2005-04-01

Sistema de comunicações está sob investigação

O texto abaixo foi copiado daqui no Público.
30.03.2005 - 09h53 Mariana Oliveira (PÚBLICO)


O Ministério Público abriu um inquérito ao negócio de mais de 500 milhões de euros relativo ao sistema de comunicações que o ex-ministro da Administração Interna, Daniel Sanches, e o ex-titular da pasta das Finanças, Bagão Félix, adjudicaram três dias após as legislativas, apurou o PÚBLICO. A abertura do inquérito surge na sequência de uma notícia do PÚBLICO, na qual se revelava que o consórcio vencedor é liderado pela Sociedade Lusa de Negócios, uma holding que detém a Pleiade, uma empresa administrada por Daniel Sanches até integrar o Governo.


Dias Loureiro, antigo ministro da Administração Interna de Cavaco Silva, é administrador não executivo do grupo presidido por Oliveira e Costa, antigo secretário de Estado da Administração Fiscal. O actual Governo está a reavaliar o processo.

A comissão de avaliação responsável por analisar as propostas para a criação deste Sistema Integrado das Redes de Emergência e Segurança (SIRESP) - que permitirá a interligação entre as diversas forças policiais, a emergência médica e a protecção civil - obrigou o único consórcio candidato, liderado pela Sociedade Lusa de Negócios, a baixar em cerca de um quarto o preço inicial. Concretamente: o consórcio reduziu aquele valor em mais de 173 milhões de euros, para justificar a parceria público-privada do SIRESP. Em suma, as análises financeiras da comissão concluíram que, se o Estado entrasse só no negócio, poderia poupar cerca de 170 milhões de euros, pelo que forçou a descida do valor da proposta.

Esta descida resulta do cálculo do custo público comparado, uma análise financeira que permite avaliar que gastos teria a administração se optasse por levar a cabo o projecto sozinha. Só assim é que o Estado sabe se será ou não vantajosa uma parceria com os privados. No entanto, segundo o presidente da comissão, almirante Alves Correia, o valor da adjudicação do SIRESP é apenas "ligeiramente inferior" ao valor que o Estado desembolsaria sozinho para criar o sistema, pelo que esta parceria com os privados não será muito vantajosa.

O consórcio - composto pela Sociedade Lusa de Negócio (43 por cento), PT Ventures (30 por cento), Motorola (15 por cento) e Esegur (empresa do grupo Espírito Santo com 12 por cento do capital) - apresentou uma proposta de candidatura de 711 milhões de euros (custo total que o Estado teria de pagar ao longo de 15 anos), o que ultrapassava em cerca de 170 milhões de euros o custo público comparado. Para Alves Correia, este valor era "demasiado caro" face ao pretendido. "Entrámos em negociações para levar o preço do sistema para valores considerados minimamente adequados ao interesse público", sustenta. As negociações duraram mais de um ano e os 711 milhões de euros iniciais baixaram para 538 milhões.

O presidente da comissão alega que preferia ter recebido mais do que uma candidatura e admite que a concorrência poderia ter trazido condições mais vantajosas para o Estado. No entanto, lembra que o facto de haver apenas um candidato - os outros não chegaram a apresentar uma proposta, alegando alguns que tudo estava previamente decidido - não era suficiente para cancelar o concurso. Contesta, porém, a justificação dada por alguns dos desistentes. "As empresas não concorreram, mas não é pelas razões que apresentam", sustenta. O almirante revela que houve uma intenção por parte da comissão em apressar a conclusão dos trabalhos. "Não queríamos que o processo ficasse suspenso à espera de um outro Governo", justifica.

2005-03-25

Barros Moura

Quando Barros Moura morreu, em 25 de Março de 2003, com 58 anos de idade, publiquei no jornal "O Público", o artigo seguinte:

Barros Moura - O género de político que faz falta. José Barros Moura travou a sua última batalha com a coragem e o denodo que se lhe conhecia no combate político. Ele sabia que a hora fatal chegara mas não sucumbiu. Olhou a morte de frente e usou todas as suas forças na humana e vã tentativa de a vencer. Até ao último momento. Na madrugada de ontem.
Há batalhas que se não podem ganhar. Também na sua vida política apesar das muitas vitórias perdeu alguma batalhas. É certo que ele era o célebre IBM (Inteligente Barros Moura), cognome que lhe ficara dos bancos da universidade em Coimbra mas, convenhamos, faltava-lhe alguma “inteligência”. Ou antes, recusava-se a usá-la. Aquela “inteligência” guia dos que andam na política para, acima de tudo, tratarem da sua vidinha. Era uma falha em Barros Moura... Era uma fonte de admiração e respeito por Barros Moura! Alguns dos seus amigos sabiam desta sua assumida imprudência. E compraziam-se. Reviam-se nela.
Barros Moura defendia princípios, lutava por convicções. Mesmo - excêntrica ousadia! - contra os poderes instalados. Isso fatalmente o impediria de vencer algumas batalhas. No PCP, a defesa das convicções contra a “convicção” da Direcção valeu-lhe a expulsão em Novembro de 1991. E no PS, por exigir transparência em Felgueiras custou-lhe a exclusão, nas últimas eleições legislativas, da lista de deputados no Porto e a não eleição para a Assembleia da República. Magoou-o mas não o venceu. Por tudo isto Barros Moura era um exemplo na política portuguesa por isso ganhou a estima e amizade de muitos e o respeito de todos.
Tornou-se uma referência no panorama político português, quando ao ser expulso do PCP, por escrúpulos de ordem ética, sem que politicamente nada o obrigasse, entregou o seu lugar de deputado no Parlamento Europeu ao PCP, mostrando que não estava ali pelo dinheiro mas pela política.
Barros Moura foi Líder nas lutas académicas em Coimbra contra o fascismo, membro do núcleo duro do MFA na Guiné como oficial miliciano, deputado do Parlamento Europeu na bancada do PCP e depois do PS, deputado e membro da direcção parlamentar do PS na anterior legislatura. Barros Moura tornava-se notado pela sua inteligência, rigor e elevada prestação.
Barros Moura é o género de político que faz falta. E deixa saudade.

2005-03-05

O Governo de José Sócrates

foi apresentado ao Presidente da República e seguidamente anunciado ao país, às 20 horas de 4 de Março de 2005, e tem a seguinte composição:

António Costa - Estado e Administração Interna
Diogo Freitas do Amaral - Estado e Negócios Estrangeiros
Luís Campos e Cunha - Estado e Finanças
Pedro Silva Pereira - Presidência
Alberto Costa - Justiça
Francisco Nunes Correia - Ambiente, Ordenamento do Território e Desenvolvimento Regional
Manuel Pinho - Economia e Inovação
Jaime Silva - Agricultura, Desenvolvimento Rural e Pescas
Mário Lino - Obras Públicas, Transportes e Comunicações
José António Vieira da Silva - Trabalho e Solidariedade Social
António Correia de Campos - Saúde
Maria de Lurdes Rodrigues - Educação
Mariano Gago - Ciência, Tecnologia e Ensino Superior
Isabel Pires de Lima - Cultura
Augusto Santos Silva - Assuntos Parlamentares.

2005-01-29

Vidas na Clandestinidade

As "Notas sobre a minha vida na clandestinidade" que a seguir se publicam, foram escritas na sequência de um pedido de Sandra Cristina Almeida que as publicou no seu Blog História e Ciência em 11 de Outubro de 2003

Notas sobre a minha vida na clandestinidade
Maria Machado
Odivelas, 7 de Outubro de 2003.

Vale de Vargo é uma aldeia do concelho de Serpa na margem esquerda do Guadiana, quase na fronteira com Espanha. São daí os meus pais e foi aí que eu nasci, em 1949.
Na aldeia quase todas as pessoas eram trabalhadores assalariados sem terra. Durante o ano havia muitos dias e muitas semanas sem trabalho e isso era imediatamente a fome. Lembro-me duma manifestação, à qual se juntou toda a nossa família, em que as pessoas levavam bandeiras pretas e gritavam temos fome, temos fome. Quando o trabalho faltava muitas pessoas iam pelos campos para comerem a fruta que encontrassem.
Esta insustentável situação só se mantinha com a GNR. Volta não volta ouvia os meus pais comentarem a prisão de vizinhos. Receávamos que mais tarde ou mais cedo também levassem o meu pai. Foi o que acabou por acontecer. A nossa casa estava entre aquelas que a GNR "visitava" de cada vez que havia protestos dos trabalhadores agrícolas. Eu e as minhas irmãs, como muitas outras crianças de Vale de Vargo, crescemos no medo da GNR.

Tinha 8 anos quando os meus pais tiveram de passar à clandestinidade. Foram para local desconhecido que depois soube ser o Barreiro. Levaram a minha irmã mais velha porque já tinha terminado a instrução primária e a mais nova porque ainda não chegara à idade da escola.
Três anos depois, aos 11 anos, passei eu também à clandestinidade mas, apesar de me terem dito que era uma vida muito difícil e não podia fazer a vida das outras crianças, a clandestinidade para mim vinha acompanhada da alegria de ir viver com os meus pais e as minhas irmãs. No entanto, com a minha chegada deu-se o regresso da irmã mais nova (Maria José) para frequentar a escola e poucos meses depois partiu a mais velha (Luísa Basto) para a União Soviética onde foi estudar e depois terminou um curso superior de canto.

Ajudava os meus pais a imprimir o Avante, O Militante, panfletos, em papel bíblia muito fininho para os seus leitores o poderem esconder facilmente da PIDE.
Era um trabalho feito nas casas que habitávamos e os meus pais alugavam com nomes falsos. Usávamos umas impressoras primitivas, em que colocávamos letra a letra, as letrinhas de chumbo até completarmos os artigos e as páginas e comprimíamos contra elas manualmente, o papel e a tinta, com um pesado rolo metálico forrado de flanela. Muito primitivo mas saia bem. O quebra-cabeças era...
.... não deixar passar as insidiosas gralhas!
Vivíamos no receio de os vizinhos se aperceberem do ruído por isso o trabalho era acompanhado pela telefonia de goelas abertas. E quando um dia uma folha do Avante se escapou por debaixo do estore e se expôs à vista da vizinhança? Podia obrigar a uma fuga precipitada mas felizmente ninguém terá dado por isso antes de a descobrirmos ali.

A vida era muito complicada e rodeada de perigos. O mais difícil era parecer que levávamos uma vida normal. O meu pai tinha de entrar e sair de casa a tais horas e de tal maneira que o vissem sair para o emprego e chegar do trabalho e não o vissem reentrar em casa nem dessem pela presença dele.
Em 1966 o PCP propôs aos meus pais que eu fosse tirar um curso político em Moscovo durante um ano. Tinha 17 anos de idade, cinco de clandestinidade e estar fechada em casa naquela idade... Jovens menos resistentes tiveram graves problemas de saúde mental.
Fui com gosto.
Atravessei a fronteira "a salto" por Trás-os-Montes na direcção de Bragança, de mão em mão, guiada pelo aparelho clandestino do partido. Aconteceu um episódio inesquecível. A certa altura fui levada, a pé e de carro, de olhos fechados, para uma casa clandestina algures nos arredores do Porto e quem encontro lá? Um casal com um filho loirinho de três anos. Só que a mulher era a minha tia Luzia, que me vira pela última vez com 9 anos e não podia me reconhecer. Ali ninguém sabia quem eu era. Foi um acaso. Quem organizou a minha partida não sabia nem podia saber que caminhos levaria. Quem me levava daqui para ali não sabia quem eu era, nem donde vinha. Cheguei à casa da minha tia que não sabia nem devia saber quem ia passar pela sua casa.

Com os pseudónimos e todas as regras de compartimentação pareceu-me que não me podia denunciar. Devo ter ficado com um ar demasiado apreensivo porque a minha tia perguntava-me o que se passava. Depois observou um caderno que eu levava com exercícios, composições e outros elementos de estudo – estudo que fazia em casa de meus pais com livros que o "camarada controleiro" nos levava de mês a mês e único convívio que tínhamos sem disfarces.
A minha tia a certa altura exclamou: "mas eu conheço esta letra". Conhecia-a, claro, das cartas que eu lhe escrevia e lhe chegavam pelos circuitos do partido. Então foi aí que eu a abracei como sobrinha!

Em Vichniki, a 20 quilómetros de Moscovo, na Escola Central do Konsomol (organização da juventude comunista da União Soviética) estudei Economia Política, História do Movimento Operário e Comunista Internacional, Filosofia (o materialismo-dialéctico e história das correntes filosóficas) além do Russo.
Uns trezentos jovens, rapazes e raparigas de todo o mundo. Europeus, asiáticos, africanos incluindo das colónias portuguesas, da América Latina.
À Escola já tinham chegado o "Carlos" que era Raimundo e a "Ana" que era Mariana. Em Moscovo conheci outros portugueses e pude estar com a minha irmã Luísa.
Tínhamos uma bolsa equivalente ao salário de um operário, com que pagávamos a comida, transportes, espectáculos e comprávamos algumas coisas para nós. Comprámos um gira-discos e uma colecção de discos de boa música, da barroca à moderna. A cultura era em geral muito acessível.

Deram-nos um bilhete de identidade que nos permitia movimentar livremente em Moscovo e arredores. Com os companheiros portugueses e muitas vezes com a nossa grande amiga Galina Verskovskaya, nossa intérprete, durante esse ano vi dezenas de filmes, peças de teatro, concertos na "Tchekovskaya Zal", com David e Igor Oistrak, com Sviatoslav Richter e quase todo o programa de Ópera e bailado do Teatro Bolshoi.
Eu, que nunca tinha ido ao cinema, quanto mais à ópera ou a um concerto da Orquestra Sinfónica de Moscovo!
E tínhamos diariamente ali à mão, para passeios, festas, namoros, cantares, e discussões políticas, dezenas de jovens das mais variadas línguas, liberdades, clandestinidades e guerrilhas. Já nossos amigos. Parecia-me o paraíso.

Claro que não ficámos a saber tudo nem sobre a História nem sobre a vida dos muitos povos da URSS. Nem das questões ligadas à Liberdade por que tanto lutávamos em Portugal. Mas isso é outra história que não cabe aqui agora e que não sendo a que nos era oferecida lá também não é a dos que sempre odiaram o socialismo pelo que ele tinha de melhor.

Voltei a Portugal em 1968 não sem combinarmos, eu e o "Carlos", juntarmo-nos em Portugal. Casar não é o termo próprio da clandestinidade mas foi isso que decidimos. Numa data, hora e local aprazado encontrei-me com ele e fomos viver para o apartamento, clandestino claro, que ele tinha alugado, no Bairro da Beneficência em Lisboa.
Aqui o "controleiro" era outro, um assim grande, forte e muito alto que tratávamos por tu e por João. Quando dois anos depois foi preso ficámos a saber que o João era o Ângelo Veloso. No partido todos se tratavam por tu, e por "amigo" em vez de camarada para que nem as paredes ouvissem.

Eu colaborava na organização do que mais tarde em 1970 se viria a chamar ARA, a Acção Revolucionária Armada. Colaborei na criação de um laboratório, no reconhecimento de objectivos e particularmente, como todas as "companheiras", na "defesa da casa".
As mulheres acabavam quase sempre secundarizadas na política porque, por razões de defesa, só um em cada casa podia ter ligações e contactos com outros camaradas.
Em seis anos mudámos seis vezes de casa. Em Lisboa e arredores. Alugar casa, comprar mobília, ou algo parecido, e depois mudar de uma para outra sem deixar rasto era uma arte e um... tormento. A partir do segundo ano com um bebé, a minha filha Leonor. O segundo filho, José Alexandre, a última criança a nascer na clandestinidade, só chegou nas vésperas do 25 de Abril de 74.

Nunca fui presa. Escapei por pouco porque a PIDE assaltou a casa dos meus pais dois meses depois de eu ter ido viver com o meu marido. A minha irmã Maria José com 14 anos foi libertada pouco tempo depois mas o meu pai, José Pulquério, ficou preso cinco anos e a minha mãe, Úrsula Machado, quatro, mas as torturas deixaram-na com a saúde muito abalada para o resto da vida.
Ter filhos não atrapalhava. Pelo contrário ajudava. E muito. A suportar o isolamento e a dar-nos um nova vida. O que nos angustiava era termos de nos separar dos filhos aos sete anos. Não era possível viver na clandestinidade e de cada vez que tínhamos de fugir e mudar de casa matricular os filhos numa nova escola sem dizer de que escola vinham. Os sete anos era o tormento para a família. Os filhos partiam ou para as famílias que raramente tinham condições para os ter ou mais habitualmente para a União Soviética.

Uma vida sob tensão mas em geral uma vida muito... ia a dizer agradável mas talvez não seja bem o termo, talvez antes muito realizada.
Dos sustos o maior foi quando a PIDE pôs nos jornais e na televisão a fotografia do meu marido, de Jaime Serra, Francisco Miguel e Ângelo de Sousa da ARA, de Carlos Antunes das Brigadas Revolucionárias e Joaquim Simões da LUAR.
Apesar dos disfarces, óculos, barba, nomes diferentes, não sabíamos se os vizinhos o poderiam identificar. Visitei nesse dia a minha vizinha, a Sra. D. Irene, pessoa idosa a viver só, (no apartamento ao lado do nosso, que ainda hoje habitamos) excelente senhora, muito nossa amiga, professora no Convento de Odivelas. Venerava Salazar: um santo!
Queria observar a sua reacção. Mandou-me entrar e sentar ao seu lado. Lia a nota da PIDE com as fotografias escarrapachadas no Diário de Notícias e comentava, olhe estes terroristas. Este é operário, quer ser ministro. E este! Um estudante universitário misturado com eles. Enganado!
Depois de lhe pedir um raminho de salsa voltei para casa mais descansada.

Depois veio a revolução dos cravos, a democracia e a liberdade. E a nossa vida passou a ser como a dos outros portugueses.
Mais alguma coisa sobre o que fazíamos e como era a nossa clandestinidade pode ser espreitada em www.raimundo.no.sapo.pt

Maria Machado

2005-01-28

Bagdad: Jardins Suspensos

Por MIGUEL SOUSA TAVARES
Público, Sexta-feira, 28 de Janeiro de 2005

Se houver um milagre depois de amanhã, as eleições no Iraque decorrerão com um arremedo de normalidade e esforçada legitimidade democrática. Parte substancial da população e de cada uma das três principais facções civis participará, os resultados serão mais ou menos contados sem excessiva controvérsia e o número de mortos vítimas do terrorismo não excederá o normal em cada dia que passa. Horas depois, na tranquilidade do seu gabinete em Washington e com o optimismo simplista que é apanágio dos ignorantes, George Bush irá fazer uma declaração de satisfação pelo triunfo da "democracia" no Iraque. Mas, mesmo que tudo venha a correr razoavelmente bem - numas eleições em que só no próprio dia, e por razões de segurança, os eleitores saberão onde ficam as suas assembleias de voto e em que os candidatos não revelam a sua cara nos cartazes, por medo de serem assassinados no dia seguinte, e os jornalistas têm de cobrir as eleições a partir de hotéis fortificados -, vai ser ainda necessário que o milagre se prolongue nos dias, nas semanas e nos meses seguintes, para que o desfecho das urnas não venha a ser o tiro de largada de uma guerra civil geral entre iraquianos.
O cenário é de pré-catástrofe e a saída imprevisível e à mercê dos deuses e da fortuna. Os terroristas controlam o Iraque e ninguém sabe se conseguirão impedir as eleições e fazer despoletar a guerra civil. Eis o balanço de um dos principais objectivos invocados para a invasão do Iraque, precisamente o combate ao terrorismo. Agora, é a própria CIA a reconhecer que o Iraque é hoje o bastião do terrorismo, com a invasão anglo-americana a fornecer-lhe pretexto, recrutas, território fértil e uma "causa justa" por que lutar: a expulsão dos "infiéis".
O triunfo do terror no Iraque tornou igualmente, e por si só, numa miragem outra das promessas de Bush, feita directamente aos irquianos na noite em que começou a invasão: a de que ela iria levar a paz e o progresso ao Iraque. Hoje, biliões de dólares depois, gastos unicamente a manter o Exército de 170.000 soldados americanos no país, o que resta dessas promessas é só a própria presença militar: a ONU foi-se embora, as ONG foram-se embora, sem condições de segurança mínimas para actuarem, as empresas ocidentais que restam arriscam todos os dias a vida dos seus funcionários. Não há vida económica, nem sequer vida civil. Sunitas, xiitas e curdos, todos desesperam por uma coisa apenas: que os invasores ocidentais se vão embora e levem com eles os terroristas.
É certo que Saddam Hussein foi derrubado e preso e que isso representou um benefício para o Iraque e para a Humanidade. Mas os lucros políticos dessa libertação foram ensombrados pelo embuste do pretexto para a invasão - a busca das armas de destruição maciça -, que se revelou não apenas falso, mas também forjado; pela ignomínia dos abusos sobre prisioneiros em Abu Ghraib; pelo "desaparecimento" de 50.000 prisioneiros capturados pelo exército invasor e pela extensão ao Iraque da "doutrina de Guantánamo", segundo a qual um prisioneiro estrangeiro, capturado em território estrangeiro pelas forças americanas e sobre o qual se afirme ser suspeito de terrorismo, não dispõe de qualquer protecção jurídica, face à lei americana ou outra qualquer: é um "não-existente" juridicamente, tal como os "desaparecidos" da ditadura argentina.
Bush manteve ou promoveu, neste seu segundo governo, todos os principais responsáveis "pela mentira iraquiana: Rumsfeldt, Wolfovitz, Condolezza Rice e Alberto González, ligado ao escândalo de Abu Ghraib e feito, sintomaticamente, ministro da Justiça. As sondagens que explicam a vitória de Bush mostram, sem piedade, que os americanos não vão poder usar, mais tarde, a desculpa de que "não sabiam". Elas mostram que eles sabem que Bush e os seus lhes mentiram sobre as armas de destruição maciça; sabem que o terrorismo está a ganhar a guerra no Iraque e que já causou 1400 mortos apenas entre os soldados americanos, obrigados a manter uma guerra suja, diária e sem sentido à vista; sabem de Guantánamo e de Abu Ghraib; sabem da devastação, do sofrimento e da miséria que a aventura iraquiana trouxe às populações civis, para quem o discurso da "democracia" e da "amizade" de Bush deve soar como a mais hipócrita das promessas alguma vez feitas a um povo. Sabendo tudo isso, eles reconduziram Bush apenas porque continuam a vê-lo como o mais habilitado para conduzir a luta contra o terrorismo. Ou seja, apenas porque nenhum outro 11 de Setembro ou tragédia semelhante se repetiu - dentro das fronteiras americanas. Tal como o seu Presidente, a maioria dos americanos confia em que é possível vencer o terrorismo apenas pelo lado da segurança interna, sem o vencer politicamente.
Mas se a população americana tem a desculpa do trauma do 11 de Setembro, a Administração Bush não a tem. O Iraque demonstrou que os politólogos da Casa Branca se enganaram em tudo, que desprezaram ouvir as vozes dos que lhes aconselharam mais certezas e menos teorias - tantas vezes assentes em presunções ou simples mentiras, para tentar moldar a realidade às suas doutrinas e ao seu credo político. Como disse o senador democrata Mark Dayton a Condolezza Rice, "a Administração Bush mente com demasiada frequência e de forma flagrante e intencional. Mente ao Congresso, aos vários comités e ao povo americano. É errado, é imoral e, sobretudo, é muito, muito perigoso".
Perigoso, também, é quando se chega ao ponto em que uma opinião política, tolhida pelo medo e desnorteada pela desinformação dos seus líderes, prefere conviver com a mentira, perdoar-lhes a mentira, desde que eles lhes garantam, em contrapartida, ao menos uma aparência de segurança a curto prazo. Ao contrário do que ingenuamente proclamava o cartaz do Bloco de Esquerda ("Eles mentem, eles perdem"), nenhum deles perdeu pela mentira do Iraque: Bush foi reeleito e Blair está a caminho de o ser. Durão Barroso foi promovido a Bruxelas, apressando-se logo a dizer que agora era contra "o unilateralismo americano". E Aznar só perdeu porque foi o único cujo país foi vítima do terrorismo a seguir ao 11 de Setembro e porque não resistiu, na véspera das eleições, em mentir novamente, atribuindo à ETA o que era responsabilidade do terrorismo islâmico, que ele e os seguidores de Bush exponenciaram com a aventura iraquiana.
E assim se chegou à crucial data de 30 de Janeiro, fixada para as eleições iraquianas e que, há ano e meio atrás, parecia ainda suficientemente distante para garantir uma clara melhoria do ambiente civil e das condições de segurança no país. Infelizmente, o cenário é exactamente o oposto: nunca os terroristas ditaram tão livremente a sua lei como agora. Nunca, nem no tempo de Saddam, houve tantos mortos, tanta insegurança, tanta miséria, e ninguém consegue garantir se, até, tantos abusos sem controlo. Veja-se o exemplo dos nossos GNR no Iraque: qual é, de facto, a sua grande missão? Protegerem-se a si próprios. Evitar que o primeiro incidente sério ou o primeiro morto do contingente não venha despoletar, em Portugal, o debate adormecido de saber o que fazem lá eles, que não fingir que cumprem uma missão tornada utópica, salvar a face de quem para lá os mandou e manter a tradição da nossa política de vassalagem a Washington.
Mas Alá é grande e é essa a única, a verdadeira esperança que resta à coligação cristã-ocidental que teve a displicência de imaginar que a conquista do Iraque seria um passeio civilizacional.~

2005-01-24

PSD - Normas estatutárias de escolha dos candidatos a deputados

(Normas dos estatutos do partido)

Secção II - Conselho Nacional
Artº 18º
2. Compete ao Conselho Nacional:
f) Aprovar as propostas referentes ao apoio a uma candidatura a Presidente da República, à
designação do candidato a Primeiro-Ministro e às listas de candidatura à Assembleia da República e ao Parlamento Europeu, apresentadas pela Comissão Política Nacional;

Secção III - Comissão Política Nacional
Artº 21º
2. Compete à Comissão Política Nacional:
b) Apresentar ao Conselho Nacional as propostas de apoio a uma candidatura a Presidente da República e a Primeiro-Ministro e de listas de candidatura à Assembleia da República e ao Parlamento Europeu;

Divisão I - Assembleia Distrital
Artº 37º
2. Compete à Assembleia Distrital:
f) Dar parecer sobre as candidaturas à Assembleia da República;

Divisão II - Comissão Política Distrital
Artº 41º
2. Compete à Comissão Política Distrital:
c) Propor à Comissão Política Nacional candidaturas à Assembleia da República, ouvidas as Assembleias Distritais e as Secções;

Divisão II - Comissão Política de Secção
Artº 53º
2. Compete à Comissão Política de Secção:
e) Dar parecer sobre as candidaturas à Assembleia da República;

Vital Moreira na Convenção das Novas Fronteiras, no Estoril, em 2005-01-22

Caros amigos

1. Sou reincidente. Passados 10 anos sobre os Estados Gerais, de boa memória mas de efémeros resultados, apraz-me participar de novo convosco nesta manifestação de abertura do PS ao exterior. E não o faço com menos convicção e empenho do que há uma década.
Não está em causa somente o apelo da responsabilidade cívica ao homem de esquerda que eu sou e ao antigo militante político que eu fui. Se há momentos em que todos cidadãos que se interessam pelos destinos da República – mesmo se retirados da política e sem filiação partidária –, não devem ficar indiferentes, este tempo por que passamos é seguramente um deles. Na verdade, mais grave do que a crise das finanças públicas é a crise de confiança na política em geral e na governação em especial.
Aos dois governos da coligação PSD-CDS, especialmente ao de Santana Lopes, devemos seguramente um dos mais graves momentos de degenerescência e degradação da legitimidade da política e da credibilidade da democracia. Ninguém poderia imaginar que, 30 anos depois do 25 de Abril, um Governo e um primeiro-ministro revelassem tanta ausência de sentido de Estado e tanta falta de decência e de simples decoro político, que acaba na indigna litania da vitimização.
No plano político, estas eleições colocam fundamentalmente três desafios ao PS, como candidato natural à governação do País:
1º - Resgatar a seriedade e responsabilidade da política;
2º - Restaurar a dignidade e a autoridade do Estado e do governo;
3º - Devolver aos cidadãos a confiança na política e o sentido de identificação com as instituições.

2. Começo naturalmente pelo primeiro.
O que mais tem faltado em Portugal nos últimos 5 meses não são meios para equilibrar as contas públicas, mas sim competência, seriedade e responsabilidade política. Em vez disso tem sobrado o populismo, a imprevisibilidade política, o arrivismo, o triunfo dos interesses sectoriais, o favoritismo político, o assalto partidário ao aparelho do Estado, e por último o abuso de poder (como mostra a vertigem governativa do Governo depois de demitido).
Numa competição desleal com humoristas e cartunistas, o Primeiro-ministro e vários dos seus ministros dedicaram-se metodicamente a desacreditar a política em geral e o governo em especial, numa sucessão de demagogia, de intrigas intestinas, de ingerências nos media e de inconstância errática de políticas.
Entre os estragos a consertar pelo futuro governo socialista, a prioridade só pode ir para o resgate da seriedade e responsabilidade da política. Tanto como restaurar a saúde financeira, urge recuperar a saúde política. Só merece alcançar o poder quem, pelo seu passado, carácter, cultura política e fibra moral der garantias de uma governação conforme à Constituição e aos ditames da ética, da decência e da responsabilidade democrática.

3. O segundo desafio consiste em restaurar a dignidade e a eminência do Estado e do poder público democrático.
Sob a capa neoliberal, vai campeando por aí um discurso anarco-capitalista, que exalta o mercado e o privado acima de todas as coisas e que diaboliza e degrada o conceito de Estado e do poder público. Mas quanto maior for a erosão da autoridade do Estado, menor é a sua capacidade para cumprir as funções de que está constitucionalmente incumbido, maior é a margem de domínio e influência dos grupos de interesse e das corporações, e mais fundo é o sentimento de desamparo e de insegurança dos cidadãos comuns, em especial dos mais débeis e desprotegidos. Parafraseando um protagonista da Revolução Francesa, entre o fraco e o forte é o Estado que liberta e é a ausência dele que oprime.
Sem uma indiscutível respeitabilidade e autoridade do poder público e sem a reabilitação da esfera pública, o Estado democrático não está em condições de preencher as suas incontornáveis missões de garante das instituições democráticas, de responsável pela justiça e pela segurança, de regulador de mercado e da “auto-regulação privada”, de esteio dos serviços públicos essenciais, como a educação, a saúde e os demais serviços básicos, e de participação condigna nas instituições europeias e na cena internacional.
Um Estado-de-Direito democrático pressupõe a separação entre o que é público e o que é privado, entre a lógica do interesse público e a lógica dos interesses particulares. Essa separação ontológica está em risco, sempre que se manifestam fenómenos de promiscuidade entre o Estado e os interesses organizados, sejam eles de natureza económica, profissional, religiosa, desportiva, etc.
Há que pôr-lhes fim, a bem da autonomia e autoridade do poder público.

4. A terceira aposta tem de ser o restabelecimento da confiança dos cidadãos na política e nas instituições.
Um recente inquérito de opinião confirmou e reforçou a descrença da maioria dos cidadãos na política, nos partidos políticos e nas instituições, bem como a sua crescente desafeição em relação à participação democrática, em geral, e eleitoral, em particular. Outros inquéritos revelam idêntica decepção quanto à Administração e aos serviços públicos. Agrava-se a percepção relativa à corrupção e a outras práticas lesivas do interesse público.
Um governo PS não pode conformar-se com esta situação. Há que provar que os partidos não são “todos iguais”; que não andam “todos ao mesmo”; que as eleições são a escolha entre reais alternativas de valores, de políticas e de governantes; que o eleitoralismo populista deve ceder lugar à credibilidade das propostas eleitorais; que os compromissos eleitorais são para cumprir; que os políticos podem e devem ser impolutos e que a política não é um meio de enriquecimento nem de favorecimento pessoal; que o acesso aos cargos públicos se pautará por critérios de imparcialidade e de competência; que a improbidade e o compadrio serão combatidas com determinação.

5. Para responder a estes reptos há seguramente que efectuar reformas políticas (muitas das quais se arrastam há vários anos): desde o sistema eleitoral até à transparência administrativa; desde a limitação de mandatos políticos até aos inquéritos parlamentares; desde as imunidades políticas até à forma de recrutamento dos dirigentes administrativos. Mas nenhuma reforma será suficiente sem uma forte convicção e determinação política para mudar as coisas.
Uma das primeiras iniciativas do novo governo socialista espanhol foi a aprovação de um código de conduta do Governo e dos seus membros. É um documento notável, como o tem sido aliás a sua acção em muitos outros aspectos. De facto, tanto como as políticas, contam os governantes e o modo de governar.
Na nossa tradição republicana, um governo democrático não pode deixar de pautar-se por uma forte ética de dedicação à causa pública, de elevação cívica e de responsabilidade pessoal. Para um Governo do PS – que é herdeiro dessa tradição e que terá de preparar a comemoração do centenário da República, daqui a cinco anos –, é imperativo convocar de novo o espírito tutelar da cidadania republicana.
Estas eleições devem ser obviamente um confronto entre diferentes valores, ideias e políticas. Mas devem ser também – e talvez principalmente –, um confronto entre diferentes visões e práticas do Estado e do modo de fazer política. Da parte do PS – se necessário, fazendo uma revisão crítica da sua própria experiência governativa –, importa afirmar um novo modo de governar.
O que fica para a história dos governos não são somente as grandes decisões e reformas, mas também o carácter e a estatura da governação. É este o desafio do PS e de José Sócrates, em particular, e de todos nós, em geral. Que estejamos todos à altura dele!

Obrigado pela vossa atenção.

2005-01-12

Como o PS escolhe os seus candidatos a deputados

ESTATUTOS DO PARTIDO SOCIALISTA
APROVADOS NA COMISSÃO NACIONAL DE 11 DE JANEIRO DE 2003


Artigo 92º
(Da designação de candidatos a Deputados)

1. Quando se trate da designação de candidatos a deputados à Assembleia da República, compete à Comissão Política da Federação do respectivo círculo eleitoral aprovar a constituição da lista com observância dos critérios objectivos formulados pela Comissão Política Nacional e com respeito pelo disposto no número seguinte.
2. A Comissão Política Nacional, sob proposta do Secretário-Geral, tem o direito de designar candidatos para as listas, tendo em conta a respectiva dimensão, indicando o seu lugar de ordem, num número global nunca superior a 30% do número total de deputados eleitos na última eleição.
3. As listas são ratificadas pela Comissão Política Nacional, exclusivamente para efeito de avaliação da sua conformidade com o disposto nos números anteriores.

2005-01-05

Manuel Gusmão ganha dois prémios

In Público, 12 de Dezembro de 2002.

Fundação Luís Miguel Nava

Prémios de Poesia para Manuel Gusmão e Armando Silva Carvalho

Alexandra Lucas Coelho

Distinções relativas a 2001 e 2000, para os livros "Teatros do Tempo" e "Lisboas"

"Teatros do Tempo", de Manuel Gusmão, e "Lisboas", de Armando Silva Carvalho, foram os livros distinguidos com os prémios de poesia Luís Miguel Nava relativos a 2001 e 2000, respectivamente.

"Teatros do Tempo", considerada pela crítica uma das mais importantes obras poéticas recentes, já recebera, há uma semana, o Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores (APE).

Professor da Faculdade de Letras de Lisboa e autor de ensaios fundamentais sobre poesia portuguesa contemporânea, Manuel Gusmão estreou-se como poeta apenas aos 45 anos, em 1990, com "Dois Sóis, A Rosa a Arquitectura do Mundo". Seis anos depois, publicou "Mapas, o Assombro a Sombra". Mas foi com este "Teatros do Tempo" que o eco da sua obra (toda publicada na Caminho) se alargou. Além do bom acolhimento crítico, o livro esgotou e foi reeditado em poucos meses.

"Os prémios surpreendem-me, mas já me tinha surpreendido a recepção que o livro teve", diz Manuel Gusmão. "Admito que este livro seja mais motivador de uma resposta no plano emocional [do que os anteriores]. Sendo que não deixa de ser o livro mais construído. Talvez o apreço tenha a ver com essa dupla circunstância: a construção, evidente, e uma dimensão que produz um efeito de autobiografia - desde que se compreenda que a autobiografia passa sempre pela ficção."

Composto por três andamentos, "Teatros do Tempo" conflui para um núcleo intensamente negro, como um fim. Mas no fim, o que encontramos é uma possibilidade de recomeço: "Contra todas as evidências, em contrário, a alegria." Um verso, lembra Manuel Gusmão, que vários leitores, não especializados, têm vindo a citar. "Talvez este fosse o meu livro mais negro. E, por outro lado, sob a forma de um apelo, um livro que não desiste dessa palavra, alegria. Uma palavra que só adquire toda a sua força se passar pela dor. Quem não for capaz de ser queimado, num sentido amoroso, também não poderá queimar. Quem não for capaz de sustentar uma dor, tenderá a não perceber o lado intenso da alegria."

Adiante-se que este poeta tem já um novo "livro a caminho", em torno da ideia de migrações: "De um filme para outro filme ou para um poema, de cenas da pintura para um poema: segmentos verbais que importam imagens, sentimentos, experiências." Ainda sem nome, a estrutura de poemas com oito oitavas será uma das linhas fortes da construção desse livro futuro.

Para Gastão Cruz - que, com Fernando Pinto do Amaral, Carlos Mendes de Sousa, Paulo Teixeira e Helena Buescu, fez parte do júri do Prémio Luís Miguel Nava - "Teatros do Tempo" é "o momento mais alto" da poesia de Manuel Gusmão, o livro em que se apura "uma intensidade emocional da linguagem."

A cidade sonâmbula

Instituído em 1998 - homenageando o poeta Luís Miguel Nava, que fora assassinado em Bruxelas, três anos antes - este prémio, no valor de 5000 euros, contemplou já Sophia de Mello Breyner ("Búzio de Cós"), Fernando Echevarría ("Geórgicas"), António Franco Alexandre ("Quatro Caprichos") e Armando Silva Carvalho ("Lisboas").

Mas esta última distinção, referente a 2000, só foi anunciada ontem, em conjunto com a de Manuel Gusmão, porque entretanto esteve a ser negociado o patrocínio do prémio, que cabe ao BPI.

O júri para o prémio relativo a 2000 foi constituído pelos quatro membros da Fundação Luís Miguel Nava já referidos, com Paula Morão como convidada (tal como Helena Buescu, na edição referente ao ano passado).

"'Lisboas' é um dos principais livros de poesia publicados em 2000", sintetiza Gastão Cruz. "E é um livro representativo do estilo de Armando Silva Carvalho. Mistura uma abordagem crítica da realidade com uma poderosa invenção verbal. Julgo que é um dos picos da criação de um poeta que talvez não tenha tido a projecção que a poesia dele justificaria."

Para Armando Silva Carvalho, a relevância deste prémio começa no nome: "Faz-me lembrar o Luís Miguel Nava, de quem eu era muito amigo. Portanto, ao mesmo tempo fico triste. Ele foi das pessoas que mais se interessou pela minha poesia, e escreveu sobre ela."

Escrito com o apoio de uma bolsa de criação literária do Ministério da Cultura, "Lisboas" obedecia a um tema, previamente esboçado no projecto entregue a concurso. "O programa era um conjunto de poemas em relação à cidade", lembra Armando Silva Carvalho, lisboeta de São Domingos de Benfica. "Os climas, topografias, contrastes que fazem com que este cidade seja o que é, uma cidade de desvairadas gentes, como dizia o Fernão Lopes, mas agora com um carácter mais sórdido. Uma cidade exótica, no pior sentido, relativamente morta, em que as pessoas parecem deambular como sonâmbulas."

"Lisboas" está editado pela Quetzal.
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In Diário de Notícias . Lisboa · 04 de Dezembro de 2002

Grande Prémio de Poesia APE distingue obra de Manuel Gusmão

Teatros do Tempo, de Manuel Gusmão, editado pela Caminho, em 2001, acaba de ser distinguido com o Grande Prémio de Poesia APE/CTT. Trata-se de um galardão no valor de dez mil euros atribuído pela Associação Portuguesa de Escritores e integralmente patrocinado pelos CTT - Correios de Portugal.
O júri - que decidiu por unanimidade - era constituído por Alexandre Vargas, Carlos Mendes de Sousa, Ernesto José Rodrigues, Luís Adriano Carlos e Yvette Centeno. A cerimónia de entrega do Grande Prémio de Poesia será oportunamente divulgada. Manuel Gusmão foi já distinguido com o Prémio Pen Club de Poesia.
O autor, também professor universitário, tem publicados Dois Sóis, A Rosa e Mapas - o Assombro a Sombra. Mais recentemente, Os Dias Levantados, uma terceira versão do libreto da ópera de António Pinho Vargas, encomendado pelo Parque Expo para o Festival dos Cem Dias, que não coincide com nenhuma das duas anteriores. Tem reconhecida obra no domínio do ensaio, designadamente sobre Fernando Pessoa, Carlos de Oliveira, Nuno Bragança, Maria Velho da Costa, Luiza Neto Jorge e Gastão Cruz. Manuel Gusmão nasceu, em Évora, em Dezembro de 1945 e é professor na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Foi deputado na Assembleia Constituinte e na 1.ª legislatura da Assembleia da República, eleito pelo PCP.

Gonçalo M. Tavares - Entrevista

In Diário de Notícias Lisboa · 21 de Janeiro de 2002


Entrevista – Gonçalo M. Tavares

Poesia ou um mapa de cicatrizes

«Livro da Dança» é o primeiro livro de Gonçalo M. Tavares que acaba de ser editado pela Assírio & Alvim. Poesia conceptual, afirmativa, empenhada na investigação da linguagem. Poesia «ficcional» às voltas com o corpo, que «hesita entre a perfeição e o desastre».
Ana Marques Gastão

O «Livro da Dança» pode fazer crer na possibilidade de um esboço filosófico para a poesia...

A poesia pode ser um método de investigação, de obtenção de conhecimento, cujo principal material é a linguagem. E as suas possibilidades são quase infinitas. Wittgenstein tinha razão. Tenho alergia à ideia de que a poesia não deve ser pensada. Trata-se de uma espécie de ciência individual que não quer encontrar algo apenas reproduzível, mas único.

Não se está a referir ao lado metafísico de Wittgenstein?

Tenho desconfianças em relação à metafísica. Sou, por um lado, um céptico, e culpo-me de não me conseguir entregar totalmente. Balanço muito entre Wittgenstein e Michaux, entre o abstracto - gosto de ideias, pensar é simpático - e o regresso à realidade.

Qual a parte que se sobrepõe?

Sou biologicamente literário. Deve haver uma espécie de órgão que os escritores têm que está para além da anatomia. A primeira arte dir-se-ia a de saber o que vamos fazer com os ossos, com o corpo. A leitura de Séneca aí auxilia-me: esforço-me para que a parte biológica literária seja a minha segunda parte, e não ocupe a totalidade. A primeira camada é afectiva e a segunda literária. Gosto muito da ideia de ficção. De pôr uma mesa entre o que escrevo e o que sou. Se for possível tomar café com o que escrevo... Acredito mais na ideia de ficção do que na ideia de verdade, por isso este livro talvez se insira no que se possa chamar de filosofia ficcional. O conjunto de todas as mentiras é a verdade.

«Confirmar o Círculo com os pés». A dança a que se refere como movimento circular pode ser uma metáfora da existência? O mundo é redondo?

Cruzam-se aí a geometria, a parte abstracta, e o pé, a parte concreta. A linguagem deste livro é afirmativa. Um padre contava, no outro dia, uma história impressionante. Dizia que quando, à noite, punha a lanterna em cima da cadeira, dormia sobressaltado com medo que ela caísse. A partir do momento em que pôs a lanterna no chão, passou a dormir descansado. É isso que temos de fazer com a vida, pô-la no chão. Procuro fazer o círculo com os pés, porque é trágico ter um corpo.

E morrer... Associa a morte à inocência e à angústia. A morte passa, no entanto, aqui de fugida?

De algum modo, mas o pensamento ficcional pressupõe que tudo o que digo possa ter um oposto. Este livro é nesse sentido um antimanifesto. Trata-se de um percurso de raciocínio, o que não desvaloriza a essência do que se diz. Como se fosse uma certeza definitiva instantânea. Porque o Mundo é antes de mais trágico.

É pela valorização desses instantes que foge da morte?

Provavelmente. Talvez eu jogue com a morte. Rodeio o definitivo como se fosse um poço onde nunca vou beber água. A ideia de verdade tem a ver com a da morte. Fujo das duas. Um dos percursos etimológicos da palavra definir relaciona-se com dizer uma última palavra sobre. Prefiro palavras intermédias, que não nos encerrem.

Busca «um exemplar de deus»?

Esse exemplar de deus é um numa edição de dez mil, e nós podemos ter a sorte de adquirir um. A minha parte metafísica tem a ver com a parábola de Buda, a do homem agredido por uma flecha que pergunta: de onde vem a flecha, é feita de quê, atingiram-me porquê? Buda responde que o importante é conseguir arrancá-la. Procura-se, como em A Palavra, de Dreyer, a palavra que pode salvar e levantar a morte. Mas não há palavra que salve.

No seu livro fala da «metafísica da casa», que procura arrumar à maneira de Bachelard. E fá-lo por raciocínios silogísticos, convertendo o acto poético numa reflexão sobre a existência.

Nada é desperdiçável: o silogismo, o aforismo, o tédio, o furismo... Nem o lixo. Quando estou com o furismo, não há mais nada do que a escrita. Mas se olharmos para um manipulo da janela, talvez aquele toque de fechar e abrir faça mais sentido. A santidade parte de pequenas crueldades. Não é possível estarmos disponíveis para toda a gente se antes não fizermos cortes. Estamos biologicamente derrotados.

O livro tem essa lucidez e vive de um jogo de contrários: a beleza e as fezes. Hesita «entre a perfeição e o desastre»?

A frase resume bem o que penso. Há algo a que sou alérgico: a ideia de que existem palavras com o selo do poético e outras não. Perdem-se por delicadeza não só vidas, mas alguns poemas. Também não gosto da poesia de linguagem baixa, comum. É uma linguagem fora do tempo. Breton dizia que «o acto de amor e de poesia são incompatíveis com a leitura dos jornais em voz alta».

Somos «cicatrizes portáteis»?

Acho que sim, mas também festas de aniversário portáteis dos nossos filhos. A poesia é uma espécie de mapa de cicatrizes.

O amor não é uma cicatriz?

É um algodão com álcool, que tenta aproximar-se da cicatriz, rodeando-a com gestos mansos.
O seu livro remete para a cartografia do desastre de Artaud.
Gosto da imagem de Artaud, a do corpo sem órgãos. A ideia de um corpo sem órgãos, vazio, e disponível para dançar inscreve-se, de certo modo, neste livro.
«Livro da Dança» tem alguns ecos do surrealismo, sobretudo pelo lado do riso, da ironia.
Talvez por esse lado. Prefiro as pequenas deslocações. O surrealismo desloca de forma substancial, tanto a linguagem, como as coisas, o que nos põe à defesa.
E utiliza, de algum modo, processos do experimentalismo...
Não há a ideia de: «deixa-me experimentar isto.» Mas sim a de não definitivo, de investigação.

Parte da desunião entre o espírito e o mundo. Há uma solidão constitutiva neste livro?

Poderia viver num mundo quase literário. Não me faltaria o oxigénio, nem o bife. Mas só nos podemos juntar aos outros, se tivermos densidade. A solidão que o processo literário valoriza é constitutiva, e permite que levemos algo connosco.

Mesmo na ruína, no desastre?
Diz um provérbio que, depois de terem roubado tudo a um mestre budista, este comentou: «Pelo menos não me roubaram a lua do canto da janela».

«E a felicidade é mais importante que a realidade, portanto»?

Portanto uma ficção feliz é mais feliz que uma realidade infeliz.
A cara da notícia
Gonçalo Tavares
Escritor

Gonçalo M. Tavares
nasceu em 1970 e é professor na Faculdade de Motricidade Humana onde lecciona a cadeira de Epistemologia. Acaba de publicar, pela mão da editora Assírio & Alvim, Livro da Dança, que pode ser considerado, no entender do autor, como um antimanifesto na medida em que se trata de «um percurso, de raciocínio».
Foi bolseiro de criação literária do Ministério da Cultura, na área de poesia, no ano 2000, e distinguido com o Prémio Revelação de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores pelo livro Investigações. Novalis (a editar, em Abril, pela Difel).O Prémio Branquinho da Fonseca da Fundação Calouste Gulbenkian e do jornal Expresso foi-lhe também atribuído pela obra O Senhor Valéry, a sair em breve. Em Maio, Gonçalo M. Tavares estreará, no teatro A Capital, a sua primeira peça de teatro a partir dos textos O Homem ou É Tonto ou É Mulher e Debaixo da Cidade. Com encenação de Manuel Wiborg.

2004-10-18

O 1ºM quer uma nova "Censura" - Dossier

Sob este título reunem-se alguns artigos com informação e opinião
relacionados com os esforços de Pedro Santana Lopes
para calar os seus críticos e "condicionar"
a comunicação social.

Tempo de Coniventes Sem Cadastro
Por GRAÇA FRANCO
Segunda-feira, 18 de Outubro de 2004

( omitida a 1ª parte do artigo sobre os escândalo das pensões "obscenas". Os sublinhados e cores são do blog)
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Como dizia Pulido Valente no seu editorial "Marcelo é um aviso", se o liquidarem a ele "ninguém está seguro" e "ou serve para pôr um limite à interferência do Governo nos 'media', ou inaugura a corrupção final do regime".
O professor falou. Justificou a saída da TVI por razões de consciência e a noção que tem do valor da liberdade de expressão. Não basta? É preciso que o senhor venha dizer, em público, mal do partido de que foi líder e denunciar, ainda com mais clareza, as pressões exercidas por Paes do Amaral (a quem, como recordou, o ligam laços de família)?
Eu confesso que ganho com a sua saída. Posso finalmente desintonizar a TVI e, de uma cajadada, livrar-me dos morangos com açúcar e da quinta das celebridades com valor educativo zero e deseducativo 1007 (porque a semana tem sete dias). Acabam os conflitos familiares das noites de domingo comigo a vociferar que estou "a trabalhar" porque quero ouvir o professor Marcelo e, por isso, eles que se desembrulhem sozinhos naquela fatídica hora em que falta tudo o que é necessário para o dia seguinte.
Eu terei domingos mais tranquilos. O país perde. E o silêncio aqui é conivência cobarde, como dizia Sophia... "Tempos de ameaça e de mordaça"... Serão precisas mais pressões do que aquelas que todos ouvimos um ministro desconhecido reclamar.
Mas como a memória é curta e há gente sensível aos argumentos de que "ninguém quer calar ninguém", aqui ficam alguns dados para reflexão dos mais novos.
A censura do Estado Novo surge logo no ministério de Gomes da Costa, que por ironia nem durou um mês! Nunca ninguém a defendeu ou veio anunciar com pompa e circunstância. É filha de pai incógnito e a mãe (a frágil ditadura) sempre a rejeitou.
É criada por uma simples nota do comandante da polícia, a título excepcional, mas isso não a impede de permanecer em acção e no essencial intocada 48 anos. A primeira lei de imprensa do regime, publicada ainda em 1926 durante a ditadura de Sinel e Carmona, proíbe a sua existência e consagra a liberdade de expressão. Indiferente, ela continua a existir e a cortar inclusivamente notas oficiosas. Em matéria de liberdade de expressão, a Constituição de 33 quase não difere da de 1910. É só no decreto que regulamenta o exercício dessa liberdade, publicado no mesmo dia em que entrou em vigor a lei fundamental, que se assume, finalmente, a instituição da Censura já em vigor vai para sete anos. Aí permanecerá sem alteração até 72, quando o seu nome muda para "exame prévio" e tudo fica na mesma.
Durante a sua vigência nunca terá critérios claros e continuará a ser permitida a aparência de pluralismo da imprensa. Não será cortado na "República" o que não passa na "Voz". Embora favorável ao regime, a direita nunca será poupada. Na "Voz" chegam a ser amputados os textos de Correia Marques, um dos maiores defensores da política de Salazar. Só as quintas linhas do regime (tipo o nosso ministro Gomes da Silva!) são capazes de lhe assumir a bondade... Jamais a elite e os seus líderes.
Carmona dirá ao jornal "Mundo", em Junho de 26, "coisa alguma repugna mais o meu espírito liberal do que a censura à imprensa", acrescentando que "os boatos falsos, as notícias tendenciosas, desorientam o espírito, provocam a agitação. É preciso evitá-los. O Governo não receia a crítica. Deseja-a até. Mas a crítica dos factos reais e não dos actos imaginários, a crítica nobre, elevada, serena." Estão a ver por que é que a crítica de Marcelo pode tornar-se indesejável para os novos censores? Beberam a inspiração aqui!
Em 72 será a vez de Marcelo [Marcelo Caetano] dizer à "Capital" que a nova lei de imprensa só não porá fim à censura "porque não basta falar de um direito à informação, é preciso (...) garantir o direito à informação "verídica" (...) as meias verdades, as meias frases, os factos distorcidos compõem um tecido de mentiras que perverte a opinião".
Já antes Salazar diria, em 1933, numa entrevista a António Ferro: "Compreendo que a Censura os irrite porque não há nada que um homem considere mais sagrado do que o seu pensamento e a expressão do seu pensamento." Acrescenta: "Eu próprio já fui vítima da censura e confesso-lhe que me magoei, que me irritei, que cheguei a ter pensamentos revolucionários." Por que não a revoga nesse caso? Como argumento exibe a ilegitimidade da deturpação dos factos "por ignorância ou má fé". Mas, para lhe minorar os males, anuncia a criação do que viria a ser o Secretariado da Propaganda Nacional (mais tarde SNI), apresentado como "um bureau de informações a que os jornais poderão recorrer quando quiserem, para se munirem de elementos necessários à análise e até à crítica da Obra do Governo". Nada muito diferente da Central de Informação do dr. Morais Sarmento.
E seria o "bureau" o primeiro passo para abolição da censura?, pergunta Ferro. "Vamos devagar...", responde Salazar, a censura seria sempre necessária para moralizar "nos ataques pessoais e nos desmandos de linguagem...". Mas para evitar o policiamento externo, que sempre "significará, para quem escreve, opressão e despotismo", o presidente do Conselho propõe-se "oferecer" aos jornalistas a "solução para este problema, para esse aspecto da questão: por que não se cria uma Ordem dos Jornalistas? (...) Dessa forma o papel moralizador da Censura passaria a ser desempenhado pelos próprios jornalistas e dentro da sua classe. "Não lhe parece uma boa solução?", pergunta ao entrevistador. Não pareceu. Na classe não se conseguiram recrutar censores capazes de meter "na Ordem" toda a classe. Esperemos que nesta geração a recusa se mantenha! Mas não é certo...
Sem que esta ideia de avançar no que hoje se chama auto-regulação restaram os majores e os coronéis forçados a garantir o contraditório.
E fizeram-no bem. Em 1970, já com quase nove anos de guerra em África decorridos, ainda zelavam assim "pela verdade dos factos", como prova este mimo inscrito num telex recebido dos serviços de censura às 23h35 do dia 12 de Janeiro de 1970: "Na posse do 2º comandante da PSP de Lisboa: disse-se que ele já fez três comissões de serviço no Ultramar, a primeira 'logo na eclosão da guerra'. Ora, não há guerra. Não se pode dizer isso. Deve ter sido confusão do repórter... Coronel Saraiva."
Os comentários do professor Marcelo enfermavam frequentemente deste tipo de confusões.
P. S.: A Lusa mandou a 7 de Outubro um telex para as redacções com as declarações de Cavaco Silva lamentando o afastamento de Marcelo. Passados poucos minutos um novo telex chegava a corrigir o anterior. A magna alteração introduzida era a seguinte: no primeiro parágrafo, onde se escrevia "afastamento" passava a escrever-se agora coisa mais neutra, ou seja, "saída". Mas Cavaco não falava de saída, mas de "afastamento", palavra que passava a só constar entre aspas no segundo parágrafo. Sem contaminar a linguagem do jornalista. Não sei de quem foi a ideia da magna correcção. Talvez do próprio jornalista, "não fosse o chefe...", ou do chefe, "não fosse o director...", ou do director, "não fosse o ministro...". Ou seria do próprio ministro, para garantir rigor dos serviços tutelados? Valha!
-nos Deus

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A OBSESSÃO COM OS PRESUMÍVEIS MECANISMOS DE INFLUÊNCIA JUNTO DA OPINIÃO PÚBLICA
(NO BLOGUITICA)
http://bloguitica.blogspot.com/2004/10/1981-obsesso-com-os-presumveis_05.html

O ministro dos Assuntos Parlamentares parece ter desenvolvido uma apetência pela notoriedade, infelizmente pelas piores razões. Como se não fosse já suficiente os comentários de Rui Gomes da Silva sobre Marcelo Rebelo de Sousa, eis que o ministro veio também anunciar publicamente que «o Governo vai tomar uma iniciativa legislativa para impedir que dirigentes políticos sejam proprietários de empresas de sondagens».


Duas breves notas.
A primeira para dizer que por mais desmentidos que possa fazer -- Gomes da Silva afirma que a nova lei «não pretende visar ninguém em especial» -- o ministro não consegue esconder quem é o alvo. Trata-se, obviamente, de Rui Oliveira e Costa, que foi domingo reeleito para a Comissão Nacional do PS, na lista de José Sócrates. Oliveira e Costa é o único dirigente partidário que actualmente é responsável por uma empresa de sondagens. Em suma, uma lei feita à medida e que, como no caso de Marcelo Rebelo de Sousa, tresanda a uma obsessão doentia e ridícula com os presumíveis mecanismos de influência junto da opinião pública.
A segunda nota para lembrar que o próprio Pedro Santana Lopes já foi gerente de uma empresa de sondagens. Sim, a conhecida Amostra, cujas ligações à Universidade Moderna tanto deram que falar. Curiosamente, na altura, Santana Lopes não viu nenhum inconveniente em dirigir a Amostra, a partir de Março de 1998, isto apesar de ser um destacado militante do PSD e alguém que tinha sistemática e periodicamente revelado interesse na liderança do seu partido.
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades...


SANTANA LOPES E GOMES DA SILVA

http://bloguitica.blogspot.com/2004/10/1976-santana-lopes-e-gomes-da-silva.html

Recentemente chamei a atenção para o facto de alguém ter andado a conversar com quase todos os embaixadores de Portugal em países da União Europeia perguntando se, nos respectivos países, havia programas de televisão em que um comentador com perfil político [obviamente, Marcelo Rebelo de Sousa] fazia análise à vida política interna sem ser sujeito a contraditório (Post 1912, 22 de Setembro de 2004).
Ontem, o ministro dos Assuntos Parlamentares, Rui Gomes da Silva, afirmou publicamente que «em toda a Europa, trata-se de um caso único. Não há em país algum uma pessoa a perorar 45 minutos sobre política sem ser sujeita ao contraditório e apenas a defender os seus interesses pessoais». Entre outras coisas, Gomes da Silva acrescentou ainda que «nem o PS, o PCP e o Bloco de Esquerda juntos conseguem destilar tanto ódio ao primeiro-ministro e ao Governo como esse comentador [Marcelo Rebelo de Sousa] que, sob a capa de comentário político, transmite sistematicamente um conjunto de mentiras com desfaçatez e sem qualquer vergonha».
Marcelo Rebelo de Sousa, claro está, agradece a publicidade e a importância que lhe estão a conferir. No mínimo, terá o dobro da audiência no próximo domingo...
Não se julgue, no entanto, que Gomes da Silva resolveu atacar Marcelo Rebelo de Sousa por iniciativa própria. O ministro dos Assuntos Parlamentares é apenas um peão menor numa estratégia montada por terceiros. Mais concretamente, é o próprio gabinete do primeiro-ministro que, desastradamente, lidera este processo. Sim, foi um funcionário diplomático do gabinete do primeiro-ministro que andou a perguntar a quase todos os embaixadores de Portugal em países da União Europeia se, nos respectivos países, havia programas de televisão em que um comentador com perfil político fazia análise à vida política interna sem ser sujeito a contraditório. Muito claramente, a informação foi, depois, transmitida a Gomes da Silva.
Tudo isto até poderia ser muito grave. Porém, mais do que isso, tudo isto é extremamente ridículo.
# posted by PG : 00:20

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http://jornal.publico.pt/2004/10/05/Nacional/P02.html
Governo Desesperado com Marcelo
Público Terça-feira, 05 de Outubro de 2004

Entidade reguladora da comunicação social apresentada em breve. Princípio do contraditório alargado ao comentário político

Helena Pereira

O Governo criticou ontem violentamente Marcelo Rebelo de Sousa, irritado com os comentários semanais do ex-líder do PSD na TVI. O ministro dos Assuntos Parlamentares, Rui Gomes da Silva, disse sentir-se "revoltado com as mentiras" que são proferidas todos os domingos "por um comentador que tem um problema" com o primeiro-ministro", Pedro Santana Lopes.
Marcelo "destila ódio ao primeiro-ministro" e age "com desfaçatez e sem qualquer vergonha", acrescentou o ministro. O ex-líder do PSD, que se encontra nos Açores, não quis ontem reagir. "No caso de considerar que há algum comentário que deve ser feito, fá-lo-ei no próximo domingo", declarou.
"Não há, em país algum, uma pessoa a perorar 45 minutos sobre política sem ser sujeita ao contraditório e apenas a defender os seus interesses pessoais", justificou Gomes da Silva, em declarações à Lusa, estranhando o silêncio da Alta Autoridade para a Comunicação Social (AACS) em relação aos comentários do ex-presidente do PSD, quando, em 2002 a mesma entidade criticou a RTP por não incluir no painel de comentadores Santana-Sócrates políticos de outros partidos.
Nos últimos dias, as estruturas do PSD Lisboa e Porto já se tinham revoltado contra Marcelo. Questionado pelo PÚBLICO, o secretário-geral do PSD, Miguel Relvas, negou que o partido tenha intenção de apresentar uma queixa na AACS ou um processo disciplinar interno contra Marcelo.
Segundo um membro do governamental, o Executivo irá apresentar em breve as novas regras para a futura entidade reguladora da comunicação social, que substitui a AACS. Miguel Relvas defende que a regulação pressupõe "o princípio do contraditório" mesmo em comentários políticos.
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Lusa
Público - Política 04-10-2004 - 20h31

Ministro diz-se "revoltado com as mentiras" e "falsidades" do comentador
Gomes da Silva quer intervenção da alta autoridade contra Marcelo

O ministro dos Assuntos Parlamentares Rui Gomes da Silva afirmou hoje estranhar o silêncio da Alta Autoridade para a Comunicação Social (AACS) em relação aos comentários de "ódio" e às "mentiras e falsidades" feitas pelo ex-presidente do PSD Marcelo Rebelo de Sousa aos domingos na TVI.
Antes de participar na cerimónia de posse da concelhia do PSD-Viseu, o ministro disse sentir-se "revoltado com as mentiras" e com as "falsidades" que são proferidas todos os domingos "por um comentador que tem um problema" com o primeiro-ministro" Pedro Santana Lopes.
Rui Gomes da Silva referiu que, em 2002, a AACS emitiu pareceres críticos sobre os debates semanais de domingo na RTP, entre os actuais primeiro-ministro, Pedro Santana Lopes, e secretário-geral do PS, José Sócrates, alegando a não participação de outras forças políticas na discussão.
"Agora, que não há rigorosamente qualquer contraditório [com Marcelo Rebelo de Sousa na TV], estranho que a Alta Autoridade para a Comunicação Social esteja em silêncio", declarou o ministro dos Assuntos Parlamentares.

"Em toda a Europa, trata-se de um caso único. Não há em país algum uma pessoa a perorar 45 minutos sobre política sem ser sujeita ao contraditório e apenas a defender os seus interesses pessoais", defendeu o membro do Governo.
No seu último comentário na TVI, Marcelo Rebelo de Sousa criticou a tolerância de ponto de hoje concedida pelo Governo de Pedro Santana Lopes, afimando que essa decisão "é pior do que o pior" do ex-primeiro-ministro António Guterres.
Segundo o membro do Governo, "nem o PS, o PCP e o Bloco de Esquerda juntos conseguem destilar tanto ódio ao primeiro-ministro e ao Governo como esse comentador [Marcelo Rebelo de Sousa] que, sob a capa de comentário político, transmite sistematicamente um conjunto de mentiras com desfaçatez e sem qualquer vergonha".
"Nesses comentários, não temos uma análise independente à realidade política nacional, mas apenas espírito de ódio e de ataque pessoal", características que Gomes da Silva considerou próprias de quem se revela "inadaptado" pelo facto de ver Pedro Santana Lopes no cargo de primeiro-ministro.
Marcelo Rebelo de Sousa remeteu para domingo uma eventual resposta ao ministro dos Assuntos Parlamentares. "Neste momento, não tenciono fazer qualquer comentário. No caso de considerar que há algum comentário que deve ser feito, fá-lo-ei no próximo domingo", declarou o ex-líder social-democrata.
Já a 20 de Setembro, a distrital do Porto do PSD lamentara, em comunicado, o que qualificou como "críticas injustas e desproporcionadas" por parte Marcelo Rebelo de Sousa "acerca da personalidade e desempenho dos vários membros do Governo, particularmente no que diz respeito ao primeiro-ministro e presidente do PSD".

A OBSESSÃO COM OS PRESUMÍVEIS MECANISMOS DE INFLUÊNCIA JUNTO DA OPINIÃO PÚBLICA
O ministro dos Assuntos Parlamentares parece ter desenvolvido uma apetência pela notoriedade, infelizmente pelas piores razões. Como se não fosse já suficiente os comentários de Rui Gomes da Silva sobre Marcelo Rebelo de Sousa, eis que o ministro veio também anunciar publicamente que «o Governo vai tomar uma iniciativa legislativa para impedir que dirigentes políticos sejam proprietários de empresas de sondagens».
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2004-10-15

Neo-conservadores Americanos Preparados para Uma Nova Guerra

http://jornal.publico.pt/2004/10/13/Destaque/X01CX02.html

Por ALEXANDRA PRADO COELHO

Quarta-feira, 13 de Outubro de 2004

Os sinais estão aí. Por todo o lado, na imprensa ou na Internet, surgem referências cada vez mais frequentes à eventualidade de uma intervenção militar no Irão. Os neo-conservadores, influentes junto da Administração norte-americana, sempre defenderam uma mudança de regime na República Islâmica e voltam agora a fazê-lo de forma mais audível, num processo muito semelhante ao que se passou com o Iraque.
Tal como no caso iraquiano, há indicações de que o Irão está a desenvolver armas ameaçadoras - neste caso nucleares - e os responsáveis em Teerão mostram-se cada vez menos disponíveis para dialogar e negociar sobre esta questão, argumentando que o seu programa nuclear tem fins civis. A situação tem todos os ingredientes para um choque frontal. O mais provável é que, como aconteceu com o Iraque, alguns defendam sanções e pressões internacionais e outros a via militar.
O maior defensor do projecto de uma mudança de regime em Teerão é Michael Ledeen, consultor do Pentágono e membro do "think-tank" conservador American Enterprise Institute. Num artigo disponível na National Review Online, Ledeen escreve: "O 'Eixo do Mal' era - e é - muito real, como os tiranos do Irão, Iraque e Coreia do Norte sabem muito bem. Há agora provas abundantes da cooperação entre eles e com os seus amigos líbios, sírios e paquistaneses, que vai dos projectos nucleares a outras armas de destruição maciça e ao apoio vital (às vezes em conjunto, outras separadamente) à rede terrorista".
Ledeen defende mesmo que "não se devia ter começado com o Iraque, mas com o Irão, a mãe do moderno terrorismo islâmico, criador do Hezbollah, aliado da Al-Qaeda, financiador de Zarqawi [o terrorista responsável por muitos dos atentados, raptos e execuções de estrangeiros no Iraque], há muito financiador da Fatah e espinha dorsal do Hamas". E retoma um argumento que já usou no passado, antes da guerra no Iraque - o de que os iranianos estão prontos a apoiar uma mudança de regime a partir do exterior, com "centenas de milhar de jovens dispostos a desafiar os seus opressores nas ruas das principais cidades".
A actual situação dos neo-conservadores americanos não é clara. Alguns analistas dizem que o desastre no Iraque os fez perder a influência, mas outros, nomeadamente na CIA e no Departamento de Estado, têm vindo a avisar que os "neo-cons" poderão ter uma renovada influência se Bush ganhar um segundo mandato.
Uma das figuras identificadas com o movimento neo-conservador, Paul Wolfowitz, continua a ser vice-secretário da Defesa dos EUA, e, como noticiou o Asia Times Online, esteve muito recentemente num seminário intitulado "IV Guerra Mundial: porque é que estamos a combater, quem é que estamos a combater, como é que estamos a combater". Um dos oradores foi o destacado neo-conservador Norman Podhoretz, que disse que as tácticas usadas por Israel nos territórios palestinianos são "o modelo para combater este tipo de guerra" e afirmou que "o Irão está, sem dúvida, na agenda" de uma segunda Administração Bush. "Não tenho dúvidas de que teremos que o fazer, e fazê-lo rapidamente", disse, segundo o AsiaTimes.
Tem também havido reuniões com dissidentes e oposicionistas iranianos, que são vistos como apoios essenciais no projecto de mudança de regime. Segundo Tom Barry do Interhemispheric Resource Center, nos EUA, estas reuniões envolvem membros da Administração Bush - como Douglas Feith, sub-secretário da Defesa - figuras neo-conservadoras, um negociante de armas iraniano no exílio, Manichur Ghorbanifar, que diz falar pela oposição iraniana, e outros, como o irano-americano Rob Sobhani, próximos do filho do antigo Xá do Irão, Reza Pahlavi.
O tema de uma intervenção militar no Irão tem surgido também com frequência na imprensa israelita. Um artigo intitulado "No próximo ano em Teerão", Amir Oren revela que nos últimos três anos o principal jogo de guerra das forças armadas norte-americanas tem sido centrado no Irão. "Não vale a pena tentar esconder o 'background' iraniano do acontecimento, no qual participa um elevado número de oficiais e civis - mais de 500 anualmente - incluindo observadores de países estrangeiros", explica Oren.
Aliás, o Pentágono não parece muito preocupado em esconder: no jogo, o país inimigo chama-se "Nair" e é explicado aos participantes que é um Estado de ficção inspirado na geografia e cultura do Irão. "[...] preparativos sistemáticos estão a ocorrer para um tipo diferente de operação militar", explica o autor do artigo, "não contra alvos nucleares, mas contra o regime que se recusa a parar".
No cenário ficcional de "Nair", prevêem-se problemas. Mesmo que Teerão seja conquistada e o regime derrubado, é possível que haja resistência (uma lição aprendida no Iraque) e que "quatro em cada cinco iranianos a apoiem".
Num domínio menos ficcional, os analistas israelitas e não-israelitas debruçam-se sobre o cenário - que alguns consideram possível e outros altamente improvável - de um ataque de Israel às instalações nucleares iranianas, à semelhança do que o Estado judaico fez em 1981, destruindo o reactor nuclear iraquiano de Osirak. Aluf Benn, no "Ha'aretz", sublinha que no caso do Irão um ataque deste tipo seria muito mais complicado - por um lado, a distância é maior e as instalações nucleares iranianas estão espalhadas pelo território, por outro há sérias possibilidades de Teerão retaliar. O teste realizado recentemente pela República Islâmica do míssil de longo alcance Shahab-3 parece ter sido um aviso a Telavive.

2004-09-27

Será Sócrates a melhor opção?

[Artigo enviado em 2004-09-20 para publicação no Público. A fila de artigos sobre a campanha que o antecediam e os poucos dias para os publicar em tempo terá impedido a publicação]

Na eleição do secretário-geral do PS o que está em jogo é o regresso do partido ao Governo. Com forte probabilidade, daqui a dois anos, se José Sócrates ganhar. Ou bastante mais tarde se ele perder.
O que concita a atenção e o empenho dos socialistas e de muitos outros portugueses não é a função em si do secretário-geral mas a do futuro candidato a 1ºM, pese embora a norma estatutária que obriga formalmente a prévia decisão da Comissão Política Nacional do PS. É o mesmo equívoco – que poderia dar origem a estimulante debate teórico mas se encontra ultrapassado pela realidade dos últimos 20 anos – entre a legitimidade política-eleitoral e a legitimidade constitucional que se colocou com a nomeação na "secretaria" de Santana Lopes para Chefe do Governo.
A identificação do secretário-geral com o futuro candidato a 1ºM e a personalização das eleições para a Assembleia da República na figura do candidato a chefe do Governo vai também ao arrepio da norma, neste caso, da norma constitucional mas… "é a vida"!
É no contexto da situação política nacional, caracterizado pela zanga dos eleitores com o Governo, bem explícita nas últimas eleições para o Parlamento Europeu, que a disputa interna e personalizada no PS ganha relevo no país e apela à responsabilidade cívica dos seus filiados.
Sócrates apresenta um bom programa muito próximo aliás, de qualquer dos outros nos objectivos e preocupações de coesão social e das garantias sociais dos Portugueses mas que sublinha mais e melhor a necessidade vital do desenvolvimento sustentável do país no contexto dos novos desafios colocados pelo mundo globalizado.
Sem dúvida que sou sensível ao discurso emotivo de Manuel Alegre. Não é impunemente que vivemos o mesmo mundo e enfrentámos, cada um a seu modo, a ditadura. Sou sensível ao passado do resistente, ao prestígio do político e à obra do homem de cultura que ele é. Mas não se pode deixar de constatar o desajustamento à realidade para que apontam algumas propostas e sinais do seu discurso.
Sem dúvida que a candidatura de Manuel Alegre juntando-se à de João Soares numa oposição vigorosa à candidatura de José Sócrates está a "agitar as águas". A multiplicidade de candidaturas, proporcionando uma vigorosa disputa, despertou o PS e convocará milhares dos seus membros para uma participação activa. Pelo civismo com que têm decorrido, onde os ataques pessoais tem tido pouca expressão face ao confronto de ideias, pela projecção nacional e o seu ineditismo, esta campanha eleitoral no PS não deixará de ser um case study e desde já um salutar exemplo de civismo e democracia.
A controvérsia sobre o apoio que 95% do "aparelho" do PS dispensaria a Sócrates conduz-nos à génese das candidaturas.
João Soares é candidato desde Março. Manuel Alegre procura desvalorizar considerando-a, na sua origem, como uma mera candidatura contra Ferro Rodrigues. Parece, afinal, que não é bem assim. João Soares tem um "aparelho" próprio (não estou a atribuir qualquer conotação pejorativa a este "aparelho" no qual aliás tenho muitas e boas amizades a começar pela do candidato) constituído por um grupo largo de amigos que de longe em longe, ao longo de muitos anos, se juntam, confraternizam e apoiam as políticas do PS.
Manuel Alegre, mesmo que depois se tenha justamente entusiasmado, chega a candidato contra a sua vontade. Ele próprio explica que se quisesse tais labutas e alturas tinha-se candidatado 20 anos antes. E, com cativante ternura, diz que para tal passo também contribuiu a sua filha mais nova afoitando-o "ao combate da sua vida".
Custa-me a crer que a motivação de muitos dos ilustres apoiantes de Manuel Alegre e que julgo serem os principais responsáveis pelo seu tardio mas empolgante combate tenha sido um irreprimível pendor esquerdizante que os levaria a uma incontornável incompatibilidade ideológica com Sócrates, supostamente em perigoso desvio de direita.
Julgo que esse grupo não se sentindo bem representado por José Sócrates legítima e prosaicamente decidiu criar uma candidatura alternativa, lutar por um bom mas minoritário score eleitoral que garantisse, de acordo com o estatutário método de Hondt, um favorável posicionamento para discutir nas estruturas dirigentes, políticas e lugares.
Só que a dinâmica eleitoral impondo a necessidade de diferenciação conduziu a uma retórica "esquerdizante" que talvez não estivesse prevista à partida.
Resta, sobre a génese das candidaturas, descobrir o mistério que levou "95% do aparelho" a "entronizar" José Sócrates. Salvo investigação mais apurada julgo estar em situação de poder levantar, pouco que seja, a ponta do véu que dá ao caso tão excitante frisson.
Quando a situação de Ferro Rodrigues se fragilizou muitos socialistas e muitos outros portugueses interrogaram-se sobre o futuro da liderança do PS. Conversei muitas vezes sobre isto com os meus amigos. Até no café onde a bica nos amplia a sensação de maiores poderes. E isto passava-se comigo que era um "ferrista" de primeira hora! E que defendi eleições para a AR, com Ferro Rodrigues à frente do PS, por razões de princípio, quando Durão fugiu às suas responsabilidades e se refugiou em Bruxelas. Fi-lo publicamente, não com a notoriedade dos jornais mas, como se pode verificar, em puxapalavra.blogspot.com, num blog que compartilho com amigos.
Pois quando Ferro Rodrigues decidiu abandonar o cargo de secretário-geral a minha escolha foi imediata. O mistério que me levou ao apoio a Sócrates tem uma história. Observei o seu desempenho enquanto Secretário de Estado e como Ministro do Ambiente. Aprovei orientações, apreciei a combatividade e a firmeza do governante.
Depois Sócrates, como aliás outros políticos, nomeadamente Manuel Maria Carrilho, mas este com menos sucesso, esteve exposto na TV. E a TV tanto pode prestigiar e "fazer" políticos como pode matá-los. Também aí avaliei positivamente as prestações de José Sócrates. Pelas ideias, pelo denodo na sua defesa e também pela sua capacidade de comunicação.
Claro que havia outras pessoas usufruindo de largo consenso das quais as mais óbvias eram António Vitorino e Jorge Coelho. Mas foi Sócrates que se candidatou!…
Que se terá passado com o "aparelho" do PS? Se estamos a falar das suas estruturas, os órgãos de direcção nacionais, das federações, das concelhias, das secções, todos eles eleitos, se ainda lhes juntarmos os eleitos do PS nas autarquias, na Assembleia da República ou no Parlamento Europeu então estamos a falar de parte essencial do corpo e da alma do PS. Se grande parte destes quadros políticos manifestou imediato apoio a José Sócrates não abriria a boca de espanto se tivessem chegado às mesmas conclusões que eu. Por idênticos caminhos.
Conhecidas as moções, os discursos e os apoios é incontornável a semelhança das grandes linhas programáticas. Estranho seria que assim não fosse. Por isso as opções vão recair principalmente na capacidade de liderança dos candidatos. Na capacidade de unir e mobilizar o PS e de ganhar a maioria dos Portugueses nos combates políticos e eleitorais que se avizinham para derrotar a direita.
E, na minha opinião, José Sócrates é, para tal desiderato, indubitavelmente a melhor opção.
Raimundo Narciso
Apoiante de José Sócrates

Still Seeking a Fair Florida Vote

[By Jimmy Carter. Washington Post - Monday, September 27, 2004; Page A19]
After the debacle in Florida four years ago, former president Gerald Ford and I were asked to lead a blue-ribbon commission to recommend changes in the American electoral process. After months of concerted effort by a dedicated and bipartisan group of experts, we presented unanimous recommendations to the president and Congress. The government responded with the Help America Vote Act of October 2002. Unfortunately, however, many of the act's key provisions have not been implemented because of inadequate funding or political disputes.
The disturbing fact is that a repetition of the problems of 2000 now seems likely, even as many other The Carter Center has monitored more than 50 elections, all of them held under contentious, troubled or dangerous conditions. When I describe these activities, either in the United States or in foreign forums, the almost inevitable questions are: "Why don't you observe the election in Florida?" and "How do you explain the serious problems with elections there?"
The answer to the first question is that we can monitor only about five elections each year, and meeting crucial needs in other nations is our top priority. (Our most recent ones were in Venezuela and Indonesia, and the next will be in Mozambique.) A partial answer to the other question is that some basic international requirements for a fair election are missing in Florida.
The most significant of these requirements are:
• A nonpartisan electoral commission or a trusted and nonpartisan official who will be responsible for organizing and conducting the electoral process before, during and after the actual voting takes place. Although rarely perfect in their objectivity, such top administrators are at least subject to public scrutiny and responsible for the integrity of their decisions. Florida voting officials have proved to be highly partisan, brazenly violating a basic need for an unbiased and universally trusted authority to manage all elements of the electoral process.
• Uniformity in voting procedures, so that all citizens, regardless of their social or financial status, have equal assurance that their votes are cast in the same way and will be tabulated with equal accuracy. Modern technology is already in use that makes electronic voting possible, with accurate and almost immediate tabulation and with paper ballot printouts so all voters can have confidence in the integrity of the process. There is no reason these proven techniques, used overseas and in some U.S. states, could not be used in Florida.
It was obvious that in 2000 these basic standards were not met in Florida, and there are disturbing signs that once again, as we prepare for a presidential election, some of the state's leading officials hold strong political biases that prevent necessary reforms.
Four years ago, the top election official, Florida Secretary of State Katherine Harris, was also the co-chair of the Bush-Cheney state campaign committee. The same strong bias has become evident in her successor, Glenda Hood, who was a highly partisan elector for George W. Bush in 2000. Several thousand ballots of African Americans were thrown out on technicalities in 2000, and a fumbling attempt has been made recently to disqualify 22,000 African Americans (likely Democrats), but only 61 Hispanics (likely Republicans), as alleged felons.
The top election official has also played a leading role in qualifying Ralph Nader as a candidate, knowing that two-thirds of his votes in the previous election came at the expense of Al Gore. She ordered Nader's name be included on absentee ballots even before the state Supreme Court ruled on the controversial issue.
Florida's governor, Jeb Bush, naturally a strong supporter of his brother, has taken no steps to correct these departures from principles of fair and equal treatment or to prevent them in the future.
It is unconscionable to perpetuate fraudulent or biased electoral practices in any nation. It is especially objectionable among us Americans, who have prided ourselves on setting a global example for pure democracy. With reforms unlikely at this late stage of the election, perhaps the only recourse will be to focus maximum public scrutiny on the suspicious process in Florida.
Former president Carter is chairman of the Carter Center in Atlanta.

2004-09-21

O serviço Militar e a Cidadania. Da batalha de Ourique à era nuclear.

Artigo publicado por Raimundo Narciso, deputado do PS, membro da Comissão de Defesa da Assembleia da República, em Nação e Defesa n.º 91 - Outubro 99 . 2ª Série
(revista trimestral do Instituto de Defesa Nacional)

A perspectiva da substituição do serviço militar obrigatório (SMO) pelo voluntariado tem provavelmente a concordância da maioria da população, mas tem sido encarada nalguns meios civis e militares com preocupação e mesmo, nalguns casos, com perplexidade.
Sem dúvida que uma mudança tão transcendente para as Forças Armadas e para a Defesa Nacional não poderia deixar de suscitar interrogações e a máxima atenção dos militares, dos políticos e dos cidadãos mais atentos.
Curiosamente foram as consequências de ordem cívica e cultural da extinção do SMO e não as de carácter directamente militar que tiveram mais eco na comunicação social. Isso deve-se, em parte pelo menos, ao facto de que rareiam os especialistas civis em assuntos militares e ao facto de os militares no activo terem os seus direitos de expressão e outros, excessivamente limitados pelo artigo 31º da Lei de Defesa Nacional, o que urge alterar.

Porquê extinguir o SMO?

Desde o fim da guerra fria que na Europa decidiram extinguir o SMO, a Holanda, a Bélgica, a França e a Espanha. E parece ser essa a tendência predominante em vários países do Leste europeu, nomeadamente na Roménia e na Rússia. A Alemanha mantém o SMO mas as facilidades para o substituir por um serviço cívico são tão grandes que o torna quase voluntário. A Inglaterra, como se sabe, tem uma tradição de voluntariado, como aliás sucede com os parceiros da NATO, além Atlântico, os Estados Unidos da América e o Canadá.
Vemos assim que a decisão de Portugal de abandonar o SMO, em tempo de paz*, não surge isolada, como um caso insólito, antes resulta de causas comuns a outros países europeus da NATO. E que causas são essas? São de duas ordens. Uma, a mais profunda e lenta que se vem acentuando desde a Segunda guerra mundial, tem a ver com a revolução na ciência e na técnica e suas consequências no armamento e na capacidade de informação, comunicação, comando e controlo. O surgimento da arma nuclear, da informática, dos mísseis inteligentes, dos satélites que permitem visionar todo globo terrestre, a panóplia de novas e sofisticadíssimas armas não podiam deixar de ter consequências determinantes na forma de fazer a guerra e consequências inevitáveis para o formato dos exércitos. O potencial militar e a capacidade de submeter o inimigo deixou de ter, como antes, uma relação directa com o número de efectivos. A revolução científica e técnica tornou cada vez mais obsoletos os exércitos que apostavam no número de soldados e como o serviço militar obrigatório é o meio para se ter exércitos grandes era previsível que ele viesse, a prazo, a ser questionado.
A segunda causa da obsolescência do SMO, pelo menos nesta fase histórica, e a que se revela mais determinante para Portugal, pequena potência sem acesso às armas e meios mais modernos e poderosos, é o fim da confrontação Leste-Oeste que criou uma situação política e estratégica nova no nosso continente e no mundo com o correspondente aparecimento de novas missões para as Forças Armadas.
Tal como a revolução científica e técnica e de uma forma mais directa e imediata, no contexto da Europa, da NATO e da União Europeia, o desaparecimento do perigo de invasão do território não apenas de Portugal mas de qualquer dos seus parceiros da Aliança Atlântica, influi no sentido da desnecessidade de Formas Armadas massivas e portanto do SMO.
As Forças Armadas Portuguesas têm como primeira missão permanente a defesa do território e da soberania nacional e sem prejuízo das missões especificamente militares têm importantes missões públicas ao serviço dos cidadãos mas, como intervenções militares activas, o que as nossas FFAA têm no seu horizonte por muitos anos são do tipo das que nos últimos anos têm tido na Bósnia-Herzegovina, em Angola, ou na Guiné-Bissau.
As "guerras das nações", como as classifica Michael Howard, (1) que caracterizaram o último quartel do século XIX e a primeira metade do actual e que têm o seu paradigma nas batalhas, não com milhares, como até essa altura, mas com milhões de homens, como na Grande Guerra de 1914/18 e na 2ª Guerra Mundial, constituem a causa da implantação do SMO.
Nestas guerras massivas a vitória era determinada fundamentalmente pelo número de soldados que cada potência podia conduzir aos campos de batalha. O serviço militar obrigatório, extensivo a toda a população do Estado, como um elemento estruturante da cidadania foi, é certo, um conceito ideológico elaborado pelos filósofos do século XVIII. No entanto só se viria a impor na vida real, apesar da resistência das populações, por uma necessidade imperiosa da guerra e não para materiliazar um dever ou um direito de cidadania.
Simplificando a realidade para enfatizar a importância de um factor tecnológico na forma de fazer a guerra e mudar o tipo de serviço militar diria que, mais do que as exigências da cidadania, foi o comboio o responsável principal, não pelo surgimento do conceito mas pela implantação prática do serviço militar obrigatório.
O aparecimento do comboio permitiu conduzir à frente de batalha vagas ininterruptas de víveres, armas, munições e homens. Com a excepção das guerras revolucionárias e das guerras napoleónicas, as antigas "guerras dos profissionais", do século XVIII e parte do século XIX, que por razões logísticas não tinham por vantajosos os exércitos com mais de 60 ou 80 mil homens, deram lugar a guerras que envolviam milhões de combatentes e exigiam a mobilização de todo o potencial humano das nações, exigiam o SMO.

Que ligação há entre SMO e cidadania?

Sendo incontroverso que o serviço militar obrigatório se impôs, na Europa, no século XIX, pela novas necessidades da guerra cabe, no entanto, perguntar se toda a retórica em torno do seu papel estruturante da cidadania, da consolidação das nações, de mediador da "nação em armas", não passará de "ideologia" para convencer uma população que se mostra refractária a marchar para o matadouro da guerra.
Tendo em conta a associação ideológica do serviço militar obrigatório às ideias republicanas, democráticas ou de esquerda, fará ainda qualquer sentido exigir a sua continuação com o receio de um imaginário regresso aos impopulares exércitos profissionais do século XIX? Exércitos profissionais como o francês pós-Napoleão, o inglês, o prussiano, o austríaco ou o russo, que nos meados do século passado "se mantiveram ocupadíssimos a reprimir motins e revoluções dentro das fronteiras dos respectivos Estados em vez de lutarem ou se prepararem para lutar uns contra os outros"? (Michael Howard. op. cit. pág. 114)
Veremos que a resposta a estas questões não pode ser linear e que tem fundamento a relação, que começou por ser apenas conceptual, entre serviço militar e cidadania.
Para melhor nos apercebermos da relação entre a cidadania e o SMO, parece-me importante estudá-lo numa perspectiva histórica, no seu devir, e no espaço alargado da Europa. Será necessário passar um breve olhar pelo caso da França, a "pátria da conscrição" onde o conceito se formou e partir depois para o estudo do SMO em Portugal avaliando-o no contexto das formas muito diversificadas de serviço militar que o antecederam.

A França - "pátria da conscrição"

O conceito moderno de serviço militar obrigatório, extensivo a todos os cidadãos do sexo masculino ou universal começa, segundo Raoul Girardet (3) a formar-se com os enciclopedistas, os filósofos franceses do século XVIII.
O conceito de serviço militar obrigatório, em conexão estreita com o conceito de cidadão surge de forma clara e expressiva no artigo "Armées" da Enciclopédia, a obra maior de Diderot, elaborada entre 1746 e 1776, quando o filósofo diz que "il faudrait que, dans chaque condition, le citoyen eût deux habits, l´habit de son etát et l’habit militaire".
Montesquieu dá do serviço militar obrigatório a mesma noção e também Jean-Jacques Rousseau, no seu ensaio sobre "O Governo da Polónia", retoma esta mesma ligação estreita entre conscrição e cidadania. Para ela contribuem também, militares e homens de letras. Nesta época o serviço militar obrigatório é também defendido e divulgado por Maurice de Saxe em "Rêveries", por Servan, numa publicação de 1780, denominada "Le soldat citoyen" ou pelo marechal de Belle-Isle.
Mais pelo pioneirismo na elaboração do conceito do que pela sua consagração na prática, a França tornou-se uma referência obrigatória quando se fala de serviço militar obrigatório.
Girardet garante que apesar de toda a retórica que atribui à Revolução Francesa a instauração da conscrição, isso não corresponde à realidade histórica.
De facto, nos primeiros passos da revolução francesa o deputado à Assembleia Constituinte Dubois-Crancé, em Dezembro de 1789, procura em vão aprovar o serviço militar obrigatório explicando que "em França todo o cidadão deve ser soldado e todo o soldado cidadão". Mas a ideia teve apenas o apoio muito restrito de uma minoria de deputados e foi rejeitada em nome, quem diria!... da liberdade.
Com a Revolução Francesa nasce isso sim, na sua fase inicial e moderada a Guarda Nacional que fornecerá ao Exército forças constituídas por civis armados. Mas que civis? Apenas os que provassem ter um nível de riqueza acima de certo limiar, os chamados cidadãos activos, os únicos que tinham ganho o direito de voto, no sistema eleitoral censitário aprovado pela Constituinte. Esta, que apenas três meses antes aprovara a progressista Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, já recuava assustada com a entrada das classes mais desfavorecidas no movimento revolucionário e aprovava uma lei eleitoral de que excluía os franceses mais pobres. O sufrágio universal teria de esperar pelo levantamento popular de Paris, em 10 de Agosto de 1792, que acabaria por levar ao poder os jacobinos Robespierre e Marat.
Outra referência incontornável quando se estuda o processo de enraizamento do serviço militar obrigatório em França, é a batalha de Valmy que representa a primeira grande vitória da Revolução face aos exércitos invasores da Áustria imperial e da Prússia monárquica já com o caminho aberto para Paris.
Mas é necessário precisar que a vitória de Valmy não se deve ao serviço militar obrigatório. Ele não existia então a não ser que queiramos indevidamente dar esse nome às sucessivas mobilizações do povo revolucionário, principalmente em Paris, para salvar a revolução. A vitória de Valmy é conseguida ainda com o exército real do antigo regime mas reforçado, e talvez decisivamente, por uma mobilização geral de todos os homens válidos de Paris. Apesar da sua duvidosa preparação, são os 60 mil civis armados chegados da capital que dão um novo moral às tropas e decidem do desfecho da batalha.
A "levée en masse", a mobilização geral do povo francês para a guerra, decretada em 23 de Agosto de 1793, pela Convenção, outra referência que se pretende comprobatória do serviço militar obrigatório, é apenas uma medida que tem os limites temporais e os contornos da defesa da revolução. Não é ainda, muito longe disso, a institucionalização do serviço militar obrigatório.
O artigo 1º do decreto de mobilização dizia: "Desde este momento, até à expulsão dos inimigos do território francês todos os Franceses estão permanentemente requisitados."
São então requisitados para as fileiras todos os jovens dos 18 aos 23 anos.
Com a requisição em massa, no início de 1794, a jovem República conseguiu pôr em linha 600 mil combatentes que lhe permitiu enfrentar a Europa monárquica coligada.
A Revolução Francesa vai consagrar, isso sim, com a Lei Jourdan, de 5 de Setembro de 1798, uma forma que representa uma aproximação do serviço militar obrigatório universal, o sistema de sorteio. Consagra-se o princípio da conscrição e submetem-se ao serviço militar os jovens dos 20 aos 25 anos. São incorporados por sorteio os que forem necessários ao Exército. Mais tarde o sistema é adulterado e entra-se num período histórico, que vai até 1872 em que, quem tiver dinheiro compra um infeliz que o substitua.
Na realidade o sistema livrava do serviço militar os filhos de todos os que estivessem acima do remediado. Os desfavorecidos da sorte que não conseguiam escapar ao serviço militar estavam, além disso, proibidos de se casar durante os cinco, seis ou oito anos, tantos quanto durava o serviço militar imposto. A sua situação era tão deplorável que frequentemente a vida os empurrava para a continuação indefinida nas fileiras. Por isso, em todo esse período, o exército francês, como o nosso, mais do que um exército profissional é um exército de soldados velhos.
Lá, como em Portugal, durante todo este período, há uma clara repulsa e medo da requisição para as fileiras, excepto naquelas camadas que pela sua situação endinheirada estava livre do perigo.
Para a França, 1870 é o momento de tirar lições a respeito da conscrição. Lições amargas que a levam a não adiar por mais tempo o serviço militar obrigatório a que a população francesa resistia. Nesse ano, o imperador Napoleão III, para escamotear problemas sociais internos, desafia a Prússia. Mas esta, que tinha um exército municiado pela torrente contínua do serviço militar obrigatório universal desde 1814, criado por Gerhard von Scharnhorst (o mestre de Clausewitz) e Frederico Guilherme III, derrota um exército de cem mil homens comandados pelo próprio Napoleão III, na batalha de Sedan, em Setembro de 1870. Vitorioso, o rei da Prússia, Guilherme I, humilha a França proclamando-se imperador no palácio de Versalhes, em 18 de Janeiro de 1871. Em 1872, já em plena III República, é decretado o serviço militar obrigatório para todos os homens.
Mas resistências à universalidade do serviço militar subsistem e com elas, ainda que de forma mais mitigada, o sistema de sorteio e certas isenções.
Só com a lei de 1905 o serviço militar obrigatório, com a sua configuração moderna, respeitando o princípio da sua universalidade e com um sistema coerente de serviço militar efectivo, situação de reserva e reserva territorial é instituído em França.
O processo histórico de implantação do serviço militar obrigatório e a sua ligação à ideia de cidadania, pode, em França, dividir-se em três fases. A primeira vai da elaboração ideológica pelos filósofos, na segunda metade do século XVIII até à Revolução Francesa. A segunda fase, denominada de sistema Jourdan e que corresponde ao sistema de sorteio, às isenções e à incorporação dos infelizes que não têm o dinheiro suficiente para se livrarem, vai de 1798 a 1872 durante a III República, após a derrota face à Prússia. E a terceira fase vai desde essa data até a actualidade. Até ao presidente Chirac.
A Inglaterra desde a revolução burguesa de 1663, em três séculos de História, adoptou o recurso da conscrição apenas durante trinta anos. Durante a 1ª e 2ª Guerra Mundial e, na sequência desta, até 1963. Os EUA adoptaram Forças Armadas profissionais desde a independência, excepto em curtos períodos - Guerra da Secessão, 1ª e 2ª Guerra Mundial e depois, durante a guerra fria, até ao fim da guerra do Vietname.
A Grã Bretanha, por ser uma ilha e os EUA por serem uma quase-ilha, só necessitaram do serviço militar obrigatório em tempo de guerra. E não deixaram por isso, de constituírem nações e os seus habitantes terem consciência cívica e patriótica.
Gerard Bonnardot, num estudo sobre a conscrição e o exército profissional, no Reino Unido, (4) considera que desde 1679, com o acto institucional do habeas corpus, ao garantir o primado da liberdade individual em matéria de justiça, se tornou juridicamente inaceitável o constrangimento físico para assegurar a defesa do país, fora de circunstâncias excepcionais, como a de perigo de guerra.
Em Portugal, como aliás na Europa continental, o processo de afirmação do serviço militar obrigatório, como nova técnica de recrutamento e como valor de identificação nacional, à parte os filósofos, seguiu um percurso idêntico ao da França, nos seus aspectos mais gerais.
Numa linha de defesa do serviço militar obrigatório à outrance há quem use o argumento de que a sua extinção questionaria a própria nacionalidade com base na presunção de que o serviço militar obrigatório existe desde que há Portugal.
Esta opinião não é sustentada pela realidade. Ela tem na base a assimilação da conscrição às formas compulsivas de obrigar à participação na defesa, não os cidadãos, conceito que só surge muitos séculos após a fundação do reino, mas os súbditos da Coroa.
Lancemos então um olhar retrospectivo ao serviço militar que Portugal adoptou desde a sua origem até a actualidade. Às formas e aos critérios de recrutamento. Talvez isso ajude a avaliar com mais segurança as consequências da profissionalização nas condições do mundo de hoje.

Das milícias concelhias de D. Dinis à Restauração.

O Condado Portucalense e depois Portugal mais do que outros reinos ou principados da Europa de então, por se encontrar na fronteira de duas civilizações antagónicas, a Cristandade e o Islão, viu-se obrigado a cuidar com a máxima energia e saber da sua defesa. É esta situação de fronteira que conduz Portugal a certas formas de organização social e do território nomeadamente no domínio da organização da sua defesa, que parcialmente o distinguem da ordem feudal da época.
Com as fronteiras de Portugal praticamente estabelecidas, necessitava o rei D. Dinis de as defender dos inimigos externos e com maior urgência ainda da nobreza que por todo o país tentava alargar os seus poderes senhoriais em prejuízo do poder central do rei.
Com as leis de 1290, ataca D. Dinis os desmandos da nobreza feudal e diminui o seu poder, nomeadamente "proibindo os grandes senhores de possuírem recintos fortificados". Compensa o rei o enfraquecimento do poder militar da nobreza, um dos pilares da organização militar do reino, com a primeira organização regular das milícias concelhias. A reorganização militar do reino, executada por D. Dinis, na qual a institucionalização das milícias concelhias terá um papel chave, que se repercutirá ao longo de todo o século XIV, é inspirada no Livro das Sete Partidas de seu avô, Afonso X de Castela.
As milícias concelhias de Besteiros de Conto (besteiros porque usam a besta, arma portátil de arremesso, e do conto porque cada concelho tem de fornecer um número determinado de homens) resultam do alistamento obrigatório de um número fixo de homens que além dos pequenos lavradores inclui agora, e essa é a novidade, os homens de ofício ou mesteirais.
Com uma força militar planeada, em tempo de paz, em cada concelho, ainda que de concretização problemática, o rei passa a dispor de uma força acrescida face à nobreza todo poderosa.
O rei passa agora a contar com quatro tipos de forças distintas pela natureza do seu recrutamento e capacidade militar:
– cavalaria dos nobres acontiados, designação que quer dizer pagos;
– cavalaria das ordens religiosas, uma força permanente, profissional e muito poderosa.
– cavalaria vilã, pertencente ao terceiro estado, cuja participação é gratuita, mas permite adquirir compensatórias regalias;
– milícia municipal dos besteiros de conto, composta por pequenos proprietários de terra e por mesteirais submetida ao serviço militar não remunerado e que assume também um papel de reserva de recrutamento.
Para a boa organização das milícias municipais foi criada uma estrutura e linha hierárquica de que faziam parte os anadéis, capitães dos besteiros a quem cumpria garantir os efectivos estabelecidos para a sua área geográfica, a anadaria (distrito militar), o seu armamento e treino.
As Ordens Militares tiveram durante muitos séculos uma importância muito grande na História nacional.
A cavalaria das Ordens Militares era uma força militar que se pode considerar profissional e permanente. Isso dava-lhe um grande poder relativamente às outras forças armadas. Elas tiveram um grande papel quer na política de conquista e alargamento das fronteiras de Portugal quer nos empreendimentos militares dos séculos posteriores e por isso a partir de certa altura a coroa passou a controlá-las de perto fazendo seus Mestres familiares do rei quando não ele próprio.
As ordens militares dos Templários e dos Hospitalários pouco activas no Condado Portucalense têm, no entanto, um papel importante logo com D. Afonso Henriques: "A conquista de Lisboa e Santarém é que parece ter marcado uma importante viragem na penetração e activação das duas ordens palestinianas entre nós." (5)
Na década de setenta do século XII surgem em Portugal duas novas ordens militares de origem peninsular, uma leonesa, a de Santiago da Espada e outra portuguesa a dos freires de Évora que adoptará o nome de Ordem de Avis depois da doação desta região, por D. Afonso II em 1211. (6)
Uma medida de grande alcance do rei D. Dinis é a "nacionalização" das ordens militares com sede noutros países e dependentes de Grão-Mestres estrangeiros, como era o caso dos Templários, Hospitalários e Santiago da Espada.
Os templários portugueses, passaram mais tarde, a integrar a nova Ordem de Cristo. D. Dinis tal como os reis de Castela e Aragão salvaram os mestrados da Ordem do Templo situados nos seus reinos do aniquilamento que atingiu a Ordem. O seu poderio, riqueza e abusos, levou Filipe o Belo, rei de França, movido pelo temor e a inveja e com a tolerância do papa Clemente V, a apoderar-se dos seus valiosos bens e a extinguir a Ordem, em 1307, na sequência dum processo fraudulento que levou à fogueira o seu Mestre. (7)
Ao contrário das forças próprias de cada grande senhor, que vão perdendo força relativa ou vão desaparecendo, com a extinção da sociedade feudal e a centralização do poder real, as milícias concelhias ou terços de auxiliares que surgem com D. Dinis, constituem outro pilar da defesa de Portugal que vai perdurar por sete séculos até ao Constitucionalismo.
As reformas militares de D. Fernando.
No último quartel do século XIV, o rei D. Fernando, chefe militar incapaz mas razoável organizador, após as nefastas guerras contra Castela e respectivos reveses, procurou melhorar a organização militar do reino com a introdução de reformas à legislação militar do seu bisavô.
"No intuito de alargar a obrigação do serviço militar, essas Ordens de 1373 tratavam de averiguar ao certo as rendas e moradores de cada povoação para lhes impor equitativamente o número de homens, armas e cavalos que deveriam ter e faziam apurar o número de jornaleiros para em caso de aperto servirem com as armas dos cavaleiros vilões já pousados (reformados). Assim fazia entrar ao serviço da guerra até a mais ínfima das classes populares, à qual, segundo a legislação da época, não tocava o dever de correr as armas." — diz Carlos Selvagem no seu Portugal Militar (8) para em seguida considerar perfeita esta organização da "nação em armas"!
Talvez mais perfeita na concepção do que na aplicação prática pois esta, esbarrou sempre na dificuldade em motivar os "barrigas ao sol" que sistematicamente fugiam a defender interesses e valores que dificilmente poderiam reconhecer como seus.
A situação dos cavaleiros-vilões era muito diferente, eles foram adquirindo privilégios significativos na guerra como na paz. Formavam na vanguarda da hoste o que constituía uma importante distinção e podiam adquirir cargos públicos, isenções, governo de terras e atingida a idade da reforma, aos 70 anos, idade, aliás, a que poucos chegariam, recebiam do concelho a carta de cavaleiro pousado que lhe permitia manter privilégios.
As ordenações Afonsinas
Menos de um século volvido, ao tempo de D. Afonso V, num período em que os limites de Portugal se encontram consolidados mas persiste o ambiente convulsionado da guerra, agora principalmente com a potência centrípeta que é Castela, as ordenações afonsinas, promulgadas em 1444, mérito da sábia regência de seu tio D. Pedro, sistematizam toda a legislação militar anterior e contemplam a organização de todas as classes e de toda a população para a defesa do reino.
As formas de recrutamento e de prestação do serviço militar tinham evoluído e já ao tempo das reformas militares de D. João I, em 1408, a par da besteria do conto, a milícia municipal, existe a milícia dos acontiados das câmaras, de nível superior aquela. Uma e outra destas milícias continuam a ser uma reserva de forças militares do rei, que lhe acrescenta poder e autonomia face ao poder militar da nobreza.
A milícia dos acontiados das câmaras, é paga e é constituída pelos lavradores que tenham um rendimento superior a um certo valor enquanto a besteria do conto é constituída pelos homens de ofício ou mesteirais, mas só os casados e não lavradores.

As Ordenanças Sebásticas

As Ordenações Afonsinas evoluem e aperfeiçoam-se no reinado do pouco avisado rei D. Sebastião que, com a trágica derrota e morte em Alcácer Quibir, abriu caminho à perda da independência de Portugal. São as Ordenações Sebásticas. Pela lei de 9 de Dezembro de 1569 reorganizava-se a nação para a defesa e, incluindo o que hoje chamaríamos uma lei do serviço militar e lei de mobilização, estabeleciam-se "as obrigações militares da população do reino, conforme as categorias sociais, a propriedade territorial os bens móveis, as profissões e as províncias." (9)
Os grandes fidalgos e outros possuidores de muitas terras e "servos" eram obrigados a ter, operativa, para servir o rei, uma determinada força armada, homens, cavalos, lanças e arcabuzes.
"Os que percebiam 200$000 réis ou mais de rendimento deviam ter cavalos e armas; aqueles cujas rendas não excedessem 100$000 réis, deviam pelo menos ter arcabuzes, finalmente os não proprietários, os mecânicos ou trabalhadores rurais eram obrigados a ter lança, meia lança ou dardo."(Ibidem)
O cumprimento destas obrigações dava direito a privilégios, a fuga a elas implicava penalizações.
A par da organização militar por classes sociais e profissionais estabelecia-se a organização territorial. "Foi esse o objecto do regulamento de 10 de Dezembro de 1570, também chamado Regimento dos capitães mores e mais oficiais das companhias de gente de cavalo e de pé, e da ordem que devem ter em se exercitarem ou Regimento das companhias de ordenanças. (Ordenanças Sebásticas)" ((Ibidem)
O reino foi dividido em grandes distritos de recrutamento, as capitanias-mor com chefes próprios com grande poder, os alcaides mores, auxiliados pelos sargentos-mores de ordenanças. Tinham a obrigação de fazer o alistamento de todos os homens dos 20 aos 60 anos com exclusão dos fidalgos, membros da Igreja, proprietários possuidoras de cavalo e outras classes e categorias da população.

A Restauração e o surgimento do Exército Permanente

Durante os sessentas anos em que Portugal viveu sob a coroa dos Filipes, muita coisa mudara na arte de fazer a guerra e de recrutar os homens necessários para ela.
A guerra da restauração da independência que se prolongaria por três décadas, teve que ser feita com um exército que à partida não existia. E o que se levantou foi à imagem dos que já há muito combatiam nas guerras que assolavam e arruinavam a Europa – um exército profissional e permanente.
Esta é a grande novidade: os soldados do exército de linha eram agora, tal como os quadros, pagos pelo erário régio o mesmo sucedendo aos soldados dos Terços de Auxiliares ou Milícia quando chamados ao activo. Este Exército de Linha inaugurava uma nova era na história militar de Portugal a era dos exércitos profissionais e permanentes, e que iria perdurar por três séculos e meio até ao SMO, já no século XX.
"A partir da Restauração, Portugal passa a ter exércitos profissionais à moda da Europa, de dezenas de milhares de homens, mas mal pagos, deficientemente instruídos e pior equipados e aquartelados.... A incorporação quase forçada de vadios e outros marginais introduzia nas fileiras elementos fermento de vícios." (10)
Portugal para restaurar a sua independência tinha de se preparar rapidamente para fazer frente aos exércitos de Espanha, então ocupados com a Catalunha em rebelião, e à inevitável guerra que se adivinhava e durou, ainda que com intervalos, 28 anos.
A situação era calamitosa. Poucas eram as armas, os cavalos, as fortalezas de fronteira operacionais. A Marinha estava reduzida a uma vintena de obsoletos navios. Mas pior que tudo isto era a escassez de quadros militares preparados e o desmantelamento do sistema de recrutamento, a organização das Ordenanças.
D. João IV começou por criar o Conselho da Guerra, um antepassado dos futuros Ministérios da Guerra, e a reconstituição das Ordenanças Sebásticas, de 1570.
Os oficiais, recrutados entre a nobreza eram nomeados pelo rei e para garantir o recrutamento e a instrução foram nomeados os governadores militares pelas regiões de então e alistados todos os homens dos 16 aos 60 anos.
As Ordenanças forneceram os soldados, escolhidos por sorteio, entre os filhos segundos de todo o terceiro estado, com excepção dos lavradores e das viuvas.
Além do "exército de linha" que constituía o exército combatente, destinado à manobra, foi criado um segundo escalão de forças territoriais – os terços de auxiliares – constituídas pelos homens casados, os filhos de lavradores e de viúvas organizadas em 30 "terços de auxiliares" a 600 homens. Os terços de auxiliares constituíam uma reserva preparada para reforço do exército de linha em combate ou nas guarnições de fortalezas.
Eram forças municipais, organizadas em cada concelho de acordo com a tradição, onde os critérios de recrutamento de graduados e o treino deixavam muito a desejar.
A organização militar de toda a população comportava ainda um terceiro escalão, constituído pelas Companhias de Ordenanças e que tinha a natureza de um depósito de recrutamento dos soldados dos dois primeiros escalões.
Apesar do papel importante dos terços de auxiliares, era manifestamente inferior a qualificação dos seus quadros, escolhidos por critérios não militares, "devendo os seus postos ao empenho e protecção", era menor a sua disciplina e espírito de corpo, e fraca a sua capacidade operacional.
Isso fica bem patente na batalha das Linhas de Elvas, travada a 13 de Janeiro de 1659. Depois de uma difícil e grande vitória das armas portuguesas comandadas pelo conde de Cantanhede, futuro marquês de Marialva, causando grandes perdas ao exército castelhano, os seus resultados práticos ficaram muito diminuídos porque não foi possível perseguir as forças espanholas e obter a exploração do sucesso. Tal situação resultou de a massa das nossas forças nesta batalha ser constituída por milicianos que mal obtida a vitória se desmobilizou e cavalheirescamente "regressou a casa" fugindo aos rigores do inverno com o pensamento nos afazeres agrícolas inadiáveis.
Situação similar ocorreu mais tarde na sequência da vitória das armas portuguesas em Ameixial, em 8 de Junho de 1663. Reconquistadas várias praças alentejanas pretendia o conde de Castelo Melhor, passar à contra-ofensiva e recuperar Vila Viçosa, Crato, Olivença e outras praças mas os camponeses fardados, em especial os terços de auxiliares – a milícia – não resistiram às habituais tréguas de verão, a fugir do calor abrasador e a regressar rapidamente às suas terras para as colheitas.
Além destas forças militares regulares D. João IV tinha ao seu serviço forças especiais: a Guarda Real de Archeiros, formada por cem portugueses com comandante português e cem alemães com comandante alemão, a Guarda Real de Ginetes, o Corpo Académico de Coimbra (um terço) comandado pelo reitor da universidade e vários terços de mercenários holandeses, franceses, ingleses e de outros países entre os quais elevado número de oficiais, contratados a príncipes e outros comerciantes de mão de obra especializada numa actividade em constante expansão – a guerra.
Foi com um exército permanente, tropas profissionais, mercenários, o que havia e se recomendava, na época, que Portugal defendeu e consolidou a sua independência.

O Exército comandado por "mercenários".

Com a paz a Leste a Espanha vira-se para Portugal e o perigo parecia fatal. Já sob a regência de D. Luísa de Gusmão, a rainha viuva de D. João IV, espanhola de nascimento mas boa portuguesa, contrata-se em França, um discípulo de Turenne, o génio militar da época, o conde alemão Schomberg que virá para Portugal com muitos outros oficiais e militares desempregados com o fim das hostilidades entre a França e o império espanhol, firmado pelo Tratado dos Pirinéus.
Com o posto de Mestre de Campo General, assumiu as funções de chefe de estado maior general e de comandante das forças estrangeiras (franceses, ingleses e alemães) e foi ele o reorganizador do Exército português naquela fase final da guerra da restauração.
Como vê Oliveira Martins a situação?
"As duas campanhas de 1641 e 42 não passaram de escaramuças e reconhecimentos. De parte a parte faltavam os meios de combate; não havia exércitos. Os espanhóis esperavam os regimentos que andavam na Flandres e na Catalunha; e o exército português compunha-se de um agregado de mercenários bisonhos sem disciplina, nem comando. Além de que a guerra era no século XVII, coisa diferente do que fora no XIV, via-se que o povo não acudia, como no tempo do Mestre de Avis.
.......
Só a desorganização completa a que a Espanha chegara livrou D. João IV do cativeiro ou da morte, fazendo crer que em Portugal havia, com efeito energia e vontade de independência. O Bragança insistia por que se licenciassem os batalhões mercenários holandeses, por serem hereges, e isto quando a deserção ardia por toda a parte: passavam de 3000 os desertores no princípio de 1643.
.....
Nos anos de 45 e 46 nada se fez.. A deserção fervia; os holandeses mercenários passavam-se para o inimigo e os naturais fugiam para as suas aldeias. O recrutamento em rusgas, assolara todo o reino, e as resistências surgiam por vários pontos. Nas cortes de 1646 ouviu-se um lamento universal: era o povo a dizer os roubos dos capitães-mores, as rapinas da soldadesca, a crueldade dos aboletamentos. Os pais, as mães dos desertores iam presos por culpa dos filhos..." (11)
Com D João V e por alvará de 1707 procede-se a nova reorganização da Exército e estabelecem-se as Novas Ordenanças.
Com esta reforma "proibiu-se a venda de postos militares, bem como a sua troca entre oficiais de linha e oficiais das ordenanças ou dos terços de auxiliares ficando só autorizado entre oficiais de linha da mesma arma e graduação" (12)
Foi exigido saber ler e escrever aos tenentes, alferes e sargentos. "Aboliu-se o antigo uso do alistamento e organização de tropas, a soldo de particulares". (Ibidem)
À reorganização sobreveio a paz e à paz a redução de despesas e o deixa andar. Quando em 1735 um rebate, felizmente falso, nos fez correr ao exército o seu "estado era deplorável". "deviam-se seis meses de soldo aos oficiais, a instrução era nula, faltavam armamentos... tudo se achava desorganizado" (Ibidem)
A nossa excelente organização dos recursos humanos para a defesa militar do país as Ordenanças ficava na prática, frequentemente, muito aquém da teoria. É assim que, reinava já D. José e governava o Marquês de Pombal quando nos bate à porta a guerra dos Sete Anos.
Pombal, recorreu à Prússia de Frederico II, "O Grande", para comprar generais, doutrina, um exército em suma, que era onde os havia dos melhores.
Foi assim que ao nosso já periférico país chegou o prussiano conde Guilherme de Schaumburg-Lippe. Trouxe com ele um príncipe e dois batalhões suíços. Nomeado Marechal general do Exército português reorganizou as nossas forças militares, estabeleceu planos, introduziu novos métodos de instrução, sistemas defensivos de fronteira, técnicas, tácticas e estratégias, e levantou um exército de linha (profissional) com 8 mil portugueses e 8 mil ingleses que a Inglaterra nos enviou para defender os seus interesses aqui e nos ajudar.
Manteve-se, o sistema dos terços de auxiliares, capitanias-mores e companhias de ordenanças. Passou a vigorar a genuína disciplina prussiana. Os nossos militares (não sei se os ingleses também...) foram "disciplinados" com, varadas, açoites, prisão a pão e água e o fuzilamento.
Com a queda do Marquês de Pombal " o exército português foi decaindo sempre até à ruína total" (Ibidem) Até que tivemos a primeira visita de Napoleão! Que se fez representar, como se sabe, em 1807 pelo exército de Junot.
Para receber Junot tínhamos cerca de 12 mil soldados no exército de linha, que incluía a a infantaria, cavalaria e artilharia e uma força mais ou menos virtual de quase 53 mil milicianos a que se juntou dias antes da chegada dos franceses a Lisboa 14 mil recrutas alistados à pressa em Lisboa. A mais importante decisão "militar" foi a da partida do príncipe João e da corte para o Brasil a 28 de Novembro de 1807. Uma medida defensiva de carácter estratégico inventada pelo marquês de Pombal.
Com a Europa apavorada com Napoleão o príncipe regente D. João não teve outro remédio, senão adjudicar o governo de Portugal ao rei de Inglaterra que para o efeito enviou para Portugal, transformado em campo de batalha e de pilhagem, com largos poderes e sucessivos exércitos, Sir Arthur Wellesley, futuro duque de Wellington comandante geral das forças inglesas e portuguesas. A comandar o exército português ficou o inglês Beresford promovido a marechal general e comandante em chefe.
Expulso os inimigos Franceses e derrotado Napoleão tivemos então que sofrer os "amigos" Ingleses com Beresford senhor absoluto do exército português apoiado em oficiais ingleses nos seus lugares chaves e por isso mesmo com poderes acrescidos no Conselho da Regência. Em resumo, continuávamos sob a protecção inglesa, a ditadura de Beresford e o país transformado em acampamento militar.

As levas de recrutas algemados

Com a criação do exército permanente a partir da Restauração este passa a ser uma instituição com carácter nacional, única e mais ou menos uniforme. A sua existência física em permanência dá-lhe além da prontidão e operacionalidade uma visibilidade acrescida. A par do bom, também se torna mais visível, nos recrutamentos a corrupção e o odioso e nos intervalos da paz a suicida negligência com a defesa, o abandono da disciplina, dos militares e da sua dignidade.
De acordo com as necessidades do exército ia-se às ordenanças e através de levas recrutavam-se os soldados para as tropas de linha.
"As levas eram um acontecimento a que só escapavam os privilegiados, os cheios de sorte, mas com a qual alguns lucravam.
"Na obra citada [ "O capitão de Infantaria Português", de André Ribeiro Coutinho, 1751] são indicados mais de vinte privilégios que concediam isenção....Ficavam livres das levas os que tinham meios para comprar bulas ou nomeações de "pedidor de esmolas" a irmandades e confrarias; os filhos dos moradores ou usufruidores de reguengos, ducados, terras de conventos; estudantes de Coimbra; os que se encontravam no âmbito dos privilégios concedidos a congregações e conventos; os filhos e criados de moedeiros; os filhos, criados, caseiros e "apaniguados" dos desembargadores... os filhos únicos de lavradores, ....
"Se se juntar a tudo isto os membros do clero regular e secular, mais os seus criados - para não falar, claro está na nobreza - fácil é verificar que só restava como grande massa mobilizável os camponeses pobres e os jornaleiros..." (13)
Mais adiante Pereira Marques afirma que " a leva caía na sede comarcã como um verdadeiro cataclismo" e baseando-se nos relatos do "Capitão de Infantaria Português", de André Ribeiro Coutinho cita exemplos de estratagemas dos infelizes que pela sua condição não estavam livres de escapar ao recrutamento e não tinham dinheiro suficiente para subornar os capitães-mores e seus agentes: pais que apresentavam filhos trocados, mancebos que voluntariamente se amputavam e simulavam doenças, outros que juravam estarem "casados de futuro" (Ibidem)
Nas impressões recolhidas sobre o exército português em "Voyage au Portugal" o cientista alemão Link ao entrar em Portugal por Elvas regista que " As tropas portuguesas são bastante boas; conheço vários regimentos bem treinados e manobrando superiormente. Poder-se-iam comparar com os corpos dos exércitos mais disciplinados". Relativamente ao recrutamento diz que " Em 1798, uma grande quantidade de jovens foram alistados à força... tomavam-se os homens onde os havia,... donde resultava que se encontravam frequentemente longas filas de jovens, com as mãos algemadas como criminosos." (Ibidem pág. 84 e 85)
Ainda de acordo com Fernando Pereira Marques na obra citada, a páginas 95, Gomes Freire de Andrade em "Ensaio sobre o método de organizar em Portugal o Exército" (1806), diz que " é necessário eliminar o carácter violento, penoso, odioso, da obrigação militar, que transforma cidadãos livres em escravos que só recuperam a sua liberdade muitos anos depois. O seu juramento diante das bandeiras perde deste modo, todo o valor, porque é como se fosse o "que prestaria um homem carregado de ferros de que jamais procuraria livrar-se destes".
Era este o Exército permanente, com o seu característico sistema de recrutamento, com as isenções e os privilégios próprios da sociedade de que era espelho com as formas compulsivas de obrigar ao serviço militar, que com poucas diferenças, com heroísmos, grandezas e misérias serviu Portugal de meados do século XVII ao fim do século XIX. Mas sem nada que se pudesse assimilar com o SMO, universal, dever e direito de cidadania.

O serviço militar e o constitucionalismo

O triunfo das ideias liberais com a rebelião militar de 1820 devolveu Beresford às Ilhas Britânicas e, com avanços e recaídas, remeteu a monarquia absoluta a regime do passado. Com a revolta militar de 1820 e as Cortes Gerais Constituintes, em 23 de Setembro de 1821 nasceu Constitucionalismo Português, 32 anos após a Grande Revolução Francesa.
O sistema de ordenanças começou por ser extinto logo em Agosto de 1821. A nova reserva territorial passou então a ser constituída pelos batalhões da Guarda Nacional. No entanto, o início da guerra civil entre os liberais constitucionalistas e os absolutistas favoráveis a D. Miguel não permitiu consolidar o fim das ordenanças. Quando se apossou do trono, em 1928, restabeleceu as ordenanças extinguiu os batalhões da Guarda Nacional e no seu lugar criou os batalhões de voluntários realistas. Ao exército passou então a dar o nome de Exército Apostólico.
As ordenanças só vêm a ser definitivamente extintas em Abril de 1832 e as milícias três meses depois. Em substituição destas como segunda linha são criados os batalhões de voluntários e da Guarda Nacional.
O sistema das ordenanças com o fim do antigo regime estava condenado mas à rapidez com que a revolução liberal procurou pôr-lhe fim não foi estranho a falta de confiança nele, uma estrutura militar regionalizada submetida à influência das elites locais conservadoras muito ligadas à Igreja e que, se tinha mostrado a sua capacidade de organizar a guerrilha contra os invasores napoleónicos também a mostrara na resistência miguelista contra os liberais.
A este respeito o general Ramires de Oliveira considera que "O século XIX corresponde a uma fase de transição entre os exércitos profissionais, dos reis absolutos, e a nova concepção dos exércitos nacionais, semipermanentes, procurando uma fórmula de adaptação a uma sociedade em rápida expansão e evolução. Asseguravam não mais a política pessoal conduzida pelo soberano mas a política gestora dos interesses nacionais,..." (Op. Cit. pág. 201)
Em seguida, o gen. Ramires de Oliveira verbera a extinção das ordenanças dizendo que se "destruiu afinal a organização mais adaptada à maneira de ser do Povo Português, com um tipo de prestação de serviço militar mais de carácter regional, temporário e excepcional, substituído por um serviço de âmbito nacional prolongado e regular."
A visão clara do movimento imparável da História das primeiras considerações de Ramires de Oliveira contrasta com a segunda que leva a confundir o sistema das ordenanças com algo adaptado à maneira de ser do Povo Português quando de facto as ordenanças constituem um sistema, excelente sem dúvida, mas adaptado, (que se foi adaptando ao longo dos séculos), isso sim, às condições históricas do país.
Imposto pela necessidade da guerra contra as invasões francesas e a imposição tirânica de Beresford, o SMO vai abrindo caminho na organização militar da nação em tempo de paz. Com a vitória das ideias liberais tributárias da Revolução Francesa, com o Constitucionalismo, o conceito de SMO universal e dever de cidadania vai ganhando terreno na sociedade portuguesa.
Em 1869 é estabelecido o serviço militar obrigatório, não pago, por cinco anos, findos os quais os militares passam a uma segunda linha ou primeira reserva e depois para a reserva territorial até completarem cinquenta anos.
Os mancebos em idade militar e apurados depois de inspecção médica eram convocados por sorteio até o seu número satisfazer as necessidades do exército.
"Mas como, para fundo de armamento, eram permitidas as remissões a dinheiro, a melhor parte da população isentava-se e só eram compelidos a servir nas fileiras como sorteados ou substitutos, os indigentes na sua quase totalidade analfabetos, o que rebaixava o nível social do exército e consequentemente o seu valor táctico." (Carlos Selvagem op. cit. pág. 580)
Nos últimos anos da monarquia no início deste século, vigorava o sistema de recrutamento de praças que vinha desde Beresford, o sistema de sorteio e que é uma aproximação ao serviço militar obrigatório e universal. No entanto, com as substituições, as remissões e outros desvios à universalidade do serviço militar, as arbitrariedades eram tantas que se criou um verdadeiro fosso entre a nação e as Forças Armadas.
É isso mesmo que diz o tenente de infantaria Cunha d’Eça e Almeida em "Remissões", na Revista Militar n.º 3 de 1908.
"Porque o serviço militar não é de facto pessoal e obrigatório, o Estado concede remissões, ou, digamos as coisas pelos seus nomes, transacciona com o imposto de sangue, expressão sonora que no nosso país só tem significado quando o colectado não dispõe de 150 mil réis."
E põe em evidência o desprestígio a que se chegou com "o serviço militar como uma mercadoria negociável". (14)

O serviço militar nas Constituições do século XIX

É interessante observar como as ideias liberais se repercutiram no ordenamento Constitucional português do século XIX relativamente ao serviço militar.
"As Cortes Gerais Extraordinárias e Constituintes, reunidas em Lisboa no ano de 1821 em nome da Santíssima e Indivisível Trindade..." aprovaram em 23 de Setembro de 1822 a primeira Constituição portuguesa assinada por D. João VI na qual o seu artigo 19ª diz, com o seu colorido romântico, o seguinte:
"Todo o português deve ser justo. Os seus principais deveres são venerar a Religião; amar a pátria; defendê-la pelas armas, quando for chamado pela lei; obedecer à Constituição e às leis; respeitar as Autoridades públicas; e contribuir para as despesas do Estado." (15)
Na Carta Constitucional de 1826 o artigo 113º diz mais prosaicamente que "Todos os portugueses são obrigados a pegar em armas para sustentar a independência e integridade do Reino e defendê-lo de seus inimigos externos e internos." (ibidem)
A Constituição Portuguesa de 1838, reinava D. Maria II, dedica o capítulo sexto do título VI à Força Armada e sobre a matéria que nos interessa diz no seu artigo 119º que "Todos os Portugueses são obrigados a pegar em armas para defender a Constituição do Estado, e a independência e integridade do Reino."(ibidem)

A República institui o SMO

O serviço militar obrigatório universal é institucionalizado em Portugal com a República, em 1911, na sequência da reorganização do Exército nesse ano.
No entanto, em Portugal, como noutros países europeus, a universalidade do serviço militar obrigatório raramente foi concretizada. Ou se voltava a estratagemas que deixavam de fora os afortunados ou se adoptavam critérios que ajustavam a incorporação nas fileiras às necessidades das Forças Armadas.
Em Portugal o alargamento efectivo a todos os jovens do sexo masculino só aconteceu durante a 1ª e 2ª guerras mundiais e durante o período das guerras coloniais.
Da década de 80 para cá, de um contingente recenseado de cerca de 100 mil mancebos o número dos que realmente cumpriram o serviço militar foi baixando até aos 50% e nos últimos anos a percentagens muito menores. Acrescem ainda distorções graves como a de que só cerca de 15 % dos jovens que tem instrução igual ou superior ao 12º ano de escolaridade são incorporados.
O SMO universal, com os contornos actuais, ganha dignidade constitucional em 1911, com a primeira Constituição do recém implantado regime republicano. O seu artigo 68º determina que "Todos os portugueses, cada qual segundo as suas aptidões, são obrigados pessoalmente ao serviço militar, para sustentar a independência e a integridade da Pátria e da Constituição e para defendê-las dos seus inimigos internos e externos."(ibidem)
De sublinhar que pela primeira vez se explicita o dever de serviço militar como um serviço pessoal e se faz referência a inimigos internos a par dos inimigos externos, visando naturalmente o perigo monárquico.
Na Constituição de 1933 com o art. 54º reafirma-se que "O serviço militar é geral e obrigatório. A lei determina a forma de ser prestado" e no art.56º diz-se que "O Estado promove, protege e auxilia instituições civis que tenham por fim adestrar e disciplinar a mocidade em ordem a prepará-la para o cumprimento dos seus deveres militares e patrióticos." (ibidem). Tratava-se da Mocidade Portuguesa.
Por sua vez a Constituição de 1976, até à revisão de 1996, no artigo 276º dizia no ponto 1 que "A defesa da Pátria é dever fundamental de todos os portugueses." E no ponto 2 que " O serviço militar é obrigatório nos termos e pelo período que a lei prescrever."
A revisão de 1996 não tocou no preceito deste ponto 1 e substituiu o ponto 2 que passou a ter a redacção seguinte: "O serviço militar é regulado por lei, que fixa as formas, a natureza voluntária ou obrigatória, a duração e o conteúdo da respectiva prestação."

Conclusões

Relativamente ao tipo de serviço militar e ao tipo de forças militares podemos determinar três períodos distintos na História de Portugal. Da fundação do reino até à restauração em 1640, durante cinco séculos, em que a força armada é muito diversificada quanto à origem e à natureza (guarda do rei, cavalaria dos grandes senhores, ordens militares, cavalaria vilã, milícias concelhias) e predominantemente não permanente; um segundo período, que vai de 1640 a 1911 com a República, em que o exército é permanente, o recrutamento é coercivo, abrange com frequência as camadas marginais da população e utiliza com peso significativo os mercenários estrangeiros por vezes até ao mais alto nível do comando; um terceiro período que vem desde 1911 e é caracterizado por Forças Armadas permanentes assentes no serviço militar obrigatório, universal, em tempo de paz e num quadro permanente que constitui a garantia da qualidade e dos saberes acrescidos.
O SMO não só não existe desde as origens da nacionalidade, como tem uma existência recente.
No entanto, o SMO apesar dos desvios ao seu carácter universal, teve um papel importante em Portugal para a criação de uma consciência cívica, para enraizar a consciência do dever de defesa da pátria, para a consolidação do sentimento nacional.
Com o SMO, ir à tropa, foi até os anos 70 a oportunidade de o camponês do interior conhecer a cidade, tomar contacto com tecnologias mais avançadas do que a enxada ou a charrua ou vencer o analfabetismo nas escolas regimentais. Foi a oportunidade de o transmontano conhecer o algarvio ou o alentejano, o beirão conhecer o minhoto ou o ribatejano e reconhecerem nas suas diferenças o carácter comum da sua condição de cidadãos, empenhados na defesa da mesma pátria portuguesa.
Não devemos, no entanto, idealizar excessivamente a realidade e atribuir ao serviço militar obrigatório o papel que não teve nem podia ter, o papel de factor principal na formação cívica ou na formação da consciência nacional dos portugueses. Se fôssemos por aí que seria da consciência cívica e apego patriótico das mulheres ou de quase metade dos homens que não prestaram serviço militar?
Ou no plano internacional que pensar do civismo, da consciência nacional ou amor à pátria dos ingleses ou dos norte-americanos que não conheceram, a não ser excepcionalmente, a conscrição?
Desde que é entidade política independente, o que é permanente em Portugal, como em todas as entidades colectivas que preservam a sua identidade e sobrevivência, é a defesa do território, do poder organizado, do reino ou da República, dos seus "interesses" que frequentemente são identificados fora do seu território ou, numa versão moderna e sucinta a defesa da Pátria.
Os perigos para a Instituição militar, e em consequência para a defesa do país, provenientes da extinção do SMO foram também, com razão ou sem ela dramatizados. Há quem receie que a profissionalização coloque as FFAA nos carris da mercenarização, ou por falta de meios financeiros e baixas remunerações as transforme numa força armada de marginais e desqualificados ou não se consiga atrair o número suficiente de voluntários e por essa via se caminhe para a própria destruição das FFAA.
Não é crível que se possa cair nesta situação extrema mas a profissionalização das FFAA exige que previamente se conheça os custos e se assegurem os meios financeiros que garantam a indeclinável dignidade da condição militar. E que garantam a presença nas FFAA de portugueses de todas as condições e origens sociais, com os saberes necessários, de modo a que elas não deixem de ser um Instituição prestigiada na qual os portugueses se revejam com orgulho.
Podemos concluir que o serviço militar é um meio e não um fim em si. O fim que se pretende alcançar com ele é a Defesa adequada. Esta, por sua vez, em função do momento histórico exige um serviço militar consonante.
A mudança de natureza do serviço militar que hoje se perspectiva é adequada às novas missões das Forças Armadas, ao contexto político e estratégico, ao sistema de alianças e às novas concepções do emprego de forças, conjuntas e combinadas. E apesar do inegável e importante o papel que o serviço militar obrigatório teve, particularmente até aos anos setenta deste século como factor de coesão nacional e formação cívica, ele tem vindo a perder importância e pode ser relativizado no mundo da comunicação que é já o Portugal de hoje, no fim do século XX.
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(1) - Michael Howard, "A Guerra na História da Europa". Europa-América, 1997.
(3) – M. Raoul Girardet. Exposição ao Senado Francês, em 1996, no âmbito da preparação de legislação que consagrou a profissionalização das forças armadas francesas.
(4) - "De la conscription à l'armée de métier: le cas britannique" Défense Nationale, Maio de 1992.
(5) José Matoso "Ricos-Homens, Infanções e Cavaleiros" 2ª edição, 1985, Guimarães Editores.
(6) José Matoso (op.cit. pág 232)
(7) Regine Pernoud em "Os Templários", pág.149 Europa-América, 2ª edição.
(8) - Carlos Selvagem em "Portugal Militar" pág141, Lisboa, Imprensa Nacional, 1931.
(9) - Carlos Selvagem op.cit. pág. 324
(10) - Gen. Ramires de Oliveira em "História do Exército Português", I Volume, EME, 1993 pág. 112.
(11) - Oliveira Martins em "História de Portugal" pág. 416/7.
(12) - Carlos Selvagem Op.cit. pág. 466.
(13) - Fernando Pereira Marques " Exército e Sociedade em Portugal" pág. 40 e 41, A Regra do Jogo, 1981.
(14) - Gen. Belchior Vieira em "Visão Prospectiva do Serviço Militar em Portugal", IAEM, 1996.
(15) - "Constituições Portuguesas", Assembleia da República, 1992.
Nota: Todos os sublinhados são do autor do artigo.