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2010-02-28

Victor Louro sobre Eng. Silvicultor Cecílio Gomes da Silva

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Victor Louro é engenheiro silvicultor reformado, foi Secretário de Estado da Reforma Agrária no VI Governo Provisório e comenta o artigo de Cecílio Gomes da Silva, publicado em 1985, [ver post abaixo] que descreve um "sonho" onde "viu" a catástrofe que se poderia abater sobre o Funchal se não se tomassem medidas como as que propunha, e que... se abateu sobre a cidade em 2010!!
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"O meu colega não é bruxo, mas é um grande Silvicultor. É um homem entusiasta e sabedor, que elaborou a 1ª carta de risco de incêndios florestais, nos anos 80: apesar das técnicas de então, esteve em uso 20 anos até 2003, quando foi substituida por uma outra resultante das imagens de satélite, com alta tecnologia !
Foi este Homem que eu quis que o Ministério lhe atribuisse a medalha de Mérito Agrícola aquando da publicação da referida carta de 2003, sob a minha responsabilidade enquanto Director de Serviços. Mas nem sequer aceitaram a minha insistência para o convidar para a apresentação pública da mesma !
Escrevi na Apresentação desse livro:

"A Carta de 1981 traduziu esse fenómeno com assinalável consistência. Ela foi possível graças ao conhecimento prático acumulado na DGF (que, na época detinha não só a responsabilidade da vigilância, como a do combate, ao menos nas matas que estavam sob sua gestao, ou seja, as Matas Nacionais e os Baldios). Mas, essencialmente, graças ao conhecimento científico que ali residia. E como as instituições não fazem o trabalho por elas próprias, é de elementar justiça destacar o saber e a técnica do Engenheiro Silvicultor Cecílio Gomes da Silva, o grande autor da referida Carta. Com papel vegetal e lápis, sobrepondo sucessivas cartas (climáticas, exposições, demografia e distribuição da vegetação), esse distinto silvicultor produziu um instrumento cartográfico assente nos conceitos disponíveis na época, que se revelou de grande utilidade. Deve-lhe o País este reconhecimento público".

Quando o saber respeitar a Natureza é substituído pelo patobravismo, e a ganância ganha foros de "valor" humano e "guia" do comportamento, é inevitável que, mais tarde ou mais cedo, ela - a Natureza - nos lembre a burrice dessas irresponsabilidades. Mesmo que nos chamem idealistas e utópicos, é preciso ter a coragem de denunciar constantemente essas burrices -. porque a Terra é só uma.

Eu tive um sonho

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A catástrofe da Madeira de Fevereiro de 2010 prevista em 1985.

Artigo publicado no “Diário de Notícias” do Funchal no dia 13 de Janeiro de 1985 pelo Engenheiro Silvicultor. Cecílio Gomes da Silva (Madeirense falecido em 2005) [Aqui] e [aqui] (Relacionado com o autor: Link)
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«Traumatizado pelo estado de desertificação das serras do interior da Ilha da Madeira, muito especialmente da região a Norte do Funchal e que constitui as bacias hidrográficas das três ribeiras que confluem para o Funchal, dando-lhe aquela fisiografia de perfeito anfiteatro, aliado a recordações da infância passada junto à margem de uma das mais torrenciais dessas ribeiras – a de Santa Luzia – o mundo dos meus sonhos é frequentemente tomado por pesadelos sempre ligados às enxurradas invernais e infernais dessa ribeira. Tive um sonho.

Adormecendo ao som do vento e da chuva fustigando o arvoredo do exemplar Bairro dos Olivais Sul onde resido, subia a escadaria do Pico das Pedras, sobranceiro ao Funchal. Nuvens negras apareceram a Sudoeste da cidade, fazendo desaparecer o largo e profundo horizonte, ligando o mar ao céu. Acompanhavam-me dois dos meus irmãos – memórias do tempo da Juventude – em que nós, depois do almoço, íamos a pé, subindo a Ribeira de Santa Luzia e trepando até à Alegria por alturas da Fundoa, até ao Pico das Pedras, Esteias e Pico Escalvado. Mas no sonho, a meio da escadaria de lascas de pedra, o vento fez-nos parar, obrigando-nos a agarrarmo-nos a uns pinheiros que ladeavam a pequena levada que corria ao lado da escadaria. Lembro-me que corria água em supetões, devido ao grande declive, como nesses velhos tempos. De repente, tudo escureceu. Cordas de água desabaram sobre toda a paisagem que desaparecia rapidamente à nossa volta. O tempo passava e um ruído ensurdecedor, semelhante a uma trovoada, enchia todo o espaço. Quanto durou, é difícil calcular em sonhos. Repentinamente, como começou, tudo parou; as nuvens dissiparam-se, o vento amainou e a luz voltou. Só o ruído continuava cada vez mais cavo e assustador. Olhei para o Sul e qualquer coisa de terrível, dantesco e caótico se me deparou. A Ribeira de Santa Luzia, a Ribeira de S. João e a Ribeira de João Gomes eram três grandes rios, monstruosamente caudalosos e arrasadores. De onde me encontrava via-os transformarem-se numa só torrente de lama, pedras e detritos de toda a ordem. A Ribeira de Santa Luzia, bloqueada por alturas da Ponte Nova – um elevado monturo de pedras, plantas, arames e toda a ordem de entulho fez de tampão ao reduzido canal formado pelas muralhas da Rua 31 de Janeiro e da Rua 5 de Outubro – galgou para um e outro lado em ondas alterosas vermelho acastanhadas, arrasando todos os quarteirões entre a Rua dos Ferreiros na margem direita e a Rua das Hortas na margem esquerda. As águas efervescentes, engrossando cada vez mais em montanhas de vagas espessas, tudo cobriram até à Sé – único edifício de pé. Toda a velha baixa tinha desaparecido debaixo de um fervedouro de água e lama. A Ribeira de João Gomes quase não saiu do seu leito até alturas do Campo da Barca; aí, porém, chocando com as águas vindas da Ribeira de Santa Luzia, soltou pela margem esquerda formando um vasto leito que ia desaguar no Campo Almirante Reis junto ao Forte de S. Tiago. A Ribeira de S. João, interrompida por alturas da Cabouqueira fez da Rua da Carreira o seu novo leito que, transbordando, tudo arrasou até à Avenida Arriaga. Um tumultuoso lençol espumante de lama ia dos pés do Infante D. Henrique à muralha do Forte de S. Tiago. O mar em fúria disputava a terra com as ribeiras. Recordo-me de ver três ilhas no meio daquele turbilhão imenso: o Palácio de S. Lourenço, A torre da Sé e a fortaleza de S. Tiago. Tudo o mais tinha desaparecido – só água lamacenta em turbilhões devastadores.

Acordei encharcado. Não era água, mas suor. Não consegui voltar a adormecer. Acordado o resto da noite por tremenda insónia, resolvi arborizar toda a serra que forma as bacias dessas ribeiras. Continuei a sonhar, desta vez acordado. Quase materializei a imaginação; via-me por aquelas chapas nuas e erosionadas, com batalhões de homens, mulheres e máquinas, semeando urze e louro, plantando castanheiros, nogueiras, pau-branco e vinháticos; corrigindo as barrocas com pequenas barragens de correcção torrencial, canalizando talvegues, desobstruindo canais. E vi a serra verdejante; a água cristalina deslizar lentamente pelos relvados, saltitando pelos córregos enchendo levadas. Voltei a ouvir os cantares dolentes dos regantes pelos socalcos ubérrimos das vertentes. Foram dois sonhos. Nenhum deles era real; felizmente para o primeiro; infelizmente para o segundo.

Oxalá que nunca se diga que sou profeta. Mas as condições para a concretização do pesadelo existem em grau mais do que suficiente.

Os grandes aluviões são cíclicos na Madeira. Basta lembrar o da Ribeira da Madalena e mais recentemente o da Ribeira de Machico. Aqui, porém, já não é uma ribeira, mas três, qualquer delas com bacias hidrográficas mais amplas e totalmente desarborizadas. Os canais de dejecção praticamente não existem nestas ribeiras e os cones de dejecção estão a níveis mais elevados do que a baixa da cidade. As margens estão obstruídas por vegetação e nalguns troços estão cobertas por arames e trepadeiras. Agradável à vista mas preocupante se as águas as atingirem. Estão criadas todas as condições, a montante e a jusante para uma tragédia de dimensões imprevisíveis (só em sonhos).

Não sei como me classificaria Freud se ouvisse este sonho. Apenas posso afirmar sem necessidade de demonstrações matemáticas que 1 mais 1 são 2, com ou sem computador. O que me deprime, porém, é pensar que o segundo sonho é menos provável de acontecer do que o primeiro.
Dei o alarme – pensem nele.
Cecílio Gomes da Silva