Público)
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Éric Toussaint não está optimista, mas tem uma visão diferente da actual crise e do que fazer para sair dela. O politólogo e professor universitário belga esteve recentemente em Lisboa para ajudar a lançar a iniciativa por uma Auditoria Cidadã da Dívida Pública. Experiência não lhe falta. É presidente do Comité para Anulação da Dívida do Terceiro Mundo e fez parte da equipa que realizou, entre 2007 e 2008, a auditoria sobre a origem e destino da dívida pública do Equador, ao servico do novo Governo de esquerda do país, num processo que levou ao julgamento de vários responsáveis políticos e à decisão unilateral de não pagar parte da dívida equatoriana. Acredita que o mesmo pode acontecer na Europa. Mas isso implica romper com as exigências da troika.
Depois das decisões que saíram da última cimeira europeia acha que a crise da divida está próxima do fim?
Esta é uma crise que vai durar 10 ou 15 anos, porque o problema fundamental não é a divida pública, mas sirn os bancos europeus. E não estou a falar dos pequenos bancos portugueses ou gregos. 0 problema é que os grandes bancos - Deutsche Bank, BNP Paribas, Credit Agicole, Société Generale, Commerzbank, Intesa Sampaolo, Santander, BBVA - estão ã beira do precipício. Isso é muito pouco visível no discurso oficial. Só se fala da crise soberana, quando o problerna é a crise privada dos bancos. Está a referir-se à exposição dos bancos à divida pública de alguns paises do euro? Não, não é a exposição à dívida soberana, mas sim a derivados tóxicos do subprime [crédito de alto risco]. Está a ocultar-se que todo o conjunto de derivados adquiridos entre 2004 e 2008 continuam nas contas dos bancos, porque são contratos a 5, 10 ou 15 anos. Somente quando o contrato chegar ao fim é que se vai descobrir a amplitude da toxicidade e das perdas, visto que as contas actuais dos bancos mostram esses avaliados, não ao valor de mercado, mas ao valor facial, do contrato. Foram, aliás, esses problemas com os activos tóxicos que geraram os da dívida soberana. Em 2008, quando os bancos deixaram de conceder crédito entre si, o investimento mais seguro era comprar títulos da dívida soberana e os mais rentáveis eram da Grécia, Portugal, Irlanda, Espanha e Itália. Então, os bancos compraram muitos títulos para substituir os derivados que tinham. Agora, têm os dois, porque não conseguiram desfazer-se dos primeiros. Mas é totalmente falso dizer que o problema actual é a dívida soberana. É a soma dos dois.
Há, contudo, uma crise da dívida, que obrigou a Grécia, Portugal e a Irlanda a pedir ajuda. Como é que avalia a resposta que foi dada para estes países com os planos da lroika?
Esses planos vão piorar a situação desses países, isso é absolutamente claro. A redução maciça das despesas públicas e do poder de compra da maioria da população vai diminuir a procura e as receitas fiscais e provocar ainda mais necessidade de o país se endividar para pagar a divida. Tanto a política da troika na Grécia, Irlanda e Portugal, como a política da Comissão Europeia e dos países do Centro, como a Alemanha e a França, vai provocar mais recessão. A própria Alemanha vai ter problemas, porque precisa de ter quem compre os seus produtos.
Qual seria a solução? Uma reestruturação da divida?
Em Portugal a reestruturação está muito na moda, mas não gosto dessa palavra. Na história da dívida, a reestruturação corresponde a uma operação totalmente controlada pelos credores. Quando o devedor quer tomar a iniciativa, tem de suspender os pagamentos da dívida, para obrigar os credores a sentarem-se à mesa e discutir condições. Uma reestruturação é o que a troika vai fazer na Grécia, impondo um corte de 50% na dívida dos bancos privados, em troca de mais austeridade no país. Contudo, sem redução da dívida à troika, que se tornou o maior credor da Grécia e, ainda por cima, privilegiado, este tipo de reestruturação só alivia de maneira conjuntural o pagamento da dívida. Não é uma solução de verdade.
Que solução seria essa?
Sei que esta ideia está fora do debate público, mas, para mim, se um país quiser sair desta crise, tem de romper com a troika. Tem de dizer: senhores, as condições que nos impõem são injustas e não nos servem a nível económico.
Mas se Portugal ou outro país disser isso, não terá de sair da zona euro?
Não acho que seja automático, mas é claro que é complicado. A Alemanha beneficia com o euro, pelas suas exportações e inclusive pelos empréstimos a Portugal. Quando vai financiar-se ao mercado, a Alemanha paga 1%. mas empresta a Portugal a 5%. Não é generosidade, é um bom negócio para a Alemanha. O que Portugal precisa é de uma política soberana em que o Estado declarasse não querer sair da zona euro, mas dissesse que as condições impostas pela troika são inaceitáveis para os cidadãos e para o interesse do país. Caso contrário, a troika só fará mais exigências, que não permitirão ao país sair da situação em que se encontra. Se Portugal disser não à troíka, esta seria obrigada a sentar- se à mesa e renegociar a dívida e as condições que impõe. E não me parece que a troika queira a saída de um país do euro.
Como se insere neste processo a auditoria à dívida pública?
A auditoria é um processo promovido sobretudo por cidadãos para romper o tabu da dívida soberana, que nunca se discute nem se analisa. Até pode ser má, mas há que pagá-la, porque uma divida paga-se sempre, quando, na realidade, tanto ao nível de um particular, de uma empresa ou de um Estado, uma dívida ilegitima, ilegal ou imoral é uma dívida nula. E há toda uma vasta história de anulação e suspensão dessa dívida. O que é uma dívida ilegtima? A ilegitimidade é um conceito cuja definição não se encontra no dicionário. É a forma como os cidadãos interpretam, de forma rigorosa, o respeito aos principios da nação, da construção do país e do direito interno e internacional. Uma divida ilegítima é, por exemplo, uma divida contraída porque o Estado favoreceu uma pequena minoria, reduzindo impostos sobre as grandes empresas multinacionais ou as famílias mais ricas, que assim diminuíram a sua contribuição para as receitas tiscais, obrigando o Estado a endividar-se.Esta contra- refoma fiscal aconteceu em toda a Europa e também nos EUA, com o anterior presidente, George W. Bush. Os resgates aos bancos são outro exemplo. O custo de ajudar os banqueiros. que foram totalmente aventureiros, desviando os depósitos dos seus clientes para investir no subprime, implicou um aumento da dívida soberana, que é totalmente ilegítimo. Não podiam ter sido resgatados dessa forma, os grandes accionistas não deviam ter sido indemnizados.
A dívida à troika também é ilegitima?
Sim. Foi uma dívida contraída para impor um desrespeito aos direitos económicos e sociais da população. Há uma chantagem da troika, que dá crédito para pagar aos credores, que são eles próprios e os bancos dos países do Centro europeu, e, em contrapartida, exige austeridade. Não há dúvida: é uma dívida ilegitima.
Organizou uma auditoria à divida do Equador... O que Portugal poderia retirar desse exemplo?
É uma situação diferente. No Equador, o novo presidente tinha sido eleito com o mandato de fazer uma auditoria da dívida pública, de modo a definir que parte era ilegítima e não seria paga.
Vê possibilidade de isso acontecer na Europa?
Com uma mudança de Governo, sim. Não pode ser um Governo que defende os acordos com a troika a fazer uma auditoria à divida. O descontentamento das populações pode abrir caminho a isso, mas não sei quando é que uma mudança desse tipo pode ocorrer na Europa. Os latino-americanos viveram 15 a 20 anos de neoliberalismo e de aceitação do pagamento da dívida soberana. Espero que não demoremos 20 anos na Europa.

2011-12-14

Seis sorprendentes revelaciones sobre el «gobierno secreto» de Wall Street

por: Les Leopold : aqui.

La democracia estadounidense está raptada por un gobierno secreto que muchos investigadores han identificado como siendo una poderosa oligarquía que manipula desde la sombra la esencia misma del Estado, disponiendo a su antojo e interés la riqueza financiera del país sin que ninguna institución del Estado sea capaz de someterla. Utilizando la plancha a billetes indiscriminadamente y creando riqueza de nada, esta elite sin escrúpulos ha arruinado la economía del país y ha creado la más grande burbuja especulativa de la historia, aquella del dólar, que finalizará con la desaparición de esta moneda como reserva internacional.

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Les Leopold
Les Leopold es un investigador especializado en proyectos de educación, salud, del medio ambiente y economía, fundó y fue director ejecutivo del The Labor Institute (1976) y del Public Health Institute (1986) en Nueva York, autor de The Looting of America: How Wall Street’s Game of Fantasy Finance Destroyed Our Jobs, Pensions, and Prosperity and What We Can Do About It ediciones Chelsea Green, 2009.
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Timothy Geithner (izquierda) secretario del Departamento del Tesoro de los Estados Unidos y Ben Bernanke (derecha) presidente de la Reserva Federal (Fed) fotografiados en abril de 2010, ambos son la cara visible y ejecutantes a la orden de un gobierno secreto que dispone a su antojo miles de millones de dólares.

Ahora tenemos la evidencia de que Wall Street y Washington utilizan un gobierno secreto muy alejado del proceso democrático. Mediante una solicitud según la ley de libertad de información, el público tiene ahora acceso a más de 29.000 páginas de documentos de la Reserva Federal (Fed) y a 21.000 transacciones adicionales de la Fed que se ocultaron deliberadamente, y por buen motivo. (Vea aquí en este link).

Estos documentos muestran que altos funcionarios del gobierno ocultaron intencionalmente al Congreso y al público la verdadera dimensión de los rescates de 2008-2009 que enriquecieron a unos pocos y favorecieron los intereses de gigantescas firmas de Wall Street. Lo que sabemos ahora es lo siguiente: Los rescates secretos de Wall Street totalizaron 7,77 billones (millones de millones) de dólares, 10 veces más de los 700.000 millones de dólares del programa de rescate TARP aprobado por el Congreso en 2008. El conocimiento de los fondos secretos del rescate no se compartió con el Congreso ni siquiera éste redactaba y debatía la legislación para fraccionar los grandes bancos.

El financiamiento secreto suministrado a tasas inferiores al mercado dio a Wall Street otros 13.000 millones de dólares de beneficios. (Es suficiente dinero para contratar a más de 325.000 maestros de primaria). Los fondos secretos financiaron fusiones de bancos de modo que los principales bancos crecieron aún más. El dinero también permitió que los bancos aumentaran sus trabajos de cabildeo.
Mientras Henry Paulson (secretario del Tesoro de Bush) informaba al Congreso y al público de que solo se requerían reformas menores para proteger del colapso a Fanny Mae (Federal National Mortgage Association y Freddie Mac (Federal Home Loan Mortgage Corporation), se reunió en secreto con destacados administradores de hedge funds de Wall Street –entre ellos sus ex colegas de Goldman Sachs– para alertarlos de que estaba a punto de nacionalizar las gigantes compañías hipotecarias, una acción que erradicaría casi todo el valor bursátil de las compañías. Esta información era de un valor inmenso ya que permitiría que esos hedge funds vendieran en descubierto Fannie y Freddie y al hacerlo ganaran una fortuna.

Mientras Timothy Geithner era jefe de la Reserva Federal de Nueva York, argumentó contra los esfuerzos legislativos del senador Ted Kaufman, demócrata de Delaware, para limitar el tamaño de los bancos porque el tema era «demasiado complejo para el Congreso y esas decisiones deberían ser manejadas por gente que conoce los mercados», recuerda Kaufman. Mientras tanto, Geithner era perfectamente consciente de los enormes préstamos secretos, mientras al senador Kaufman se le ocultaba este hecho. Barney Frank, quien redactaba legislación clave sobre la reforma bancaria, tampoco fue informado sobre los préstamos secretos.

No se informó a nadie del Congreso. ¿Qué significa todo esto?

1. Los grandes bancos y hedge funds tenían muchos más problemas de los que nos hicieron creer. Como muchos sospechábamos, todos los grandes bancos estaban de rodillas pidiendo ayuda –en secreto– mientras decían a sus inversionistas, al público y al Congreso que todo iba bien. Habían jugado y habían perdido. Según las reglas del capitalismo ideal, deberían haber sufrido una cierta «destrucción creativa», el valor de sus acciones eliminado por la bancarrota y sus administradores reemplazados. Todo el sistema bancario también debería haberse reorganizado de arriba abajo. En vez de eso esas colosales irregularidades recibieron recompensas en secreto.
2. El gobierno secreto de Wall Street se aseguró de que los principales bancos crecieran aún más, con la ayuda del financiamiento secreto. Mientras el Congreso discutía la legislación para fraccionar los grandes bancos y reinstituir Glass Steagall (para separar la banca de inversiones riesgosas de la banca comercial asegurada), el gobierno secreto utilizaba fondos públicos para que crecieran aún más mediante fusiones a pesar de la mala salud de todos los bancos y la legislación se derrotó fácilmente. Como muesta dolorosamente el gráfico, los bancos demasiado grandes para quebrar crecieron aún más. Activos de los seis bancos principales (en billones de dólares).
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3. Cuanto más grande llegue a ser Wall Street, más puede comprar al gobierno. Esta parte no es secreta. Cuanto más crecieron los seis bancos principales, más fondos gastaron en cabildeo para asegurarse de que no sufrirían impactos contra la rentabilidad por parte de la legislación de la reforma bancaria. Por lo tanto, mientras los principales bancos recibían cientos de miles de millones de dólares en préstamos secretos, aumentaban sus fondos de cabildeo para mantener su tamaño y su poder. Leedlo y llorad: Gastos de cabildeo de los seis principales bancos (en millones de dólares).
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4. El gobierno secreto de Wall Street protege a los suyos. Al principio cuesta comprender que el secretario del Tesoro Paulson, ex jefe de Goldman Sachs, se arriesgase a asistir a una reunión secreta con administradores de gigantescos hedge funds, muchos de los cuales solían trabajar en Goldman Sachs. ¿Cómo pudo atreverse el funcionario de finanzas más importante de la nación a dar información confidencial a esas elites de los hedge funds sobre la inminente absorción de Fannie and Freddie por el gobierno antes de informar al Congreso y al público? Bueno, una respuesta es que Paulson se sintió obligado a advertir a sus antiguos compinches de la inminente nacionalización. Tal vez quería ponerlos fuera de peligro en caso de que estuvieran fuertemente involucrados en esos mercados. O tal vez también quería darles una información muy valiosa para que se beneficiaran. Pero la explicación más profunda, creo, es que funcionarios gubernamentales clave de Wall Street, Paulson, Summers, Geithner, Orszag (el ex jefe de la OMB (Oficina de Administración y Presupuesto) de Obama, que gana millones trabajando para Citigroup), etc. creen verdaderamente lo siguiente:
* Los bancos de Wall Street son los mejores del mundo y están en la vanguardia de la economía estadounidense. Son nuestro futuro.
* Los banqueros de Wall Street y los administradores de los hedge funds son inmensamente más listos y astutos que el resto de nosotros. Merecen nuestra admiración.
* La ayuda a que Wall Street crezca y prospere es precisamente lo mismo que la ayuda a todos los estadounidenses y a toda la economía. Merecen nuestro apoyo.
* Las reuniones secretas para suministrar información confidencial son algo normal en Wall Street. No hay nada de malo si uno advierte a sus amigos de futuras decisiones políticas que podrían afectar sus beneficios. * No hay absolutamente nada de malo en el suministro de billones de dólares de préstamos secretos a los mejores y más brillantes sin informar al Congreso al respecto.

Todo es un ciclo cerrado de autojustificación y autoengaño: Wall Street es brillante. Lo que hace Wall Street es por el bien del país. Ayudar a que Wall Street tenga beneficios es bueno para el país. Ocultar la verdad a los dirigentes elegidos democráticamente también es bueno para el país porque Wall Street es brillante y lo sabe mejor.
Y de todo esto están convencidos profundamente Wall Street y su gobierno secreto, incluso si Wall Street, y solo Wall Street, derrumbó la economía y destruyó 8 millones de puestos de trabajo en cosa de meses. ¡Simplemente brillante!
5. Wall Street es un peligro evidente y presente para la democracia. Generalmente no soy alarmista. En los hechos, a menudo argumento contra teorías conspirativas complacientes. Quiero creer que nuestra democracia todavía es promisoria. Pero el crash inducido por Wall Street y la reacción del gobierno me preocupan profundamente. Las revelaciones de Bloomberg News sugieren que el gobierno secreto de Wall Street siente un profundo desdén por lo que subsiste de nuestra democracia. Las elites financieras creen obviamente que no se puede confiar en que el Congreso haga lo correcto, incluso cuando es comprado y pagado para que lo haga por los mismos bancos que supuestamente regula. ¿Y en cuanto al resto de nosotros? No somos más que una masa analfabeta en lo financiero a la que hay que manipular a través de los medios de comunicació de masas. Nuestras mentes se pueden comprar y vender mediante un marketing cuidadoso.
Esta arrogancia y corrupción financiera es enormemente corrosiva para nuestros valores democráticos. Muchos estadounidenses ya no confían en su gobierno, y con razón. Muchos estadounidenses ya no votan, y con razón. Muchos estadounidenses creen que la democracia, tal como la conocemos, es una estafa, y con razón. Wall Street no podría haber escrito un guión mejor para mantener su dominación.
6. Ocupad Wall Street básicamente tiene razón, pero no basta. Los ocupantes atacaron dramáticamente a Wall Street y capturaron la imaginación del país con su marco del 1 por ciento y el 99 por ciento. Y la idea se impone y se extiende. Pero es solo el comienzo. Para recuperar a nuestro país del gobierno secreto de Wall Street tenemos que desarrollar un enorme movimiento dentro del 99 por ciento. Aunque esperamos que suceda espontáneamente mediante Facebook y Twitter, todos sabemos que requerirá mucha organización sería que involucre a millones de nosotros. Por el momento, nadie sabe qué forma tomará. Pero sí sabemos lo siguiente: las grandes concentraciones de poder y riqueza no renuncian a su poder y riqueza sin una enorme resistencia. El gobierno secreto de Wall Street está más que listo para protegerse, aunque signifique subvertir la democracia. Nuestros ocupantes han mostrado mucho valor al ayudarnos a recuperar nuestros derechos democráticos. Esperemos que se extienda… y pronto.
Les Leopold

2011-11-29

A operação Face Oculta com rabo de fora - O BPN

Enviaram-me isto para a caixa de correio. Circula por aí. Não conheço a origem. Mas se conhecer a origem tem importância (argumento de autoridade) mais importante talvez é a razoabilidade dos argumentos e avaliarmos como encaixam no que conhecemos. E há muita coisa que encaixa.
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A operação Face Oculta destinava-se, de facto, a fazer o máximo de ruído possível para desviar as atenções do tenebroso folhetim BPN. Ainda hoje visa em parte isso mesmo, apesar de estar um pouco descaída para robalos e alheiras... Com a face oculta, valia tudo! Até escutas ilegais ao primeiro ministro - o que, num estado de Direito, deveria ter resultado no julgamento dos responsáveis pelas gravações.


A páginas tantas, a operação Face Oculta foi redireccionada, passando a visar principalmente Sócrates e o seu governo. Era preciso derrubar Sócrates e mudar de governo, porque havia gigantescos interesses em jogo e, em particular, o caso BPN prometia dar completamente cabo do PSD. Do folhetim BPN ignoram-se ainda hoje numerosos episódios. Aquilo é uma torrente de lama inesgotável.


Que eu me lembre, o agora falado caso IPO/Duarte Lima, de que Isaltino também foi uma peça fulcral, não foi sequer abordado durante o Inquérito Parlamentar sobre o BPN - inquérito a que o PSD se opôs então com unhas e dentes, como é sabido. A táctica então escolhida pela quadrilha laranja foi desencadear um inquérito parlamentar paralelo, para averiguar se Sócrates estava ou não a asfixiar a comunicação social!! Mais uma vez, uma produção de ruído para abafar o caso BPN e desviar as atenções.

Mas é interessante examinar como é que o negócio IPO/Lima foi por água abaixo. Enquanto Lima filho, Raposo e Cia. criavam um fundo com dezenas de milhões amigavelmente cedidos pelo BPN de Oliveira e Costa, Isaltino pressionava o governo para deslocar o IPO para uns terrenos de Barcarena, concelho de Oeiras. Isaltino comprometia-se a comprar os terrenos (aos Limas e Raposo, como sabemos hoje) com dinheiro da autarquia e a "cedê-los" generosamente ao Estado para lá construir o IPO. Fazia muito jeito que fosse o município de Oeiras a comprar os terrenos e não o ministério da Saúde, porque assim o preço podia ser ajustado entre os amigos vendedores e compradores, quiçá com umas comissõezinhas a transferir para a Suíça. Duarte Lima tinha sido vogal da comissão de ética (!!!) do IPO entre 2002 e 2005, estava bem dentro de todo os assuntos e tinha óptimas relações para propiciar o negócio. Além disso, construiu a imagem de homem que venceu o cancro, história lacrimosa com que apagava misérias anteriores. O filho e o Vítor Raposo eram os escolhidos para dar o nome, pois ao Lima pai não convinha que o seu nome figurasse como interessado no negócio.

Em Junho de 2007 Isaltino dizia ainda que as negociações para a compra dos terrenos em causa estavam "em fase de conclusão" (só não disse nunca foi a quem os ia comprar, claro). E pressionava o ministro da Saúde: "Se se der uma mudança de opinião do governo, o cancelamento do projecto não será da responsabilidade do município de Oeiras." Como assim, "mudança de opinião do governo"? Na verdade, Correia de Campos apenas dissera à Lusa que o governo encarava a transferência do IPO para fora da Praça de Espanha e que estava a procurar um terreno, em Lisboa ou fora da cidade, para esse efeito.

Nenhuma decisão tinha sido tomada, nem nunca o seria antes das eleições para a Câmara de Lisboa, que iam realizar-se pouco depois, em Julho de 2007. No decorrer do ano de 2007, porém, a Câmara de Lisboa, cuja presidência foi conquistada por António Costa, anunciou que ia disponibilizar um terreno municipal para a construção do novo IPO no Parque da Bela Vista Sul, em Chelas, Lisboa.

Foi assim que se lixou o projecto Lima-Isaltino: o ministro Correia de Campos não cedeu às pressões de Isaltino e a nova Câmara de Lisboa pretendia que o IPO se mantivesse em Lisboa. Com Santana à frente da autarquia e um ministro da Saúde do PSD teria tudo sido provavelmente muito diferente. E os Limas e Raposos não teriam hoje as chatices que se sabe. E Duarte Lima até talvez já tivesse uma estátua no Parque dos Poetas do amigo Isaltino.

Sabemos como, alguns meses depois deste desfecho, Correia de Campos foi atacado por Cavaco no discurso presidencial de Ano Novo, em 1 de janeiro de 2008. Desgostado com as críticas malignas do traiçoeiro Presidente, Correia de Campos pediu a sua demissão ainda nesse mês. Não sabemos nem podemos saber o que terá levado o PR a visar dessa maneira um ministro do governo Sócrates, por sinal um dos mais competentes. Que Cavaco queria a pele de Correia de Campos, foi bem visível. Por causa do fracasso do projecto do IPO/Oeiras e dos prejuízos causados ao clan Lima e à mafia laranja? É bem possível!

2011-08-06

"É inevitável Portugal sair do euro"

Desmond Lachman, antigo diretor adjunto do FMI entrevistado por Ricardo Lourenço, correspondente nos EUA (http://www.expresso.pt/ - 23:50 Sexta feira, 5 de agosto de 2011) Link
"O euro tem os dias contados" e Portugal devia ser dos primeiros países a terminar com a "tentativa fútil de permanecer na moeda única", afirma Desmond Lachman.
- Desmond Lachman: É inevitável. Portugal não vai conseguir aguentar a políticas do FMI sem grandes cortes da despesa e sem deixar o euro. Esse será o fim. A minha pergunta é: se este será o fim, porquê esperar dois anos, que se avizinham de recessão, quando já sabemos que a saída do euro é fatal? Não sugiro que o default (incumprimento do pagamento da dívida) ou a saída do euro seja uma opção fácil ou que não vai provocar dor, mas apesar de tudo e preferível fazê-lo agora do que perder dois anos. Quando olho para os números de Portugal não percebo como é que o país irá conseguir ao mesmo tempo pagar a divida e aguentar um programa de austeridade imposto pelo FMI, que resultará em recessão profunda e ao mesmo tempo em deflação, o que irá piorar tudo, aumentando o problema da dívida pública.


- Ricardo Lourenço: É mais pessimista em relação a Portugal do que em relação à Grécia?
Sim. São países com problemas diferentes, mas o que me preocupa em relação a Portugal é a sua fraqueza extrema no lado externo. Portugal tem uma dívida externa superior à grega (por percentagem do PIB). Se incluirmos o sector privado, o país deve ao exterior o equivalente a 230% do PIB. É brutal! E ainda temos o problema do défice orçamental, que não anda longe 10%. Portugal tem fraquezas enormes e eu não percebo como e que vai lidar com elas mantendo-se no euro e sem poder desvalorizar a moeda.


- Mas aparentemente isso não vai acontecer visto que o novo governo, tal como o anterior, não pensa numa solução dessas.
- Isto tudo não tem a ver com o que eles querem, mas com a realidade que irá acabar por se impor. Nesta altura, parece-me evidente que a Grécia não vai ficar conseguir cumprir com o pagamento da dívida e consequente saída do Euro. E se a Grécia falha não há forma de Portugal sobreviver às pressões dos mercados

- O Nobel da economia Milton Friedman disse em 1999 que o euro não resistiria à primeira recessão. Acha que ele estava certo?
- Nem alguém tão pessimista como Friedman acharia um dia que os desequilíbrios orçamentais chegassem a este ponto, muito além do que se esperava. Para os corrigir só saindo do euro, caso contrário podem ficar mas aí terão um futuro estilo Letónia onde os programas de austeridade sucessivos levaram a quedas de produtividade de 26% e a um aumento do desemprego até aos 26%. Se é isso que querem....

- De quem é a culpa da actual situação?
Temos de perceber uma coisa, há uma grande diferença entre o que é do interesse da Alemanha e da França e o que é do interesse de Portugal, Espanha ou Grécia. Os primeiros querem este tipo de políticas, porque querem evitar o default dos parceiros do sul, visto que o seu interesse é a protecção do seu sistema bancário. Eles sabem que se estes países falharem eles terão uma crise do sistema bancário. Eles querem por isso que Portugal, Grécia ou Espanha fiquem no sistema, algo que penso não ser do interesse desses países. Quantos às culpas, há muitas para distribuir. Na verdade, o que quero dizer é que isto é uma desgraça! Primeiro os governos dos países que conduziram políticas irresponsáveis durante tanto tempo, segundo a Comissão Europeia por não ter percebido o problema e pela sua fraca capacidade de análise, pensando que se os países periféricos arrastassem défices durante anos a fio nada aconteceria, isso foi um erro enorme. E claro o mercado. O que é que os bancos estavam a pensar quando emprestaram dinheiro a estes países a taxas de juro baixíssimas quando se percebia que eles estavam a arrastara-se para ums situação de insolvência? O que devia ter acontecido é que deviam ter subido as taxas de juro muito mais cedo e assim estes países não tinham ficado nesta situação. Por fim, o FMI, que nem sequer cheirou a crise a chegar.

- Se Portugal e Grécia saírem do Euro e o futuro da moeda única ficar em risco, quais as consequências disso para a economia mundial?
- Enormes! E não estamos muito longe desse momento. O que se passa é que Portugal, Irlanda e Grécia são economias relativamente pequenas e a União pode aguentar o seu colapso, mas o mesmo não se pode dizer de Itália ou Espanha. O Fundo Europeu de Estabilidade Financeira (FEEF) tem 440 mil milhões e 250 foram gastos com Grécia e Portugal. Por isso, já não há dinheiro para socorrer Espanha ou Itália. A não ser que a Alemanha queira aumentar esse fundo para 1,5 ou 2 biliões.

- Com a crise em marcha em vários países (Portugal, Irlanda, Grécia), e adivinhando-se mais problemas em Itália e Espanha, o que é que devia ser feito?
- Só há uma alternativa: se a Alemanha e a França querem salvar o projecto europeu terão de injectar muito dinheiro. Eles têm de estar preparados para gastar muito dinheiro durante muitos anos. O Banco Central Europeu alertou que se a Grécia entrar em default (incumprimento) teremos uma enorme crise do sistema bancário na Europa, isto porque sabem que se a Grécia falhar, Portugal e Irlanda irão a seguir e depois a pressão sobre a Espanha e Itália será enorme. Estamos a falar de uma crise muito pior do que aquela que se seguiu à falência da Lehman em 2008/2009.

- Mas o euro ainda tem os seus adeptos.
- Seria muito agradável continuar a haver euro, mas não é possível. A partir do momento em que se criaram enormes desequilíbrios orçamentais todos sabem que eles não podem ser corrigidos dentro do euro.