Blog de Raimundo Narciso para reprodução por extenso de textos referidos nos seus outros blogs: Puxa Palavra, Memórias e A Grande Dissidência
2009-10-17
Uma "Casa Pia" monstruosa na Irlanda, todo o século XX
2009-10-10
O QUE FAREMOS COM ESTE PRESIDENTE?
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2009-10-05
Democracia sob avaliação
Artigo de João de Freitas Branco no Público de 2009-10-03:
«...Muito estimaria ver provada a inocência de quem deixou obra de mérito em Oeiras. Mas na situação actual, o voto em Isaltino é voto cúmplice de um alegado crime. É obscenidade política. Com tal voto, o eleitor confessa-se: se eu lá estivesse, teria feito o mesmo; teria prevaricado....»
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2009-10-03
Voto útil mais útil
2009-09-26
A deontologia e as suas "fontes"
“A obrigação de guardar sigilo é sempre uma relação “daquele” jornalista com a “fonte”. Essa obrigação não se estende a terceiros, mesmo que igualmente jornalistas”
6. O que foi relevante, do nosso ponto de vista, foi sentirmos que a divulgação do e-mail correspondia àquilo que nos é exigido como jornalistas.
2009-09-20
A questão principal
A investigação do provedor iniciou-se na sequência de uma participação do próprio adjunto de José Sócrates, Rui Paulo Figueiredo (R.P.F, queixando-se de não ter sido ouvido para a elaboração da notícia, apesar de T.N. ter recolhido cerca de seis meses antes a sua versão dos factos. O provedor apurou que na realidade TN., por solicitação de um dos autores da notícia, o editor Luciano Alvarez (L.A.), já compulsara no Funchal, logo após a visita de C.S., e enviara para a redacção informações que se convergiriam com aquilo que R.P.F. lhe viria a afirmar um ano depois (e que o correspondente entendeu não ter necessidade de comunicar a Lisboa, convencido de que o assunto morrera). Esses dados, contudo, não haviam sido utilizados na notícia (foi por tê-lo dito na crónica que o provedor recebeu de JMF o epíteto de mentiroso, não tendo recebido entretanto as explicações que logo lhe pediu).
2009-09-13
Subitamente neste Verão
Este caso não só se reveste de enormes implicações, por estar em causa a relação entre dois órgãos de soberania, como suscita diversas questões relacionadas com a prática jornalística, o que levou o provedor a aprofundar a sua investigação muito para lá da queixa do adjunto governamental, abrangendo todo o procedimento do PUBLICO no processo.
O provedor pôde concluir que o contacto inicial de um membro da PR com o jornal para se queixar da “espionagem” de S. Bento sobre Belém, e até da possibilidade de escutas telefónicas, se deu há cerca te 17 meses, pouco após a visita de C.S. à Madeira. Mas ao longo deste quase ano e meio a mesma fonte não apresentou qualquer indício palpável da existência dessas escutas, pelo que a possibilidade de termos aqui um Watergate luso, como chegou a ser inventado entre as inúmeras reacções que a notícia desencadeou, é no mínimo um insulto a Bob Woodward e Carl Bernstein, os jornalistas que denunciaram o caso original.
Salvo melhor prova, tudo não passa de um indício, sim, ma
O que dá toda a razão de ser à manchete inicial publicada pelo jornal. O provedor apenas estranhou demora: se o elemento da Casa Civil falou ao PUBLICO há quase ano e meio, porquê só agora, quando nada mais foi entretanto adiantado? Respondeu o director, José Manuel Fernandes: “Há ano e meio que o PUBLICO, através de vários jornalistas e de contactos estabelecidos por mim próprio, procurava recolher elementos para sustentar as informações dispersas que chegavam ao jornal relativas à existência de uma tensão entre Belém e São Bento que tinha ultrapassado o patamar da divergência política normal para se situar no da desconfiança sobre os métodos seguidos pelo gabinete do PM. (...) Nunca estivemos em condições de o noticiar, pois consideramos que não devemos utilizar fontes anónimas quando os visados desmentem em on as informações e não possuímos provas materiais. (...) Na véspera da saída da primeira notícia, um membro da Casa Civil do PR confirmou formalmente ao PUBLICO uma das várias informações de que há muito tínhamos conhecimento. (...) Como Jornalistas a nossa opção só podia ser uma: no dia em que uma fonte autorizada da Casa Civil do PR assume que no Palácio de Belém se suspeita de que o Governo montou um sistema para vigiar os movimentos do Presidente, essa informação tem uma tal importância e gravidade que só podia ter o destaque que teve. Pessoalmente acompanhei este processo e, como o Livro de Estilo prevê, (...) inteirei-me da fiabilidade das fontes e dei - luz verde à publicação da noticia.”
Pelo que o provedor percebeu, só há uma fonte, que é sempre o mesmo colaborador presidencial que tomou a iniciativa de falar ao PUBLICO em 2008, mas este milagre da multiplicação das fontes é uma velha pecha do jornalismo politico português e não vale a pena perder agora mais tempo com ela. Vale sim a pena dizer que essa fonte falou não só das escutas como da história do adjunto de Sócrates na Madeira, na tentativa de corroborar a tal operação de espionagem.
Claro que uma acusação dessa natureza deveria ser comprovada, e foi o que acertadamente começou por fazer L.A., ao pedir na altura a T.N. que confirmasse in loco a atitude do abelhudo R.P.F. retratado pela fonte da Casa Civil. Interpelado pelo provedor, relatou T.N.: “No final de Abril de 2008, alguns dias após a visita do PR à Madeira (...) fui contactado pelo editor LA. no sentido de apurar localmente dados para confirmar ou desmentir a suspeita de que o PR teria sido espiado pelo gabinete do PM. O suposto espião seria um adjunto do PM que na visita se teria introduzido indevidamente na comitiva, nomeadamente em actos e em almoços e jantares oficiais, em mesas de assessores de Belém, para as quais não estaria convidado. Após difíceis diligências (..), conclui que: os preparativos da visita, rodeada de exageradas medidas de segurança, foram controladíssimos pela Casa Civil da PR; (...) R.P.F. integrava a comitiva oficial do PR, constando o seu nome na lista de convidados para os diferentes actos oficiais e da comitiva restrita presente às audiências do PR com representantes das associações empresariais locais (...); R.P.F. integrava igualmente a lista de convidados para os almoços e jantares oficiais, - distribuídos pelas mesas sob prévia indicação dos serviços da PR. (...) Destas minhas conclusões dei conhecimento a LA., que, face aos dados apurados, deixou cair o assunto das suspeitas.”
O contacto que T.N. teve com R.P.F. ocorreu um ano depois: “Dada a sua presença no Funchal quando da visita do PM à Madeira (15 de Maio de 2009), confrontei-o pessoalmente com a situação, na tentativa de validar ou não as informações anterior mente por mim colhidas. As respostas dadas nada acrescentaram ao que eu próprio apurara um ano antes, e de que dera conhecimento a L.A. no início de Maio de 2008. Desde então nunca mais abordámos este assunto nos contactos quase diários que mantemos.”
Em conversa telefónica, T.N. adiantou ao provedor não ter comunicado à redacção o resultado do seu contacto com R.P.F. não só por reiterar as informações que já antes enviara mas também por pensar que, ao fim de 12 meses, o tema fora abandonado pelo PUBLICO.
Solicitados pelo provedor a explicar por que razão os dados recolhidos há ano e meio por T.N., e que de algum modo contrariavam a versão do assessor de Belém, não entraram na notícia sobre o “espião” de S. Bento, nem J.M.F. nem L.A. responderam (S.J.A. disse que a parte sobre R.P.F. não foi da sua responsabilidade, mas sim de L.A.).
Como o leitor já terá intuído chegado a este ponto, estamos perante um caso que se reveste de grande complexidade e gravidade, pelo que ao provedor não é possível esgotar a sua análise numa única crónica. Voltaremos ao assunto no próximo domingo.
2009-04-03
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Não se intimide. Coloque o rato sobre a imagem e à pergunta que lhe fazem: Vew in fullscreen? faça um clic com o rato. Depois ande com o rato para a esquerda ou a direita até à margem até ver numa delas uma seta. Clic nela e a página muda como se estivesse a ler um livro. Se gostou e também quer praticar, isto é postar no seu blog um livro ou um documento, da net ou do seu computador, é ir ao site do issuu (http://issuu.com) e andar por lá, ler as instruções, que foi o que eu fiz, e boa sorte.
2009-03-30
2008-11-02
Colóquio Tarrafal - uma prisão dois continentes. (2)
(Presidente da Direcção do Movimento Cívico Não Apaguem a Memória)
Assembleia da República
29 de Outubro de 2008
Sr Presidente da Assembleia da República,
Sr Ministro da Justiça,
Senhores Deputados,
Srª Governadora Civil de Lisboa,
Sr Presidente da Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados,
Srªs e Srs convidados
As minhas primeiras palavras vão para os ex-prisioneiros do Tarrafal aqui presentes a cujo exemplo de luta presto homenagem e simbolicamente, por seu intermédio, a todas as vítimas do fascismo e colonialismo português a todos os que lutaram pela liberdade em Portugal e nas suas antigas colónias .
Não Apaguem a Memória é o lema que guia o nosso Movimento e estou certo que hoje todos os participantes neste colóquio ajudarão a que ele ganhe expressivo significado.
O nosso trabalho, hoje aqui, dará uma resposta afirmativa à crítica-apelo do filósofo José Gil que no seu livro PORTUGAL, HOJE o Medo de Existir aponta o dedo ao país que somos, como o país da não inscrição, do país que recusa inscrever na sua história e na imagem que faz de si, os momentos mais negativos tornando recorrente a assombração de espectros insepultos.
Apesar de não me querer antecipar aos testemunhos e análises que aqui virão gostaria no entanto de referir entre os 32 mortos portugueses no Tarrafal o Secretário Geral do PCP, o operário Bento Gonçalves, e o dirigente da Confederação Geral do Trabalho, Mário Castelhano, e também quão jovens eram muitos dos que ali morreram alguns com apenas 24 anos de idade. A juventude dos presos não detinha a sanha persecutória da ditadura. Na primeira leva de 152 prisioneiros ia o grupo de 34 marinheiros da Organização Revolucionária da Armada, jovens, alguns com 19 e 20 anos. A estrear a colónia penal ia também, pai e filho, Gabriel Pedro e Edmundo Pedro este aqui presente, tinha então apenas 17 anos de idade. As torturas, as humilhações, a condenação à insalubridade, as condições climáticas extremas, o suplício na câmara de tortura que era a “frigideira” de má fama, a falta de apoio médico tinham na realidade o objectivo de condenar à morte os prisioneiros que não se vergassem aos ditames do fascismo em ascensão na Europa e representado em Portugal pelo supostamente piedoso ex-seminarista, António de Oliveira Salazar, que à beira do sacerdócio, em má hora, optou pela política.
A derrota dos fascismos na Europa pelos aliados, em 1945, obrigou o fechou a prazo do campo do Tarrafal o que se veio a verificar 9 anos depois, em 1954. Mas as lutas de libertação das colónias levaram o regime a reabri-lo, agora para os africanos.
O contexto internacional era agora muito menos auspicioso para o regime da ditadura mas nem por isso o regime prisional imposto aos africanos no “Campo de Trabalho de Chão Bom” foi menos violento e as barbaridades lá cometidas neste período, de 1961 a 1974 sendo ainda pouco divulgadas, serão seguramente aqui trazidas hoje por testemunhos de quem viveu esses tempos de ignomínia da nossa história comum.
O campo de concentração do Tarrafal tornou-se um símbolo. Um símbolo, sem dúvida trágico, mas revelador de que a luta pela liberdade não tem fronteiras, não escolhe continentes, nem raça, nem cor da pele e nela, no Tarrafal, irmanou europeus e africanos. O Tarrafal, primeiro para portugueses e depois para angolanos, guineenses e cabo-verdianos, constituiu a prova de que a luta de uns e outros era uma luta convergente. Mostrou que a luta pela democracia em Portugal fortalecia a luta pela libertação dos povos das colónias e a luta dos africanos pela libertação dos seus países era simultaneamente uma componente da luta dos portugueses pela conquista da democracia. Isso tornou-se particularmente visível com o movimento insurgente dos capitães que teve a sua origem no descontentamento com as guerras sem fim em África.
Permitam-me que evoque aqui um amigo que foi o último prisioneiro português a deixar o campo do Tarrafal, Francisco Miguel, onde viveu em completa solidão durante 6 meses antes de ser embarcado para Portugal em 26 de Janeiro de 1954. Reenviado para Portugal mas não para a liberdade pois do cais seguiu logo para a cadeia de Caxias e depois para a do forte de Peniche.
Francisco Miguel já tinham passado 5 anos na colónia penal na primeira vez que para lá fora condenado e agora completava mais três anos do total de 22 anos de prisão política que sofreu até à célebre fuga, em 1961, do forte-prisão de Caxias no automóvel blindado de Salazar, ali guardado.
Francisco Miguel era sapateiro mas no Campo do Tarrafal foi castigado com serviços mais duros e negaram-lhe a actividade na profissão. Quando mais tarde lhe ofereceram essa oportunidade, certamente por falta de mão de obra na especialidade, ele recusou e isso valeu-lhe 20 dias na terrível tortura da “frigideira”. Recusou de novo à saída e assim manteve uma prova de força várias vezes repetida a que dificilmente sobreviveu. Coragem e obstinação não lhe faltavam.
Francisco Miguel, membro do CC do PCP, estava em Paris em 1968, mas após muita insistência, (o seu partido não queria que após 22 anos de cadeia voltasse a ser preso) obteve autorização para regressar a Portugal para participar na organização que se preparava para acções armadas, contra o regime e que teriam como alvo principal a logística da guerra colonial, a Acção Revolucionária Armada.
Antes de conseguir uma casa clandestina em condições de defesa adequadas viveu comigo e com a minha mulher, na nossa casa clandestina, de então, em Benfica, durante uns dois meses e aí lhe ouvi as muitas histórias que tinha para contar do seu Alentejo, do Tarrafal, da prisão de Caxias, de Peniche, e das quatro fugas que empreendeu das prisões políticas. Com 62 anos regressou à luta na clandestinidade em Portugal em 1968. Não é exemplo único. Também com 70 anos de idade o ex-tarrafalista Gabriel Pedro então a viver com a família em Paris, também insistiu com a direcção do PCP para vir participar na primeira acção armada da ARA, em 1970, na sabotagem do navio Cunene o mais moderno cargueiro português ao serviço das guerras coloniais. Gabriel Pedro que conheci exactamente na execução dessa acção armada da ARA era com aquela idade um desenvolto operacional, homem de coragem inquebrantável, qualidades que transmitiu ao filho.
Numa pesquisa pela internet nos arquivos da Torre do Tombo sobre o Campo prisional do Chão Bom encontrei um grande número de documentos sobre os presos de países africanos alguns deles reveladores das arbitrariedades usadas contra os presos. Não sobre as brutais violências físicas, que essas não iam para o papel, mas sobre decisões de rotina tidas por naturais mas eloquentes da violência psicológica e moral sobre os presos.
Entre, esses documentos encontrei uma comunicação do director do Campo de Trabalho de Chão Bom para o Director provincial da DGS, em Angola, que leva a data de 14 de Agosto de 1970, em que expõe os bons métodos para “a recuperação social dos internados”.
A mãe de um dos presos o angolano Eduardo Santana Valentim, tinha conseguido finalmente fazer viagem de Angola para Portugal e daqui para Cabo Verde para visitar o filho condenado a 10 anos de internamento. Mas ao Sr. Director não parece bem que mãe visite filho e preocupa-se, isso sim, com a sois disant recuperação política, social e moral do preso que não estaria a obedecer aos seus persuasivos métodos.
Diz o Director do Campo para o director da DGS em Luanda que quase todos os elementos do grupo de 14 angolanos sob sua especial vigilância manifestam espírito orgulhoso e irreverente, “sobre que terá de exercer-se a nossa acção de esclarecimento e doutrinação, com os meios legais e humanos de que se dispõe;”
O director recomenda então: “O isolamento da família e o exercício de uma apertada censura (em que se inclui a interdição de noticiário e leitura de temas políticos, subversivos e sociais-reivindicativos)” e considera que “A visita da mãe de um deles – o mais responsável – nesta altura do cumprimento do internamento, é desaconselhável porque pode inutilizar parte do esforço dispendido na criação do ambiente destinado à sua possível recuperação para a sociedade”
Assim estávamos nesse ano de 1970 a quatro anos da revolução do 25 de Abril.
O colóquio que o Movimento Não Apaguem a Memória aqui hoje realiza foi planeado e organizado com a colaboração inestimável da Fundação Mário Soares que deu importante apoio logístico, da CPLP, da Amnistia Internacional, da Ordem dos Advogados, cuja participação muito agradecemos.
Esta iniciativa deve o seu êxito ao apoio do Senhor Presidente da AR, o Dr. Jaime Gama, do Senhor ministro da Justiça, Dr. Alberto Costa, do Senhor Ministro da Cultura, Dr. Pinto Ribeiro, do Sr Secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Cooperação, Dr. João Cravinho e da Sra Governadora Civil de Lisboa, Drª. Dalila Araújo, apoio esse que agradecemos.
Este acto público pretende também fixar o dia de 29 de Outubro, data da inauguração do Campo Prisional do Tarrafal, como o dia da Memória dos Resistentes e das vítimas da ditadura. É uma proposta da iniciativa do ex-tarrafalista Edmundo Pedro que a 9 dias de fazer 90 anos é um dos mais entusiastas associados do nosso Movimento.
O Movimento Não Apaguem a Memória é um movimento jovem. Tem 3 anos e com o estatuto jurídico de associação apenas 6 meses. Nasceu em protesto contra a transformação da sede da PIDE num condomínio privado de luxo sem que o Estado português tivesse qualquer preocupação de preservar a memória do local.
O Movimento Cívico Não Apaguem a Memória tem como única razão de ser a preservação da memória da luta da resistência à ditadura e pela liberdade e que comporta, obviamente, a luta contra o colonialismo. Pretendemos que os principais símbolos da opressão e da luta contra ela sejam condigna e adequadamente preservados. Não somos fundamentalistas nem queremos transformar em solo sagrado todas as prisões políticas ou locais de luta do passado mas queremos que os Governos, centrais e autárquicos, as instituições do Estado português passem a ter uma política de preservação da memória que honre o país e a democracia e que seja uma componente da preservação da nossa identidade.
Fizemos no passado recente uma petição à AR com 6 mil assinaturas, que incluíam as de dois ex-presidentes da República, Mário Soares e Jorge Sampaio e de um prémio Nobel, José Saramago, que culminou com uma Resolução Parlamentar (nº 24/2008) aprovada aqui na casa da democracia com o voto favorável de todos os deputados, que leva o título
Divulgação às futuras gerações dos combates pela liberdade na resistência à ditadura e pela democracia
e que determina:
A Assembleia da República resolve, …, recomendar ao Governo que crie condições efectivas, incluindo financeiras, que tornem possível a concretização dos projectos das autarquias e da sociedade civil, nas suas variadas formas de organização, designadamente:
1) Apoio a programas de musealização, como a criação de um museu da liberdade e da resistência, cuja sede deve situar-se no centro histórico de Lisboa (antiga instalação da Cadeia do Aljube), enquanto pólo aglutinador que venha a configurar uma rede de núcleos museológicos, podendo aproveitar-se outros edifícios que sejam historicamente identificados como relevantes na resistência à ditadura a par da valorização e apoio ao Museu da Resistência instalado na Fortaleza de Peniche. O Museu da Liberdade e da Resistência deve constituir-se como importante centro dinamizador, em articulação com escolas e com universidades e outras instituições e organizações que já hoje desenvolvem relevante e valiosa actividade na recolha de documentação e outro material com valor museológico, da investigação e da divulgação da memória da resistência à ditadura;
A aprovação desta Resolução por todos os grupos parlamentares teve uma grande importância simbólica mas para que não se reduza a um símbolo, por mais valioso e estimável que seja, procuraremos que ainda no actual Orçamento de Estado, apesar do tsunami da crise actual, se comece a honrar o que os deputados unanimemente decidiram.
Colóquio Tarrafal - uma prisão dois continentes.
Colóquio Internacional “Tarrafal – uma prisão, dois Continentes”
Assembleia da República
Lisboa, 29 de Outubro de 2008
Senhor Presidente da Assembleia da República
Senhores Deputados
Senhores Participantes
Assembleia da República hoje acolhe – não é um evento banal, não é mais
um colóquio sobre mais um tema. Reveste-se de especial significado para
a nossa memória e vida colectiva.
Por isso começo por prestar homenagem a todos os que o tornaram
possível e também à Assembleia da República e ao seu Presidente, Jaime
Gama, que em nome dos potugueses aqui o recebem.
Na construção do presente e do futuro dos homens, o passado e a
sua memória são guias que não podemos abandonar. É a memória que
nos põe alerta e é o esquecimento que nos deixa sem reflexos.
A memória do Tarrafal transporta-nos a um tempo em que
decisões políticas, administrativas ou pseudo-judiciais levavam ao
internamento, por tempo ilimitado, de milhares de opositores políticos e
sociais.
Uma secção especializada do aparelho prisional, concebida e
ordenada para fins de repressão política, estava preparada para dar
execução a essas decisões.
Além do Tarrafal, recorde-se Peniche, Aljube, Angra do Heroísmo,
Caxias, outras mais.
A poucos quilómetros da cidade onde estudei, nos anos sessenta,
na vila da Marinha Grande, existiam dezenas de operários vidreiros
opositores ao Estado Novo que tinham passado longos anos no campo de
concentração do Tarrafal e falavam dos tormentos, torturas e privações
que ai tinham sofrido e de mortes que tinham testemunhado. O avô de
um colega tinha morrido no Tarrafal. Esses relatos marcaram-me. Sei
ainda o nome de muitos desses tarrafalistas.
Foi com muita emoção que, no princípio dos anos noventa, integrei
como deputado, uma delegação da Assembleia da República que foi
homenagear, no Tarrafal, os que lá morreram e todos os que lá estiveram
internados vindos da Europa e da África.
A primeira fase da história do campo de concentração do Tarrafal
decorreu entre 1936 e 1954.
Custa a entender como, mesmo depois da derrota do nazismo, o
campo de concentração de Cabo Verde continuava a funcionar.
E custa ainda mais entender como professores de Direito altamente
conceituados, e ainda hoje citados, quando tiveram responsabilidades
neste domínio, aceitaram coexistir durante muitos anos com o recurso ao
campo de concentração e, obviamente, à pseudo-justiça dos tribunais
plenários.
Circunscrito pela distância e pela natureza hostil, o campo do
Tarrafal, segundo os relatos que ouvi de quem nele esteve internado,
constituía uma máquina planeada e calculadamente gerida, orientada
para a eliminação da vontade e da esperança dos seus internados, e,
algumas vezes, para a eliminação da própria vida.
Um campo de concentração – não em sentido figurado, mas em
sentido próprio.
É por isso que temos de dedicar esquecimento e desprezo aos que
se serviram desses campos e prisões ao serviço dos seus objectivos, e
prestar homenagem aos que enfrentaram e criaram as condições para
uma sociedade diferente, com garantias e direitos para cada homem, seja
qual for o seu continente.
O campo de concentração do Tarrafal teve um segundo fôlego: foi
reaberto durante a guerra colonial, a partir de 1961, e até à revolução de
1974.
Também então os que se ocupavam da justiça e da política
prisional acharam natural o regresso do campo de concentração, tantos
anos depois da derrota dos promotores históricos dos campos de
concentração.
Dos anti-fascistas aos anti-colonialistas, o campo continuava a
cumprir uma missão repressiva, para que se podia ser remetido por
decisões policiais, administrativas ou politicas – mas nunca
autenticamente judiciais, já que a instrumentalização politica das decisões
dos tribunais as qualificava, verdadeiramente, como pseudo-judiciais.
Quando reflectimos sobre a história da repressão politica em
Portugal no séc. XX, os tribunais plenários, na esfera judicial, e o campo
de concentração do Tarrafal, como forma extrema de encarceramento e
tendencial eliminação da vontade e da esperança dos seres humanos
internados, surgem-nos como as mais insidiosas realizações repressivas.
Esta memória é um património que devemos conservar.
Plenários e campos de concentração não conseguiram eliminar a
esperança, essa marca inigualável de luta pela humanidade. Foi essa luta
que prosseguiu e a democracia e independência que triunfaram.
Para, a partir de 1974, virem a ser construídas instituições
democráticas – uma institucionalidade sem lugar para prisões politicas,
campos de concentração e tribunais plenários, assente nos princípios do
Estado de Direito. Princípios que hoje queremos ver estendidos a toda a
humanidade, sem distinção de continentes.
Ao pensarmos nessa nova institucionalidade, ao usarmos essa nova
institucionalidade, julgamos muitas vezes que ela provem apenas dos que
elegeram e dos princípios que os eleitos decidiram acolher.
Perante aqueles que estão connosco e que estiveram no Tarrafal,
quero dizer que também a eles devemos algo que têm a ver com as nossas
instituições, as nossas esperanças e a nossa realização como humanidade.
A todos presto a minha homenagem. O Tarrafal não venceu. É o
vosso exemplo que continuará a marcar.
2008-09-20
Democracia e Deus
Para que fique claro: se não fosse português gostaria de ser americano, se não vivesse em Lisboa gostaria de estar em Nova Yorque. Não prefiro nem Londres, nem Paris, nem ser francês ou inglês. Não me move o menor sentimento anti-americano mas, tão-só, um sentimento anti-guerra no Iraque, uma repulsa por Guantânamo e, por consequência, um desprezo pelo presidente Bush filho. Penso que George W. Bush foi um presidente que deixou o Ocidente, e a democracia, num beco sem saída, à custa de centenas de milhares de vidas humanas e de princípios de liberdade e de civilização que todos defendemos e que pensávamos pacíficos e adquiridos por todos. Já o tinha dito mas vale a pena repetir.
Um dos problemas de implantação de um sistema democrático em qualquer país é que este tem de ser consequência de um desejo sincero do seu povo. Por isso, democracia no Iraque, ou em muitos países africanos, deixa sempre a sensação de um arremedo e de uma farsa, Quando a democracia é imposta por forças ou coacção externas nada parece. Nem será o mesmo.
Por outras palavras, o acto democrático de eleger um governo tem de partir de uma população cujo único compromisso seja para com a política. Se o compromisso é, antes de tudo, com o grupo étnico a que pertence, ou com o deus da religião que professa, então não pode haver votação politicamente válida nem governo verdadeiramente democrático. Se quem vota escolhe necessariamente o seu líder tribal ou o seu líder religioso, por oposição a outra etnia ou a outra religião, então não há liberdade na eleição. Se a fidelidade religiosa ou étnica se sobrepõe à escolha política, não há escolha democrática. Não está em causa que o religioso não tenha influência nos valores de cada cidadão e, como tal, tenha influência no voto. Outra coisa bem diversa é a opção religiosa ditar o sentido de voto sem que haja a possibilidade de uma escolha política do líder ou do partido em que votar.
Há exemplos vários deste desvio democrático. No Iraque, os xiitas votaram xiita, os curdos votaram nos líderes curdos e os sunitas nos seus líderes religiosos. As eleições não foram uma escolha política, mas apenas um senso estatístico de cariz étnico e religioso, nada mais.
Porque razão uma fidelidade acima da política põe em causa a democracia? A resposta é simples. Se há uma fidelidade religiosa que impõe uma única opção, então não há discussão política. Não há forma racional de convencer a senhora Sarah Palin de que a guerra do Iraque foi, pelo menos, um grave erro. A partir do momento em que ela considera a invasão do Iraque pelas tropas americanas como um plano de Deus, a discussão deixa de ser política e passa a ser uma discussão religiosa. Estar contra a invasão do Iraque é, para ela, estar contra o cristianismo: a discussão passa a ser entre a Bíblia e o Alcorão. Entramos, na melhor das hipóteses, numa discussão teológica; na pior, numa guerra religiosa, em que ninguém pode ter - razão, porque se deixou o domínio da discussão racional dos princípios para outra esfera.
Este mesmo raciocínio se aplica a Africa, onde a maioria das escolhas eleitorais são, antes demais, escolhas étnicas. O interessante é que Angola pode ser, em parte, uma excepção, por causa da guerra. As várias guerras civis fizeram deslocar populações inteiras causando urna mistura em volta das cidades que fez esbater as fronteiras étnicas. Pelo menos foi essa a percepção de quem seguiu o processo à distância. Os problemas das eleições angolanas, que os houve, foram de outra ordem, como sabemos.
Esta é também uma boa razão para não evoluirmos para um sistema uninominal nas eleições para a Assembleia da República. Corremos o risco, num sistema uninominal, de os cidadãos de Castelo Branco só votarem num albicastrense, o que implicaria uma fidelidade regional a sobrepor-se a uma opção partidária e até de escolha entre qualidades pessoais. Sei que há mais argumentos e este é, apenas, um perigo. Um dia falaremos do assunto, agora a minha questão é outra: opções de grupo que se sobrepõem a opções políticas e partidárias.
A posição de Sarah Palin vem no seguimento de outros políticos e de um reaccionarismo social (e político) impensável ainda há bem poucos anos. Já não bastava saber-se que a candidata só tem passaporte desde há um ano o que implica que não conhece o mundo mas travestir uma discussão da esfera política para a esfera do religioso é um precedente perigoso. Perigoso para o Ocidente e para a democracia, que não deve ser confundida com uma opção religiosa contra alguém. E que, numa discussão religiosa, há dificuldade em distinguir um fundamentalista islâmico de um fanático cristão, e nós, politicamente, nada temos a dizer sobre tais discussões. A
não ser que esta é mais uma boa razão para votar Barak Obama. Sem hesitações. Professor universitário.
Luís Campos e Cunha
2007-12-31
O desejo de futuro
De há uns tempos para cá, vozes muito dissemelhantes parecem insinuar, se não explicitamente afirmar, que não há futuro para ninguém ou que vivemos tempos em que ninguém se arrisca a qualquer gesto de protensão ou actividade de prognose. Conheceríamos uma era em que teríamos já desistido ou teríamos de desistir de tentar imaginar ou desejar um rosto para o futuro. Esta situação dever-se-ia a um medo que inibe a própria imaginação e de que padeceríamos para além de todo e qualquer pessimismo individual ou grupal.
E contudo se não houver futuro, se não tivermos futuro, seremos como dizia o outro, “cadáveres adiados que procriam”. Porque aquele medo se torna uma patologia do desejo, uma tão brutal antecipação simbólica da morte que inibiria todo o imaginário, amputaria a capacidade de simbolização e tornaria toda a esperança uma ilusão ou um produto do sono da razão. Ora nós precisamos do futuro como do ar que respiramos.
A perda do desejo de futuro seria, segundo alguns, uma lição aprendida com a experiência social e histórica disponível. Pois não é verdade que todas as revoluções acabaram traídas pelos revolucionários? Pois não é verdade que a história do séc. XX é uma história de catástrofes e de massacres, é a história do fim das ideologias emancipatórias? Eis a “experiência histórica disponível” reduzida a essa pobre e desgraçada fórmula da resignação fatalista
- “sempre houve pobres e ricos e portanto sempre os há- de haver”. Respondamos perguntando o que significa “disponível”. Não seria melhor dizer “disponibilizada” pelos senhores da comunicação planetária?
E contudo não há experiência histórica, não há história sem a categoria do futuro, mesmo que essa categoria seja a de uma falta ou ausência, que se desloca e move no passado a reconstruir, e no presente que reencena o passado. Porque a história viva, ao reencenar o passado, só o pode articular através da disputa de determinados possíveis, uns que se concretizaram, outros que foram derrotados. Essa disputa interessa ao conflito entre os possíveis do presente em que o historiador ou o sujeito da experiência histórica se inclina sobre o passado, ao mesmo tempo que escrutina o seu presente. O que aconteceu podia não ter acontecido; mas de facto aconteceu.
Mas apagar a luta dos possíveis significa fixar, imobilizar ou paralisar o que aconteceu; a história desaparece na repetição do mesmo. Tal paralisia, desencadeando a repetição, tomando fatal todo o acontecido, torna a história uma narrativa profética, uma profecia dos vencedores: será sempre assim, porque sempre assim foi. Aliás, a tese sobre o “fim da história” começa por ser uma história mal contada e, mais do que um diagnóstico, representa unia tentativa de eternização de um presente reduzido e um bloqueamento do futuro por esgotamento dos possíveis. Nós, na “tradição dos oprimidos” (Walter Benjamin), aprendemos a não ceder aos desastres, aprendemos a trabalhar para este tempo contínuo das derrotas e a perscrutar os momentos em que algo de diferente foi possível, mesmo que por umas semanas ou meses ou décadas. O trabalho da esperança que magoa ensina-nos que o que foi possível, e logo derrotado, será possível (de outra forma) outra vez.
Para outros, a ausência de abertura ao futuro se ria resultado de uma limitação própria da acção humana orientada por fins gerais e últimos. O sujeito pós-moderno teria finalmente reconhecido que as acções humanas seriam no limite inconsequentes ou, no mínimo, de fraca consequência, quando não perversamente contraproducentes, uma vez que a evolução das sociedades seria um processo de tal forma multivectorial e complexo que seria de facto incomensurável para a inteligência, a consciência e acção humanas. As tentativas de orientar os processos sociais, para além de alguns ajustes e correcções com objectivos à vista, seriam uma tentação voluntarista, própria de um sujeito moderno, que implicaria de raiz uma violência destruidora, desencadeada sobre “o curso natural (= fatal) das coisas” e traria no seu cerne a ameaça do totalitarismo.
E contudo tudo se transforma. Transforma-se o mundo em nós e fora de nós. E da mudança dos tempos e das vontades, nós participamos. Não como animais caminhando para o abate, nem como demiurgos incondicionados. Mas como agentes procurando
o máximo de consciência possível, estendendo as mãos e tacteando os possíveis; fazendo de acordo com os tempos a vinda de um outro tempo. Não somos adivinhos, nem sabemos rigorosamente prever qual será o rosto do futuro, mas isso não nos impede de o desejar. O carácter profundamente transformador do trabalho humano, o facto de uma criança de dois anos ser capaz de produzir uma frase que nunca ouviu, o facto de a poesia reinventar a língua em que se escreve, o facto de as artes serem construções antropológicas e de os humanos se configurarem e reconfigurarem, segundo uma auto poiesis histórica, são fundamentos suficientes para que nos possamos, sem mais garantias, prometer um futuro, “uma terra sem amos”. Porque nós habitamos o mundo, e o mundo é a nossa tarefa.
*Ensaísta
2007-11-11
NÃO FOI BEM ASSIM
Agora que cessou o interesse mediático suscitado por Foi Assim (Alêtheia Editores, Lisboa 2007), vale a pena comentar e corrigir informações e juízos que o livro contém, designadamente em relação à União de Estudantes Comunistas (UEC), de que Zita Seabra foi dirigente. Estando ainda por fazer uma história da UEC, e dada a importância que esta organização autónoma do PCP teve no desenvolvimento do movimento estudantil português entre 1972 e 1980, parece-me de facto importante indicar os limites da particular versão da história da UEC transmitida no livro de Zita Seabra. Faço-o na minha qualidade de activista do movimento estudantil entre 1971 e 1979 e de militante e dirigente da UEC entre 1974 e 1980. Além do que a minha memória guardou, tive o cuidado de consultar outros ex-militantes e ex-dirigentes da UEC e de compulsar documentação vária.
O relato da história da UEC a que Zita Seabra procede em Foi Assim caracteriza-se, antes de mais, por algumas inexactidões factuais. Aponto de seguida algumas delas (que se referem apenas a situações que eu vivi directamente).
Assim, Zita Seabra afirma que, em 1972, «A UEC tinha praticamente uma só associação de estudantes, no ISCSPU. Nesta escola, quando Veiga Simão enviou os “gorilas” o director Adriano Moreira opôs-se e ameaçou demitir-se se eles entrassem, coisa que efectivamente fez» (p. 185). Nesta frase há duas inexactidões. Primeira: antes do 25 de Abril, a UEC não «tinha» a associação de estudantes do ISCSPU. Esta era composta por um conjunto diversificado de activistas estudantis de esquerda, nenhum dos quais era então militante da UEC. Segunda: Adriano Moreira não era director do ISCSPU aquando da introdução dos «gorilas» nesta escola. Quem introduziu os «gorilas» no ISCSPU foi o seu então director Vasco Fortuna. Quanto a Adriano Moreira, tinha sido afastado da direcção da escola na sequência da crise académica de 1969. Não pôde pois, «efectivamente», demitir-se de um cargo que já não ocupava.
Na página 191 de Foi Assim, Zita Seabra escreve, referenciando-se ao período imediatamente anterior ao 25 de Abril: «A pouco e pouco, começámos a ter bons quadros e o organismo dirigente era fantástico: Francisco Bettencourt, o Sérgio, a Geninha Varela Gomes que controlava os liceus, a Milá do ISCSPU e a Inês de Letras». Há aqui um erro de datação: tanto «a Milú do ISCSPU» como a «Inês de Letras» não pertenceram, nem poderiam ter pertencido, a nenhum organismo dirigente da UEC antes do 25 de Abril, uma vez que só aderiram à UEC em 1974.
Na página 245, Zita Seabra refere que, em 1974, aquando de um «ataque» da UEC ao Técnico, «alguns UECs ficaram gravemente feridos», Não é verdade: dois estudantes da UEC — eu próprio e uma militante do Técnico — foram de facto «capturados» por militantes maoistas e conduzidos a um anfiteatro do Técnico, onde se iniciou um «julgamento popular» que foi depois abandonado a meio. Houve empurrões, bofetadas, mas ninguém ficou «gravemente ferido».
Na página 255, Zita Seabra escreve, a propósito do Serviço Cívico Estudantil, que este teria vindo «Na sequência das campanhas de alfabetização do MFA». Também não é verdade: quem organizou as campanhas de alfabetização do Verão de 1974 não foi o MFA, mas a Comissão Pró-União Nacional dos Estudantes Portugueses (Pró-UNEP), «controlada» então pela UEC.
Mas, mais além destas incorrecções, o livro de Zita Seabra fornece uma versão da história da UEC entre 1976 e 1980 (metade da história da UEC) que não corresponde à realidade. De acordo com essa versão, em Agosto de 1977, na sequência do assassinato de Sita Vales em Angola, a UEC teria entrado em profunda crise e, pouco depois, teria desaparecido. Assim, nas páginas 314-315, Zita Seabra escreve que «Em silêncio ou com gritos abafados, a organização entrou em crise. [...] A maioria dos militantes e dos funcionários saiu nessa altura da organização».E antes na página 311, tinha já estabelecido um vínculo entre a morte da Sita Vales e o fim da UEC: «na sequência dessa tragédia», «muitos militantes saíram, abandonaram a organização […] Saíram militantes, dirigentes e funcionários, e a UEC acabou pouco depois».
Tenho o maior respeito pela memória da Sita Vales — com quem trabalhei directamente — e, entre os militantes mais «velhos» da UEC, que a tinham conhecido, o seu assassinato foi de facto experienciado com perplexidade e revolta. Mas, por um lado, essa situação foi vivida de forma mais contraditória do que é sugerido por Zita Seabra: nos dois lados do confronto em Angola havia ex-militantes da UEC. Por outro lado, por maior que continue a ser a minha revolta em relação ao assassinato da Sita Vales, não é possível estabelecer um nexo causal entre as reacções que este suscitou em muitos militantes da UEC e o fim da organização.
De facto, a UEC só acabou em Maio de 1980, quando foi criada a Juventude Comunista Portuguesa (JCP). E a história da UEC nos anos que antecedem o seu fim é diferente daquela que Zita Seabra conta no seu livro.
Em 1976, na sequência de numerosos erros políticos cometidos durante o PREC, a UEC tinha batido no fundo. Era uma organização desmoralizada, em que eram cada vez mais audíveis as vozes críticas em relação à direcção, com uma imagem de sectarismo muito vincada e uma influência reduzidíssima no movimento estudantil. Em consequência, no 2º. semestre de 1976, iniciou-se um processo de profunda autocrítica e reestruturação da linha política da organização, acompanhado de perto pela direcção do PCP. Esse processo foi secundado pela saída gradual de alguns dirigentes históricos da UEC, que atingiu o seu ponto culminante em Junho de 1977, com a eleição de um novo Secretariado da Comissão Central da UEC, onde passou a «pontificar» Joaquim Pina Moura, entretanto eleito membro suplente do Comité Central do PCP. Uma das dirigentes substituídas na altura foi justamente Zita Seabra, que, de resto, desde finais de 1976, perdera grande parte da sua influência na direcção da UEC, uma vez que esta tinha passado a ser acompanhada directamente por Jorge Araújo, da Comissão Política e do Secretariado do PCP.
No decurso do ano lectivo de 1976-77, graças tanto ao «refrescamento» da direcção da UEC como às consequências práticas do processo de auto-crítica encetado, a UEC começou a descolar do fundo. Essa descolagem foi particularmente significativa ao nível da chamada «influência de massas». Em Junho de 1977, 26 por cento do total de estudantes eleitos para as Assembleias de Representantes das escolas do ensino superior tinham sido eleitos em listas dinamizadas pela UEC e 12 Associações de Estudantes (AAEE) do ensino superior — num total de 33—eram agora influenciadas pela UEC. No ensino secundário, os números também eram expressivos: as listas organizadas pela UEC estavam representadas em 97 Conselhos Directivos e 50 — de um total de 119 AAEE — eram influenciadas pelos estudantes comunistas. De 1977 a 1980, a influência da UEC no movimento estudantil não cessou de crescer. De tal maneira que, em 1980, nas vésperas do Congresso de fundação da JCP, 21 em 42 AAEE do ensino superior eram influenciadas pela UEC, com destaque para Lisboa, onde a UEC detinha uma clara maioria, influenciando 15 em 22 AAEE. Também no final desse ano lectivo e ainda no ensino superior, 35 por cento dos estudantes eleitos para as Assembleias de Representantes tinham sido também eleitos em listas organizadas pela UEC. Para o ensino secundário há dados menos seguros, mas parece ter-se assistido a um crescimento idêntico da influência da UEC.
No chamado «plano orgânico» foi também de crescimento a nota dominante. Em 1978 — ano em que se realizou o 1° e único Congresso da UEC — era de cerca de 8000 o número de militantes da UEC, 2000 dos quais tinham aderido à UEC entre Setembro de 1977 e Janeiro de 1978. Nas vésperas do Congresso fundador da JCP, esse número tinha crescido para perto de 12 000 inscritos, máximo histórico com o qual a UEC pôs fim à sua existência.
Para escrever este texto falei com vários ex-militantes e ex-diligentes da UEC, alguns deles — como eu — sem qualquer vínculo actual com o PCP. Muitos deles não tinham lido Foi Assim e foram lê-lo. Muitos deles, também, sugeriram que «a Zita» tinha escrito o livro — na parte tocante à UEC — de má fé. Não creio que seja má fé. O escritor Mário de Carvalho — numa frase particularmente feliz — escreveu uma vez que há pessoas que confundem o «Manuel Germano com o Género Humano» (cito de cor). Penso que aconteceu isso com «a Zita»: confundiu a história da sua relação com a UEC com a história da UEC. É natural. Mas é também natural que quem não se reconheça nessa história apresente as razões porque o Género Humano não se reduz ao Manuel Germano.
• JOÃO LEAL
2007-11-05
A GRANDE NEGOCIAÇÃO COM O IRÃO
O espectro de uma bomba nuclear atemoriza árabes e israelitas sem distinção, mas são os Estados Unidos e Israel a força motriz por trás dos esforços para travar as ambições nucleares do Irão. O triângulo América-Irão-Israel é onde está a chave do problema e onde pode residir a sua solução.
Embora a revolução islâmica do ayatoilah Khomeini, em 1979, tenha desfeito a velha aliança de Israel com o Irão, os dois países continuaram a fazer negócios com a bênção americana. O caso Irão-Contras dos anos 1980, quando Israel fornecia anuas à República Islâmica na sua guerra com o Iraque, é um exemplo. Israel e o Irão, duas potências não-árabes num ambiente árabe hostil, partilhavam interesses fundamentais que a revolução islâmica não podia alterar.
Foi durante o governo de Yitzhak Rabin, no início dos anos 1990, que Israel e o Irão entraram em conflito aberto, devido a uma mudança de estratégica regional após a vitória da América na guerra do Golfo de 1991 e do colapso da União Soviética.
O processo de paz israelo-árabe patrocinado pelos EUA resultou numa série de extraordinários progressos - a Conferência de Paz de Madrid, os Acordos de Oslo, o tratado de paz de Israel com a Jordânia e a sua quase reaproximação à Síria, e ainda a entrada de Israel em Estados árabes, de Marrocos ao Qatar - que se tornaram no pior pesadelo de um Irão cada vez mais isolado.
Foi nesta encruzilhada que Israel e o Irão, duas potências aspirantes à supremacia num Médio Oriente em rápida mudança, decidiram colocar a sua competição estratégica em termos ideológicos. O conflito é agora entre Israel, um raio de democracia a lutar contra a expansão de um império obscurantista xiita, e um Irão que optou por proteger a sua revolução mobilizando as massas árabes em nome de valores islâmicos e contra os vis governantes que atraiçoaram os despojados palestinianos.
Mais um inimigo da reconciliação israelo-árabe do que propriamente de Israel, o recurso dos mullahs a um incendiário discurso antijudaico e pan-islâmico destina-se a pôr fim ao isolamento do Irão e a apresentar as suas ambições regionais de um modo atractivo às massas sunitas.
Num Médio Oriente árabe, o Irão é o inimigo natural; num mundo islâmico, o Irão é um potencial líder. Ironicamente, o Irão tem sido o principal apoiante da democracia árabe, porque a melhor maneira de prejudicar os actuais regimes é promover movimentos islamistas de base popular, como o Hezbollah no Líbano, a Irmandade Muçulmana no Egipto, o Hamas na Palestina e a maioria xiita no Iraque.
Yitzhak Rabia acreditava que a paz israelo-árabe poderia impedir um Irão nuclear, mas agora o seu pesadel6parece aproximar-se rapidamente. Como uma potência anti-statu quo, o Irão não procura capacidade nuclear para destruir Israel mas para ganhar prestígio e influência num ambiente hostil e como escudo no seu desafio à ordem mundial.
No entanto, Israel tem todas as razões para se inquietar porque um Irão nuclear vai destruir a promessa do sionismo de garantir um refúgio aos judeus o núcleo da própria estratégia israelita de “ambiguidade nuclear”
- e reforçará os seus inimigos por toda a região. Também provocaria uma incontrolável proliferação nuclear, com a Arábia Saudita e o Egipto a liderarem a corrida.
Um ataque militar às instalações nucleares do Irão é muito perigoso e os seus resultados incertos. E, por mais severas que sejam, as sanções económicas não farão o Irão ajoelhar-se. Também não é claro que a divisão na elite iraniana entre puristas revolucionários e aqueles com mentalidade de classe mercantil possa conduzir em breve a uma mudança de regime. Contudo, ser radical não significa, necessariamente, ser irracional, e o Irão revolucionário já deu frequentemente provas do seu pragmatismo.
Na equação americano-iraniana foram os Estados Unidos, não o Irão, a conduzir uma rígida diplomacia ideológica. O Irão apoiou os EUA durante a guerra do Golfo de 1991, mas ficou de fora da Conferência de Paz de Madrid. O Irão também apoiou a América na sua guerra para derrubar os taliban no Afeganistão. E quando as forças norte-americanas derrotaram o exército de Saddam Hussein na Primavera de 2003, os cercados iranianos propuseram uma grande negociação que colocaria todas os contenciosos na mesa, da questão nuclear a Israel, do Hezbollah ao Hamas. Os iranianos também prometeram deixar de obstruir o processo de paz israelo-árabe. Mas a intransigência dos neoconservadores - “Nós não falamos com o Diabo” - excluiu qualquer resposta pragmática à démarche iraniana.
O sentimento iraniano mudou quando toda a estratégia da América para o Médio Oriente naufragou, mas a grande negociação continua a ser a única saída viável para o impasse. Isto não se conseguirá, porém, através de um inevitável regime de imperfeitas sanções, ou pelo recurso da América à lógica da Guerra Fria com vista a quebrar a espinha do Irão arrastando-o para uma ruinosa corrida às armas.
A crescente influência regional do Irão não deriva das suas despesas militares, que são muito inferiores às dos seus inimigos, mas do seu desafio à América e a Israel através de um astuto uso de soft power.
Não há melhor maneira de esvaziar a estratégia regional do Irão de desestabilização do que uma ampla paz israelo-árabe acompanhada de maciços investimentos em desenvolvimento humano e seguida de um sistema internacional de paz e segurança num Médio Oriente livre de armas nucleares, incluindo Israel.
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* Ex-ministro dos Negócios Estrangeiros de Israel
PÚBLICO/Projectsyndicate
www.project-syndicate.org

